POEMs em Português

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POEMs em portuguêse traduzidos e comentados nesta edição por

SOBRAMFA- Sociedade Brasileira de Medicina de Família

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Diagnóstico de incontinência urinária com três perguntas
Biópsia de nódulo sentinela = menos linfedema e melhor qualidade de vida (ALMANAC)
Ondansentrona é efetiva para gastroenterite com vômitos
Acupressão tem melhor desempenho que fisioterapia para lombalgia
Ressonância não é precisa no diagnóstico de esclerose múltipla
Ventilação não invasiva é efetiva para edema pulmonar
Estrógeno isolado não aumenta risco de câncer de mama
Assistência por telefone é efetiva para abandono do tabagismo
Vacina bivalente contra o HPV é efetiva por 4,5 anos
Enoxaparina é melhor do que heparina para IAM com elevação de ST
ISRS associados a resultados neonatais adversos
Aspirina é prevenção para eventos em pacientes com doença arterial periférica (DAP)
Riscos superam benefícios no uso da aspirina/ AINES na prevenção do câncer de colo-retal
Morfina melhora tosse crônica e intratável
Diretrizes para o gerenciamento das TVP (AAFP e ACP)
Glitazonas podem ser benéficas após angioplastia
Restauração dental com amálgama de mercúrio é segura para crianças
Mamografias resultam em excesso de diagnósticos
Reduzir homocisteína não reduz DCV (HOPE 2)
Ácidos graxos ômega 3 não afetam mortalidade
Benefício da soja na prevenção do câncer de mama é incerto
Bloqueio simpático pode melhorar qualidade de vida na hiperidrose
Isoflavonas melhoram humor de mulheres no pós-menopausa
Imersão imediata em água quente é o melhor para queimadura de água-viva
Fondaparinux reduz mortalidade em pacientes com IAM
Probióticos são úteis nas diarréias associadas a antibióticos
Paroxetina prolongada previne depressão recidivante em idosos
Antibiótico reduz flatulência e empachamento também na síndrome do cólon irritável
Levo, amoxa e IBP são mais efetivos para H pylori persistente
Fondaparinux reduz mortalidade em pacientes com IAM
Telitromicina não tem benefício significativo na asma (TELICAST)
Cálcio e vitamina D previnem quedas
Morfina associada ao cetorolaco é a melhor escolha para cólica renal
Temperatura do conduto auditivo não é confiável na detecção de febre
Drogas antidepressivas aumentam risco de suicídio em crianças
Monitoramento e tratamento não são necessários no refluxo vésicoureteral moderado em crianças
Ropivacaína epidural precoce não aumenta taxa de cesarianas
Descolamento da membrana no início da indução do parto ajuda
Temperatura do conduto auditivo não é confiável na detecção de febre
Gerenciamento da síndrome anticorpo anti-fosfolípide
Oximetria de pulso fetal não reduz partos operatórios
Umidade a 100% não é melhor do que nebulização normal no tratamento do crupe
8 achados clínicos identificam AVC's
Ácido úrico é mau preditor de complicações na pré-eclâmpsia
Uso de corticóides na artrite reumatóide é seguro com baixas doses
Droperidol é melhor antiemético do que a metoclopramida e a proclorperazina
Dexametasona reduz náuseas em pacientes submetidos a colecistectomia laparoscópica
Topiramato é ligeiramente melhor do que o placebo no tremor essencial
Obesidade não afeta resultados de cinco anos da prótese no joelho
AAS e estatinas só são custo-efetivos nos pacientes de alto risco
Tala rígida é igual a faixa nas fraturas do galho verde em crianças
ACO’s que contêm norentindrona proporcionam menos dias de sangramento se usados continuamente
Diretriz: rastreamento da displasia congênita do quadril tem evidências insuficientes
Prematuros com doença cardíaca congênita têm 72% de mortalidade
Dietas com poucos carboidratos são iguais às que contêm poucas gorduras
Insulina intensiva só é útil se permanência na UTI for maior do que três dias
Fondaparinux é preferível nas síndromes coronarianas agudas
Tratamentos excisionais da displasia cervical associados a resultados adversos
Natalizumab reduz recidivas e incapacidade na EM recorrente
Kiwi® tem maior probabilidade de falhas
Ropirinol pode ser efetivo para síndrome das pernas irrequietas
Recidiva da depressão é alta quando se interrompem as medicações durante a gravidez
Progesterona subcutânea alivia dor da endometriose
Maioria dos neonatos de extremo baixo peso se tornam adultos funcionais
Auto-monitoramento da anticoagulação é superior nas embolias venosas
Câncer relacionado a alguns tratamentos para diabetes
Duloxetina é efetiva para fibromialgia em algumas mulheres
Rimonabant (Acomplia) é minimamente efetivo para perda de peso
Lesão miocárdica prediz mortalidade nas intoxicações por CO
Estatinas são equivalentes na prevenção da doença cardiovascular
Antivirais são ligeiramente efetivos contra o influenza em adultos saudáveis
Teste do PNB é benéfico na ICC com doença pulmonar
Lesão miocárdica prediz mortalidade nas intoxicações por CO
Cefalosporinas são geralmente seguras para os pacientes alérgicos à penicilina
Rimonabant (Acomplia) é minimamente efetivo para perda de peso
Intolerância a glicose é preditor de mortalidade entre não-diabéticos
Tratamento clínico efetivo para obstrução parcial do delgado
Rastreamento com sangue oculto não reduz mortalidade por todas as causas
"Resfriado no peito" em vez de "bronquite" reduz uso desnecessário de antibióticos
Maioria dos neonatos de extremo baixo peso de tornam adultos funcionais
ISRS aumentam risco de hipertensão pulmonar em recém-nascidos
Vacina contra o HPV previne NIC's
Auto-monitoramento da anticoagulação é superior nas embolias venosas
Conduta expectante é opção aceitável nas hérnias inguinais
Vacina contra o HPV previne NIC's
Tanto faz ficar ou não gritando “Força!” durante o parto
Aspirina reduz risco de acidentes cardiovasculares e aumenta risco de sangramentos
Inalação de solução hipertônica é efetiva na fibrose cística
Pais preferem participar da decisão terapêutica na OMA
Inibidor da ECA retarda progressão da disfunção renal (creatinina entre 3 e 5 mg/dl)
Medidas seriadas do PNB prevêem risco de morte e ICC após síndrome coronariana aguda
Pés frios aumentam probabilidade de sintomas de IVAS
Dieta rica em ômega 3 reduz ligeiramente os sintomas da DPOC
Pelargônio é efetivo para sintomas da bronquite aguda
Yoga é efetiva para lombalgia
Citalopram não é teratogênico
Alta ingesta de fibras não está associada a redução no risco de câncer cólo-retal
Prescrever antibióticos não economiza tempo
Antipsicóticos: segurança para os idosos é semelhante entre os diferentes agentes
Beta-bloqueadores não previnem varizes gastro-esofágicas
Redução dos antibióticos dados a crianças com garganta inflamada não aumentou complicações raras
Plasil EV reduz náuseas e desconforto durante inserção de sonda nasogástrica
ACO’s são seguros para portadoras de LES
Pais preferem participar da decisão terapêutica na OMA
Enxerto é igual a angioplastia na isquemia grave dos MMII, mas custa mais (BASIL)
Fenofibrato não previne episódios coronarianos no DM (FIELD)
Tratamento clínico efetivo para obstrução parcial do delgado
Vacina pertussis acelular tem efetividade entre 63% e 92%
Tretinoína tópica pode acelerar cura das úlceras diabéticas
TC helicoidal auxilia no gerenciamento de pacientes de PS com dor abdominal inespecífica (GAPEDS)
Metoprolol precoce no IAM: sem benefícios e com possíveis prejuízos (COMMIT; CCS-2)
Gerenciamento do diabetes durante o Ramadã
Associação da gabapentina à morfina é ligeiramente melhor para as nevralgias do que o uso isolado de uma das duas
25% dos pacientes com fibrilação atrial paroxística desenvolvem fibrilação atrial crônica em 5 anos
Oxigênio hiperbárico previne grandes amputações em diabéticos
Inibidores da ECA benéficos para diabéticos
Idade maior do que 55 e fatores de alarme aumentam a chance de neoplasia digestiva alta
Estrógeno aumenta risco de doença biliar
Aumentar os níveis de HDL traz poucos benefícios
Fisioterapia ajuda pouco na lombalgia
Cirurgia bariátrica funciona para obesidade mórbida
Fluticasona ns asma funciona melhor quando associada ao salmeterol (estudo GOAL)
Antioxidantes não previnem cânceres gastro-intestinais e aumentam a mortalidade geral
Anti-agregamento plaquetário oral otimizado para doença vascular
Existe eficácia no uso da acupuntura em osteoartrite de joelho
Supressão da acidez gástrica associada com o aumento do risco de pneumonia
Redução de lipídios no diabetes tipo 2 é valiosa
Omeprazol 20 mg = 40 mg na dispepsia ácida em atenção primária
O uso regular de beta-bloqueadores reduz o uso de fraturas
Heparina de baixo peso molecular (HBPM) é igualmente eficaz no embolismo pulmonar (EP)
Períodos curtos de tratamento com corticoesteróides são eficazes para sepse
Não se recomenda screening de rotina para doenças cardíacas
Não é necessário o uso de luvas estéreis para reparos de lacerações

Medidas de pressão arterial em casa complementam medidas no consultório



Diagnóstico de incontinência urinária com três perguntas

Questão clínica
A incontinência de esforço pode ser diferenciada da urge-incontinência com o uso de um questionário?

Resumo
Um questionário simples de três itens - e uma pergunta, em particular - pode diferenciar a incontinência como predominantemente de esforço ou de urgência em três de cada quatro mulheres. O questionário escrito pode ser preenchido pelas próprias mulheres e leva cerca de 30 segundos.

Nível de evidência: 2 b

Referência
Brown JS, Bradley CS, Subak LL, et al, for the Diagnostic Aspects of Incontinence Study (DAISy) Research Group. The sensitivity and specificity of a simple test to distinguish between urge and stress urinary incontinence. Ann Intern Med 2006;144:715-723.

Desenho de estudo: avaliação de teste diagnóstico

Apoio financeiro: indústria

Casuística: base populacional

Discussão
Os autores desse estudo testaram um questionário de 3 itens para ver se ele poderia, de maneira precisa, diferenciar a urge-incontinência da incontinência de esforço em mulheres. Através de anúncios, eles recrutaram mulheres de pelo menos 40 anos de idade e que tinham incontinência urinária não tratada (por uma média de 7 anos) em uma ampla gama de graus de gravidade. Todas as 301 mulheres de estudo completaram o questionário escrito e então foram extensivamente avaliadas por um urologista ou ginecologista que não estava ciente das respostas às questões. O padrão-ouro foi a revisão cega da avaliação expandida por um segundo especialista que não estava ciente dos resultados do questionário ou da conclusão do primeiro especialista. A incontinência de esforço foi diagnosticada em 44% das pacientes, há urge-incontinência em 40%, a mista em 14% e as outras causas em 3%. Em comparação com o padrão-ouro, o questionário teve uma sensibilidade de 0,75 em uma especificidade de 0,77 para a urge-incontinência e uma sensibilidade de 0,86 e uma especificidade de 0,60 para a incontinência de estresse. Dada a distribuição similar dos tipos de incontinência, as perguntas terão um valor preditivo positivo de 73% para a incontinência de estresse e 75% para a urge-incontinência. O questionário é o seguinte: (sendo que apenas a questão número 3 foi usada para determinar o diagnóstico):

1-Você deixou escapar urina para (mesmo que só um pouquinho) nos últimos três meses?
2-Nos últimos três meses você deixou escapar urina:
a) quando realizando alguma atividade tal como tossir, assoar o nariz, levantar peso ou fazer exercício?
b) quando você sentiu urgência ou a sensação de que você necessitava esvaziar sua bexiga?
c) sem atividade física ou sensação de urgência?
3-Durante os três últimos meses, você perdeu urina com maior freqüência:
a) quando estava realizando uma atividade física tal como tossir, assoar nariz, levantar peso ou fazer exercícios? (diagnóstico: esforço)
b) quando você sentiu urgência ou sensação de que precisava esvaziar a bexiga mas não conseguiu chegar ao banheiro a tempo? (diagnóstico: urgência)
c) sem atividade física e sem a sensação de urgência? (diagnóstico: outra causa)
d) com a mesma freqüência quando realizando atividade física e com senso de urgência? (diagnóstico: misto)


 


Biópsia de nódulo sentinela = menos linfedema e melhor qualidade de vida (ALMANAC)

Questão clínica
A biópsia do linfonodo sentinela é preferível sobre a dissecação-padrão dos nódulos axilares em pacientes submetidas a cirurgia por câncer de mama?

Resumo
Em comparação com a dissecação-padrão dos nódulos axilares, a biópsia do linfonodo sentinela está associada a menos linfedema e melhor qualidade de vida em pacientes submetidos a cirurgia por câncer de mama em estágio inicial que clinicamente parecem estar com nódulos negativos.

Nível de evidência: 2 b

Referência
Mansel RE, Fallowfield L, Kissin M, et al. Randomized multicenter trial of sentinel node biopsy versus standard axillary treatment in operable breast cancer: the ALMANAC Trial. J Natl Cancer Inst 2006;98:599-609.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (não cego)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Casuística: pacientes internados (qualquer localização) com seguimento ambulatorial

Discussão
Nesse estudo multicêntrico, mulheres com menos de 80 anos com programação de uma ampla excisão local ou mastectomia por câncer de mama invasivo com linfonodos clinicamente negativos foram aleatoriamente distribuídas para receberem a dissecação padrão dos nódulos axilares (n = 496) ou a biópsia do linfonodo sentinela (n = 495). Os cirurgiões participantes tinham que ter realizado pelo menos 40 biópsias de linfonodos-sentinela que foram seguidas de ressecções axilares mais invasivas. Se o cirurgião tivesse identificado o linfonodo sentinela em pelo menos 90% das vezes, poderia participar. Os principais resultados - linfedema e qualidade de vida - foram avaliados por intenção de tratamento. Ao final de um ano, 2,1% dos pacientes do tratamento-padrão relataram linfedema de moderado a grave em comparação com 0,8% daqueles tratados com a biópsia do linfonodo sentinela (número necessário para tratar = 80). As participantes submetidas à biópsia do nódulo sentinela relataram melhor qualidade de vida, medida pelo Trial Outcome Index of the Functional Assessment of Cancer Therapy--Breast (FACT-B), uma medida específica para câncer de mama. Ao final de um ano, os pesquisadores tiveram os dados de seguimento completo de apenas 82% das pacientes, o que tem o potencial de afetar os resultados gerais.



Ondansentrona é efetiva para gastroenterite com vômitos

Questão clínica
A ondansentrona é segura e efetiva para crianças desidratadas com gastroenterite?

Resumo
A ondansentrona (Zofran) administrada a crianças de leve a moderadamente desidratadas devido a diarréia e vômitos melhora sua habilidade de aderir à reidratação oral e reduz a necessidade de hidratação intravenosa.

Níveis de evidência: 1 b

Referência
Freedman SB, Adler M, Seshadri R, Powell EC. Oral ondansetron for gastroenteritis in a pediatric emergency department. N Engl J Med 2006;354:1698-1705.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Casuística: pacientes de pronto-socorro

Discussão
Apesar de a reidratação oral ser o tratamento de escolha para crianças que se apresentam com gastroenterite, ela pode ser um desafio quando o paciente não consegue manter nada no estômago. Isso leva ao uso excessivo da hidratação intravenosa, particularmente quando se leva em consideração a escassez de tempo que ocorre nos departamentos de emergência. Esses autores consideraram incluir qualquer criança de leve a moderadamente desidratada que tivesse tido pelo menos um episódio de diarréia e um episódio de vômito nas 4 horas anteriores. Aquelas com um peso corporal de menos de 8 kg que estavam gravemente desidratadas pelo uso de sintomas padronizados (exemplo: pele fria ou úmida, mucosas muito secas, ausência de lágrimas, taquicardia moderada, anúria por pelo menos seis horas e letargia) e aquelas com co-morbidades significativas foram excluídas. Das 243 crianças inicialmente consideradas, 215 foram submetidas à distribuição aleatória (por processo mascarado) para receberem ondansentrona ou placebo. A dose de ondansentrona foi 2 mg para as crianças que pesavam entre 8 e 15 kg, 4 mg para aquelas que pesavam de 15 a 30 kg e 8 mg para as que pesavam mais do que 30 quilos. As doses foram repetidas se as crianças vomitassem dentro de quinze minutos após terem ingerido a medicação. A idade média das crianças foi 28 meses, 57% eram do sexo masculino e elas tiveram, em média, seis episódios de diarréia e 9 episódios de vômito nas 24 horas anteriores. Os grupos foram semelhantes na linha de base e a análise foi por intenção de tratamento. As crianças que receberam ondansentrona tiveram uma probabilidade menor de vomitar enquanto recebiam a hidratação (14% versus 35%; P = 0,001; número necessário para tratar [NNT] = 5), tiveram menos episódios de vômito (0,18 versus 0,65; P = 0,001) e tiveram menor probabilidade de necessitarem de reidratação intravenosa (14% versus 31%; P = 0,003; NNT = 5). Não houve diferença no número de crianças que necessitaram de hospitalização ou na porcentagem das que retornaram ao departamento de emergência. A droga foi bem tolerada, apesar de haver uma média de 0,9 episódios adicionais de diarréia para as crianças que receberam a ondansentrona.



Acupressão tem melhor desempenho que fisioterapia para lombalgia

Questão clínica
A acupressão é mais efetiva do que fisioterapia para a dor lombar baixa?

Resumo
A acupressão foi significativamente mais efetiva do que as modalidades-padrão de fisioterapia e exercício na redução das pontuações de incapacidade e dor em pacientes com lombalgia crônica.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Hsieh LL, Kuo CH, Lee LH, Yen AM, Chien KL, Chen TH. Treatment of low back pain by acupressure and physical therapy: randomised controlled trial. BMJ 2006;332:696-700.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (cego-simples)

Apoio financeiro: auto financiado ou sem financiamento

Discussão
Os pesquisadores taiwaneses que conduziram esse estudo envolveram 129 pessoas com dor lombar baixa por pelo menos um mês que compareceram a uma clínica ortopédica. Utilizando o questionário de incapacidade de Roland e Morris, 63% dos pacientes envolvidos tinham uma incapacidade mínima, com uma pontuação entre 0 e 12 (de 24 possíveis|). Utilizando a distribuição mascarada, os pesquisadores designaram os participantes a receberem seis sessões de fisioterapia de rotina ou acupressão no período de um mês. A terapia física poderia incluir tração manual pélvica, manipulação vertebral, termoterapia, terapia com luz infravermelha, estimulação elétrica e terapia com exercícios, de acordo com a condução de um fisioterapeuta. A acupressão foi administrada por um único terapeuta. A análise foi por intenção de tratamento. Seis meses após o fim do tratamento, a dor, os dias de ausência no trabalho ou escola e a satisfação foram significativamente melhorados com a acupressão. A incapacidade foi significativamente menor nos pacientes tratados com a acupressão do que nos que usaram fisioterapia, com uma pontuação média na escala de Roland e Morris de 2,2 versus 6,7 (p = 0,0001). As pontuações no questionário de incapacidade de Oswestry modificado também foram significativamente melhores com acupressão - uma média de 6,3 pontos melhor em 54 possíveis.



Ressonância não é precisa no diagnóstico de esclerose múltipla

Questão clínica
A imagem por ressonância magnética nuclear é precisa ao confirmar ou descartar a esclerose múltipla?

Resumo
A imagem por ressonância magnética nuclear (RMN) não é particularmente útil para confirmar ou descartar a esclerose múltipla (EM). Confiar nela para fazer o diagnóstico resultará em diagnósticos excessivos e utilizá-la para descartar a doença o fará deixar passar cerca de metade dos pacientes que acabarão por receber um diagnóstico clínico.

Nível de evidência: 1 a

Referência
Whiting P, Harbord R, Main C, et al. Accuracy of magnetic resonance imaging for the diagnosis of multiple sclerosis: systematic review. BMJ 2006;15:875-884.

Desenho de estudo: revisão sistemática

Apoio financeiro: governamental

Casuística: variada (meta-análise)

Discussão
Os autores dessa revisão sistemática reuniram 29 estudos que avaliaram a precisão diagnóstica da RMN em pacientes com suspeita de EM realizando buscas em 12 bases de dados e nas listas de referências dos estudos identificados. Dois revisores selecionaram os estudos para inclusão: 18 dos selecionados eram estudos de coorte e onze eram de desenho inferior (caso-controle). A RMN foi realizada e um diagnóstico feito, e então os pacientes foram seguidos por períodos entre 7 meses e 14 anos para determinar se eles tinham uma esclerose múltipla clinicamente definida. A RMN não é muito efetiva nem em confirmar nem em descartar a doença. Assumindo uma probabilidade de presença de EM de 60%, um resultado positivo da RMN (pelo menos uma lesão) aumenta a probabilidade para apenas 75% a 84% (razão de probabilidade positiva = 2,0-3,4), significando que um em cada quatro ou cinco pacientes será rotulado de maneira incorreta. Se o resultado da RMN for negativo, a probabilidade de o paciente ser portador de esclerose múltipla ainda fica entre 43% e 57% (razão de probabilidade negativa = 0,1-0,9).



Ventilação não invasiva é efetiva para edema pulmonar

Questão clínica
A ventilação por pressão positiva não invasiva é efetiva no tratamento de pacientes com edema pulmonar agudo cardiogênico?

Resumo
Os pacientes que apresentam edema pulmonar agudo cardiogênico tratados com ventilação não invasiva por pressão positiva têm menor probabilidade de morrer no hospital ou de necessitarem de ventilação mecânica do que os que recebem os cuidados-padrão.

Nível de evidência: 1 a

Referência
Peter JV, Moran JL, Phillips-Hughes J, Graham P, Bersten AD. Effect of non-invasive positive pressure ventilation (NIPPV) on mortality in patients with acute cardiogenic pulmonary oedema: a meta-analysis. Lancet 2006;367:1155-1163.

Desenho de estudo: meta análise (de ensaios de randomizados controlados)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Casuística: pacientes internados (quaisquer)

Discussão
Essa equipe revisou de maneira sistemática múltiplas bases de dados, utilizando uma estratégia de pesquisa sensível para encontrar 23 pequenos ensaios randomizados controlados sobre ventilação não invasiva, podendo esta ser por pressão positiva contínua (CPAP) ou do tipo bi-level. Os dados foram extraídos de maneira independente por dois pesquisadores, sendo as discrepâncias resolvidas por consenso. Os autores não relatam se a decisão de incluir ou excluir estudos foi também realizada de maneira independente. Além disso, eles não dizem se procuraram por estudos não publicados. Os estudos aptos incluíram mais de 1300 pacientes com edema pulmonar cardiogênico. A ventilação não invasiva foi mais efetiva do que os cuidados habituais na prevenção de mortalidade intra-hospitalar (11,7% versus 21,3%; número necessário para tratar [NNT] = 11; IC de 95%%: 7-21), sendo que não houve diferenças entre o CPAP e a ventilação bi-level. De maneira semelhante, os pacientes que receberam ventilação não invasiva necessitaram de ventilação mecânica com menos freqüência (11,9% versus 28,1%; NNT = 7; 5-9), sem diferenças entre os resultados entre CPAP e bi-level. Os dados foram altamente consistentes entre os estudos. Uma vez que há a possibilidade de vieses de publicação a favor dos resultados positivos, os resultados de um ensaio maior (se porventura algum vier a ser realizado) podem não parecer tão bons.



Estrógeno isolado não aumenta risco de câncer de mama

Questão clínica
A terapia estrogênica não contrabalançada em mulheres histerectomizadas no pós-menopausa aumenta o risco de câncer de mama?

Resumo
A terapia estrogênica isolada não aumenta o risco de câncer de mama de mulheres no pós-menopausa com histerectomia anterior. As mulheres que recebem estrógeno têm maior probabilidade de receberem exames adicionais após resultados questionáveis de mamografias, o que tem o potencial de levar a maior ansiedade e redução da qualidade de vida. A decisão para se usar estrógeno em mulheres no pós-menopausa após histerectomia deveria ser individualizada com base nos riscos e benefícios potenciais em geral. As mulheres com maior probabilidade de se beneficiarem da terapia estrogênica incluem as que têm calores incapacitantes e maior risco de fraturas osteoporóticas. Sempre que possível o tratamento deveria ser limitado aos primeiros 5 anos (ou menos) após a menopausa.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Stefanick ML, Anderson GL, Margolis KL, et al, for the WHI Investigators. Effects of conjugated equine estrogens on breast cancer and mammography screening in postmenopausal women with hysterectomy. JAMA 2006;295:1647-1657.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo-cego)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Discussão
A terapia de reposição hormonal que utiliza tanto os estrógenos quanto a progesterona aumenta o risco de câncer de mama invasivo. O risco em mulheres no pós-menopausa com histerectomia anterior tratadas apenas com estrógenos ainda não está bem determinado. Como parte do Women's Health Initiative (WHI), os pesquisadores distribuíram aleatoriamente (por processo mascarado) 10.739 mulheres no pós-menopausa, com idades entre 50 e 79 anos, com histerectomia anterior, para receberem 0,625 mg por dia de estrógenos conjugados eqüinos ou placebo. Os indivíduos que avaliaram os dados permaneceram cegos à distribuição dos grupos de tratamento. O seguimento foi efetivo para quase 95% das participantes por uma média de 7,1 anos. Pelo uso da análise por intenção de tratamento, foram observadas reduções não significativas nas incidências de câncer de mama invasivo e de câncer de mama em geral nas mulheres que receberam os estrógenos. Um número significativamente maior de mulheres de receberem estrógenos teve resultados de mamografias questionáveis que exigiram avaliações adicionais de curto prazo (36,2% versus 28,1% em um período de 7 anos).



Assistência por telefone é efetiva para abandono do tabagismo

Questão clínica
O aconselhamento telefônico é mais efetivo do que os cuidados habituais para ajudar os pacientes a abandonar o tabaco?

Resumo
Um programa de aconselhamento baseado em ligações telefônicas é efetivo em ajudar adultos motivados a parar de fumar. Os participantes desse estudo eram veteranos que tinham fumado por uma média de 40 anos e um de cada oito deles foi capaz de ficar abstinente por pelo menos 6 meses.

Nível de evidência: 1 b

Referência
An LC, Zhu SH, Nelson DB, et al. Benefits of telephone care over primary care for smoking cessation. Arch Intern Med 2006;166:536-542.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (cego-simples)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Casuística: pacientes ambulatoriais (de atenção primária)

Discussão
Esse estudo foi conduzido com a participação de pacientes de cinco clínicas de atenção primária dos Centros Médicos de Administração dos Veteranos de Guerra dos EUA. Todos os pacientes que compareceram a uma clínica de atenção primária por qualquer razão receberam pelos correios uma solicitação para participar desse estudo. Os fumantes (90% homens; 95% brancos; idade média = 57 anos) que estavam dispostos a estabelecer uma data de abandono do hábito e possuíam telefone (n = 838) foram distribuídos para receberem os cuidados usuais ou aconselhamento telefônico. Os pacientes do grupo de cuidados habituais receberam materiais de auto-ajuda pelo correio. Eles não receberam nenhum agendamento específico para uma consulta de atenção primária, apesar de 64% dos pacientes terem realizado uma consulta nos primeiros três meses de estudo. O cuidado telefônico, adaptado do protocolo da California Smokers Helpline, consistiu de uma ligação telefônica inicial de 45 minutos de duração, seguida de ligações adicionais. Um pouco mais do que a metade (52%) dos pacientes do grupo de cuidados habituais usou medicações. No grupo de cuidados telefônicos, entretanto, 90% usaram medicações. A maioria (72%) dos pacientes do grupo de aconselhamento telefônico receberam pelo menos três ligações e o número médio ligações foi 7,7. Após doze meses, 13% do grupo de cuidados telefônicos e 4,1% do grupo de cuidados habituais relataram ter abandonado o cigarro por pelo menos seis meses (número necessário para tratar = 11; IC de 95%: 6 - 27). A análise foi por intenção de tratamento, mas não ocorreu nenhuma validação objetiva do abandono do cigarro.



Vacina bivalente contra o HPV é efetiva por 4,5 anos

Questão clínica
É possível uma vacina conferir proteção de longo prazo contra as linhagens do papilomavírus humano associadas ao câncer de colo de útero?

Resumo
Uma vacina bivalente contra os tipos 10 e 16 do papilomavírus humano (HPV) é bem tolerada e efetiva na redução da infecção por HPV e das anormalidades citológicas a ela associadas por pelo menos 4,5 anos.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Harper DM, Franco EL, Wheeler CM, et al, for the HPV Vaccine Study group. Sustained efficacy up to 4.5 years of abivalent L1 virus-like particle vaccine against human papillomavirus types 16 and 18: follow-up from a randomised control trial. Lancet 2006; 367:1247-55.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo-cego)

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: mascarada

Casuística: base populacional

Discussão
Já havíamos revisado o relato inicial desse estudo (Lancet 2004; 364:1757-65), o qual demonstrou, após 27 meses, que uma a vacina bivalente ativa contra os sorotipos 18 e 16 era mais efetiva do que o placebo na redução da infecção por HPV e das anormalidades citológicas associadas a ela. Nesse estudo os investigadores fornecem um seguimento adicional sobre 776 de 1113 mulheres de estudo original que receberam as três doses da vacina ou placebo e para as quais a distribuição de tratamento permaneceu duplo-cega. No estudo original, as mulheres eram aptas se tivessem entre 15 e 25 anos de idade, não mais do que seis parceiros sexuais e nenhuma história de condiloma ou câncer de colo. Foram administrados vacina ou placebo a 0, 1 e 6 meses. Na análise por intenção de tratamento para o período de acompanhamento subseqüente, a redução absoluta em novas infecções para HPV foi 7,4% (número necessário para tratar [NNT] = 14; IC de 95%: 10 - 23). Se combinados os resultados para eventos que ocorreram durante o período inicial de estudo, a redução absoluta é de 13,7% (NNT = 8; 6 - 10). Além disso, nenhuma mulher vacinada desenvolveu lesão NIC 1 ou pior associada aos HPV 16/18 (apenas duas desenvolveram atipias associadas aos HPV 16/18) em comparação com 1,7% das que receberam placebo (NNT = 59; 30-182). De maneira interessante, essa vacina também pareceu ter alguma proteção cruzada contra os HPV 45 e 31. São necessários dados e análises adicionais para a compreensão dos mecanismos de proteção cruzada e sua importância para o desenvolvimento de lesões. E, finalmente, a vacina foi bem tolerada: um total de 14% das mulheres vacinadas relataram pelo menos um efeito colateral adverso em comparação com 22% das que receberam placebo; 3% relataram pelo menos um surgimento de doença crônica em comparação com 5% das que tomaram placebo e 4% relataram pelo menos um efeito adverso sério em comparação com 5% das que tomaram placebo.



Enoxaparina é melhor do que heparina para IAM com elevação de ST

Questão clínica
Qual é o melhor anticoagulante - enoxaparina ou heparina não fracionada-para os pacientes submetidos a trombólise por infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST?

Resumo
Para cada 1000 pacientes tratados com enoxaparina em vez de heparina não fracionada houve 15 infartos do miocárdio não fatais a menos, 7 revascularizações urgentes a menos e 6 mortes a menos, mas houve quatro episódios a mais de hemorragia importante não fatal.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Antman EM, Morrow DA, McCabe CH, et al, for the ExTRACT-TIMI 25 Investigators. Enoxaparin versus unfractionated heparin with fibrinolysis for ST-elevation myocardial infarction. N Engl J Med 2006;354:1477-1488.

E desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: mascarada

Casuística: pacientes internados (quaisquer) com segmento e ambulatorial

Discussão
Os pacientes submetidos a trombólise por infarto do miocárdio com elevação do segmento ST geralmente recebem heparina não fracionada por 48 horas além da aspirina. As heparinas de baixo peso molecular tais como a enoxaparina já se mostraram superiores à heparina não fracionada para as síndromes coronarianas agudas mas a comparação não foi feita para os pacientes com elevação do segmento ST. Nesse estudo multicêntrico, 20.506 pacientes que se encaixavam em critérios-padrão para infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST e se apresentaram ao pronto-socorro dentro de 6h do início dos sintomas foram tratados com um agente fibrinolítico (alteplase, em sua maior parte) e aleatoriamente distribuídos (por processo mascarado) para receberem heparina não fracionada titulada até um tempo de tromboplastina parcial ativada entre 1,5 e 2,0 por 48h ou enoxaparina dosada de acordo com a idade e a função renal do paciente. Por exemplo, pacientes com menos de 75 anos e função renal normal receberam 30 mg em bolus endovenoso seguido de 1 mg/kg por via subcutânea a cada 12h por um total de 8 dias ou até alta hospitalar, o que viesse primeiro(duração mediana na terapia com o Renato heparina e com a 7 dias). Os pacientes foram seguidos por trinta dias I os resultados foram avaliados por um comitê cego à distribuição do tratamento. A análise foi por intenção de tratamento e os grupos foram equilibrados ao início de estudo. Após trinta dias houve menos mortes e ia em não fatais no grupo da inata Catarina (9,9% versus 12,0%; P = 0,01; número necessário para tratar [NNT] = 46). A maioria desse benefício se deveu aos IAM não fatais (3,0 versus 4,5), apesar de haver também uma tendência em direção a menos mortes (6,1% versus 7,5%) Entretanto, os sangramentos importantes foram ligeiramente mais comuns no grupo que recebeu a enoxaparina (2,1% versus 1,4%; P = 0,01; número necessário para causar dano = 142).



ISRS associados a resultados neonatais adversos

Questão clínica
O uso dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina no ano anterior ao nascimento está associado a baixo peso ao nascer, parto pré-termo, morte fetal ou convulsões neonatais?

Resumo
O uso de inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) no ano anterior ao parto está associado a um maior risco de prematuridade, morte fetal e convulsões neonatais. Entretanto, esses dados observacionais são enfraquecidos pela necessidade de se fazerem ajustes difíceis para outros fatores importantes os quais, acredita-se, têm relação causal com os resultados estudados (tais como pobreza e dependência de drogas).

Nível de evidência:
2 b

Referência
Wen SW, Yang Q, Garner P, et al. Selective serotonin reuptake inhibitors and adverse pregnancy outcomes. Am J Obstet Gynecol 2006;194:961-966.

Desenho de estudo:
estudo de coorte (retrospectivo)

Apoio financeiro: governamental e de fundação

Casuística: base populacional

Discussão
Nesse estudo retrospectivo de coorte, os resultados das gestações de 972 mulheres canadenses que receberam pelo menos uma prescrição de um ISRS foram comparados com os de 3878 mulheres que não usaram essas drogas. O pareamento foi realizado com base no ano de nascimento da criança, tipo de instituição em que ele ocorreu e código postal da mãe. As mulheres que tomaram o ISRS tiveram uma probabilidade maior de serem mais idosas, receberem auxílios sociais, terem maior paridade, maiores taxas de gestações múltiplas e maiores taxas de dependência de drogas. Os autores fizeram ajustes para todos esses fatores e para a dependência materna de drogas. Não foram apresentados dados de outros fatores de confusão em potencial, tais como o tabagismo. Riscos significativamente maiores foram encontrados para baixo peso ao nascer (odds ratio ajustada [AOR] = 1,56; 1,19-2,11), nascimento pré-termo (AOR = 1,57; 1,28-1,92), morte fetal (AOR = 2,23; 1,11-4,93) e convulsões neonatais (AOR = 3,87; 1,00-14,99). Não foram encontradas associações adversas para malformações congênitas ou resultados maternos.



Aspirina é prevenção para eventos em pacientes com doença arterial periférica (DAP).

Questão clínica:

Doses baixas de aspirina é uma ação efetiva para prevenir eventos vasculares sérios em pacientes com DAP?

Resumo
Doses baixas de aspirina podem prevenir eventos em pacientes com DAP, apresentando um NNT de 14 em 2 anos. Este estudo foi muito pequeno para avaliar se existe uma redução de risco de eventos isquêmicos na perna. Muito destes pacientes tinham uma indicação de aspirina baseada na presença de diabetes ou doença coronariana.

Referência
Critical Leg Ischaemia Prevention Study (CLIPS) Group; Catalano M, Born G, Peto R. Prevention of serious vascular events by aspirin amongst patient with peripheral arterial disease: randomized, double-blind trial. Journal of Internal Medicine 2007;261:276-284.

Desenho do estudo:
Estudo randomizado controlado(duplo-cego) (LOE = 1b)

Financiamento
Industria+ fundação

Cauística
Ambulatório

Resumo
O estudo original deste estudo foi recrutar 2000 pacientes com DAP. Entretanto, isto se tornou complicado devido a aspirina estar sendo usada por muitas indicações, e o recrutamento foi interrompido no paciente 366. Um evento vascular sério foi definido com fatal, ou não fatal, infarto ou derrame, ou morte que não poderia ser incluída se a causa fosse não cardíaca como câncer.Isquemia das pernas foi definida como dor isquêmica ao repouso por mais de duas semanas, com ou sem gangrena ou úlceras. Pacientes foram randomizados em 4 grupos: aspirina 100mg dia, anti-oxidantes (vitamina E 600 mg, vitamina C 250mg, e beta-caroteno 20mg); ambos; ou nenhum. Pacientes diabéticos foram incluídos. Pacientes foram seguidos de 3 meses até 2 anos. Existe uma redução significante em eventos com o grupo da aspirina: 7 dos 185 versus 20 de (4% vs 11%; P = .02; NNT = 14; 95% CI, 8-53). Isquemia crítica das pernas aconteceu em 2.7% dos pacientes em uso de aspirina versus 4.4% dos pacientes em uso de placebo.Assim como em outros estudos as vitaminas não trouxeram benefícios. Nenhum tratamento foi associado ao aumento de eventos adverso no estudo pequeno em questão.



Riscos superam benefícios no uso da aspirina/ AINES na prevenção do câncer de colo-retal

Questão Clínica
Os pacientes devem ser aconselhados a tomar aspirina ou antiinflamatórios não hormonais (AINES) para prevenir câncer colo-retal?

Resumo:
A força tarefa Americana de serviços em prevenção recomenda contra o uso rotineiro da aspirina ou AINES para prevenir câncer colo-retal. O benefício aparece diminuindo o número de adenoma colo-retal, incidência de câncer, e possivelmente a mortalidade associada ao câncer, mas o risco está associado com o seu uso. Sangramentos associados a processos ulcerosos, problemas renais, e o aumento de eventos cardiovasculares são os maiores problemas.

Referência
U.S. Preventive Services Task Force. Routine aspirin or nonsteroidal anti-inflammatory drugs for the primary prevention of colorectal cancer: U.S. Preventive Services Task Force Recommendation Statement. Ann Intern Med 2007;146:361-364. Rostom A, Dube C, Lewin G, et al. Nonsteroidal anti-inflammatory drugs and cyclooxygenase-2 inhibitors for primary prevention of colorectal cancer: A systematic review prepared for the U.S. Preventive Services Task Force. Ann Intern Med 2007;146:376-389.

Desenho do estudo
Guideline (LOE = 1a)

Financiamento
Government

Casuística
Variada(guideline)

Discussão:
O guideline é baseado em uma revisão sistemática de trials randomizados, estudos caso controle, e estudos de corte avaliando a efetividade e a segurança de usar aspirina ou AINES para prevenir câncer colo-retal. Apesar de um estudo isolado com aspirina não mostrar efeito na mortalidade colo-retal, estudos com vários AINES mostram uma diminuição na incidência de adenomas e um estudo mostra uma diminuição de mortalidade geral, mas não uma redução em mortalidade atribuída ao câncer. Entretanto, este risco é contrastado com o aumento de risco de desenvolver úlceras (aproximadamente 1,5% por ano), problemas renais, e um aumento sério de eventos cardiovasculares.



Morfina melhora tosse crônica e intratável

Questão clínica
A morfina reduz as tosses crônicas e intratáveis?

Resumo
Nesse pequeno estudo de pacientes com tosse crônica refratária a antitussígenos, a morfina de liberação prolongada melhorou as pontuações de tosse. Não está claro, entretanto, se esse efeito é clinicamente significativo.

Nível de evidência: 2b

Referência
Morice AH, Menon MS, Mulrennan SA, et al. Opiate therapy in chronic cough. Am J Respir Crit Care Med 2007;175:312-315.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado cruzado

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Vinte e sete pacientes que haviam sido encaminhados para uma clínica especializada em tosse devido a tosse crônica não responsiva a terapia com antitussígenos foram envolvidos nesse ensaio randomizado cruzado. Os pacientes foram aleatoriamente distribuídos para receberem morfina de liberação lenta (5 mg 2 vezes ao dia) ou placebo por quatro semanas, após as quais eles foram trocados de grupo por mais quatro semanas. Os autores não descrevem se houve uma fase de latência entre os dois tratamentos, o que seria importante uma vez que pode haver algum efeito remanescente de um período para outro. O impacto da tosse nas atividades da vida diária foi melhorado sob o uso da morfina. Infelizmente, os autores não descrevem o instrumento de avaliação de maneira completa o suficiente para sabermos se a melhora foi clinicamente significativa. Os efeitos colaterais mais comuns foram constipação (40%) e tontura (25%).



Diretrizes para o gerenciamento das TVP (AAFP e ACP)

Questão clínica
Quais são as abordagens efetivas no gerenciamento dos pacientes que têm acidentes tromboembólicos venosos?

Resumo
Tanto a heparina não fracionada quanto a heparina de baixo peso molecular são adequadas para o tratamento inicial do embolismo pulmonar, mas essas diretrizes sugerem que se inicie o tratamento com uma heparina de baixo peso molecular sempre que possível. Os pacientes que têm uma trombose venosa profunda, e possivelmente uma embolia pulmonar, podem ser seguramente tratados ambulatorialmente se houver circunstâncias corretas. Use meias compressivas por pelo menos um ano para prevenir a síndrome pós-trombótica. Mantenha a anticoagulação por 3 a 6 meses em pacientes com um primeiro episódio de tromboembolismo venoso e para aqueles que têm fatores de risco transitórios. Os pacientes com TVP recidivante deveriam ser tratados por mais de doze meses. A heparina de baixo peso molecular e os antagonistas da vitamina K têm efetividades comparáveis no tratamento de longo prazo do tromboembolismo venoso e podem ser preferíveis nos pacientes que têm câncer.

Nível de evidência: 1a

Referência
Snow V, Qaseem A, Barry P, et al, for the Joint American College of Physicians/American Academy of Family Physicians Panel on Deep Venous Thrombosis/Pulmonary Embolism. Management of venous thromboembolism: a clinical practice guideline from the American College of Physicians and the American Academy of Family Physicians. Ann Fam Med 2007;5:74-80.

Desenho de estudo: diretriz de prática

Casuística: variada (diretriz)

Apoio financeiro: fundação

Discussão
Essa diretriz foi baseada em uma revisão sistemática realizada pelos centros de qualidade e prática baseada em evidência da agência arte americana para a pesquisa em saúde. Essa diretriz tem como alvo qualquer clínico que cuide de pacientes com TVP. Há uma diretriz concomitante sobre o diagnóstico das TVP. As recomendações foram amplamente derivadas de ensaios randomizados controlados de alta qualidade. Os autores encontraram 16 revisões sistemáticas de ensaios clínicos que compararam as heparinas de baixo peso molecular como a heparina não fracionada. Nenhum estudo demonstrou uma efetividade maior da heparina não fracionada sobre as heparinas de baixo peso molecular e os pacientes tratados com heparina de baixo peso molecular tiveram menos complicações hemorrágicas. Nove dessas revisões relataram que os pacientes tratados com heparina de baixo peso molecular tiveram taxas menores de mortalidade durante os três a seis meses após o tratamento em relação aos tratados com heparina na fracionada. Os pesquisadores também encontraram evidências consistentes (extraídas de estudos de coorte e ensaios randomizados controlados) de que, em pacientes altamente selecionados, o tratamento ambulatorial das TVP com heparina de baixo peso molecular economiza custos e é pelo menos tão seguro quanto o tratamento sob internação. Esses estudos usaram infra-estruturas educacionais e de cuidados domiciliares muito bem desenvolvidas como base para o gerenciamento desses pacientes. Os autores encontraram dois ensaios randomizados controlados sobre meias de compressão cujo uso se iniciou um mês após o diagnóstico. Ambos os ensaio encontraram uma redução na incidência e na gravidade da síndrome pós-trombótica com o uso das meias. Os autores encontraram onze estudos observacionais sobre TVP na gestação e concluíram que a evidência é insuficiente para gerar qualquer recomendação. Numerosos ensaios avaliaram a duração e a intensidade dos tratamentos. Para os pacientes que têm TVP devido a fatores de risco transitórios (exemplo: imobilização recente, cirurgia e assim por diante), o tratamento com a warfarina (Marevan) deveria durar pelo menos três a seis meses e com um INR-alvo entre 2 e 3. Os pacientes com um TVP recidivante deveriam ser tratados por pelo menos um ano. Os autores encontraram dados insuficientes para gerar recomendações sobre o uso de filtros de veia cava ou sobre trombólise dirigida por cateter.



Glitazonas podem ser benéficas após angioplastia

Questão clínica

O tratamento com uma glitazona após uma angioplastia é efetivo na redução da necessidade de revascularização?

Resumo
O uso de uma tiazolidinediona (glitazona) logo após uma intervenção coronária percutânea reduziu a necessidade de revascularização durante os seis meses seguintes. Esse efeito foi observado em pacientes com e sem diabetes e é provável que seja devido a outro mecanismo que não o controle glicêmico. Os estudos incluídos nessa meta análise foram pequenos e são necessárias pesquisas adicionais antes que se coloquem esses resultados em prática.

Nível de evidência: 1 a

Referência
Riche DM, Valderrama R, Henyan NN. Thiazolidinediones and risk of repeat target vessel revascularization following percutaneous coronary intervention. Diabetes Care 2007;30:384-88.

Desenho de estudo: meta análise (ensaios randomizado controlados)

Casuística: variada (meta análise)

Apoio financeiro: indústria

Discussão
Além de aumentar a sensibilidade à insulina, as glitazonas podem ter um efeito antiinflamatório e inibitório sobre as células musculares lisas das artérias. Com base nesses achados, foram realizados vários estudos para avaliar a sua efetividade após uma intervenção coronária percutânea em pacientes com e sem diabetes. Após uma pesquisa completa em diversas bases de dados, listas de citação e resumos de congressos importantes, os pesquisadores identificaram sete estudos para a inclusão, os quais avaliaram 608 pacientes-uma quantia pequena para os padrões em cardiologia. Os pesquisadores mencionam que avaliaram a qualidade das pesquisas, mas eles não incluíram essa análise no artigo. O uso e os tipos de stents não foram padronizados entre os estudos. Todos os estudos compararam o uso de uma glitazona com placebo, iniciando antes ou logo após a cirurgia, por um total de seis meses. Cinco estudos envolveram pacientes com diabetes e a maioria dos estudos foi conduzida em uma população asiática. O tratamento reduziu as necessidades de revascularização de 21% para 6,6%. Uma revascularização seria evitada para cada sete pacientes tratados com uma glitazona (número necessário para tratar igual a 6,9; IC de 95%: 5,3 - 12,5). Os resultados foram semelhantes nos estudos que envolveram pacientes diabéticos e não diabéticos. Não houve heterogeneidade entre os estudos e também não houve evidências de vieses de publicação.



Restauração dental com amálgama de mercúrio é segura para crianças

Questão clínica
As restaurações dentárias que contêm mercúrio são seguras para as crianças?

Resumo
Crianças que recebem tratamento restaurador com amálgama de mercúrio não têm pontuações significativamente melhores ou piores em avaliações neuro-comportamentais e neuro-psicológicas do que as que recebem o material de resina composta. As crianças que recebem a restauração com resina podem ter uma probabilidade maior de precisarem de mais sessões de tratamento. São necessários estudos que avaliem os resultados por um período maior do que cinco a sete anos.

Nível de evidência:1 b-

Referência
Bellinger DC, Trachtenberg F, Barregard L, et al. Neuropsychological and renal effects of dental amalgam in children. A randomized clinical trial. JAMA 2006;295:1775-1783.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Casuística: base populacional

Discussão
Os riscos à saúde associados à inalação do vapor de mercúrio liberado durante a restauração dentária com amálgama de mercúrio são desconhecidos. Esses pesquisadores identificaram 534 crianças com idades entre 6 e 10 anos sem restaurações anteriores com amálgama e pelo menos dois dentes posteriores com cáries e necessitando de reparação. Os participantes aptos foram aleatoriamente distribuídos (de por processo mascarado) para receberem a restauração por amálgama padrão contendo 50% de mercúrio elemental ou com um composto de resina sem mercúrio. Todos os indivíduos que avaliaram os resultados permaneceram cegos à distribuição dos grupos de tratamento. Dados completos dos resultados estiveram disponíveis durante cinco anos para pelo menos 75% das crianças recrutadas, sendo que um número igual de crianças abandonou o estudo em cada grupo. Foi realizada uma avaliação completa da inteligência, memória auditiva, integração visual e motora, atenção e estado emocional pelo uso de ferramentas previamente validadas ao início do estudo, após três e após cinco anos. As crianças tiveram uma média de 15 superfícies dentárias restaurados durante o período de cinco anos. Pela utilização da análise por intenção de tratamento, não houve diferença estatisticamente significativa entre as crianças do grupo da amálgama e do grupo do composto em qualquer dos resultados medidos. De maneira interessante, houve um aumento não significativo do QI para as crianças distribuídas para o grupo da amálgama. O estudo teve um poder de 80% de detecção de uma diferença de três pontos nas pontuações de QI entre os grupos de tratamento. Um ensaio randomizado semelhante com duração de sete anos que envolveu 507 crianças de um outro contexto publicado na mesma edição da revista (DeRouen TA, Martin MD, Leroux BG, et al. JAMA 2006;295:1784?1792) também não relatou nenhuma diferença significativa nas avaliações neutro-comportamentais entre as crianças que receberam o tratamento com amálgama e as que receberam o composto de resinas. Nesse segundo estudo, as crianças do grupo da restauração com resina tiveram uma probabilidade maior de necessitarem de tratamentos complementares.



Mamografias resultam em excesso de diagnósticos

Questão clínica
Será que o rastreamento por mamografia resulta na identificação e no tratamento de cânceres de mama que nunca seriam clinicamente aparentes?

Resumo
Aproximadamente 10% das mulheres (IC de 95%:1%-18%) que têm câncer de mama confirmado e recebem tratamento não teriam tido sintomas clinicamente aparentes sem uma mamografia de rastreamento. Assim, além da possibilidade de ter um resultado falso-positivo na mamografia em algum momento da vida, uma de cada dez mulheres que recebem um diagnóstico real de câncer de mama é submetida a um tratamento que, apesar de aparentemente curativo, na verdade não tem nenhum efeito benéfico uma vez que ela nunca teria desenvolvido um câncer de mama clinicamente aparente.

Nível de evidência: indeterminado

Referência
Zackrisson S, Andersson I, Janzon L, Manjer J, Garne JP. Rate of over-diagnosis of breast cancer 15 years after end of Malmo mammographic screening trial: follow-up study. BMJ 2006;332:689-692.

Desenho de estudo: outro

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: auto financiado ou sem financiamento

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Existem dois possíveis resultados prejudiciais do rastreamento para o câncer de mama. O primeiro é o resultado falso-positivo, ou seja, dizer a uma mulher que ela pode ter um câncer de mama para descobrir somente na biópsia que ela na verdade não tem. O efeito adverso mais sutil é o risco de excesso de diagnósticos, no qual o câncer de mama é detectado pela mamografia em uma mulher que poderia ter vivido e morrido sem nunca saber que teve um câncer. Os autores que conduziram essa análise utilizaram os resultados do ensaio “Malmo” de rastreamento por mamografias. Esse estudo envolveu 42.233 mulheres e as distribuiu aleatoriamente para serem submetidas a mamografias ou não. Eles recrutaram as mulheres ao longo de um período de dez anos e então as acompanharam por mais 15 anos. Como seria de se esperar, um número significativamente maior de mulheres que realizaram as mamografias foram identificadas como portadoras de câncer de mama. Entretanto, continuou a haver mais diagnósticos de câncer de mama no grupo rastreado do que no grupo não rastreado, mesmo quando durante o período de seguimento as mulheres de ambos os grupos receberam mamografia regulares. Uma vez que qualquer mulher que fosse identificada como portadora de câncer de mama era excluída do grupo de rastreamento, as mulheres inicialmente não rastreadas deveriam ter tido mais neoplasias identificadas quando começaram as mamografias regulares. O fato de isso não ter ocorrido indica que houve um excesso de diagnósticos nas mulheres inicialmente designadas para o rastreamento. No geral, aproximadamente 10% (IC de 95%:1%-18%) das mulheres que receberam mamografias e um diagnóstico de câncer de mama receberam esse diagnóstico de maneira excessiva, o que significa que elas nunca teriam tomado ciência de seu câncer de mama -ou recebido tratamento -se não fosse pelo programa de rastreamento e teriam seguido até o fim de suas vidas sem qualquer repercussão.



Reduzir homocisteína não reduz DCV (HOPE 2)

Questão clínica

A suplementação alimentar visando a redução nos níveis de homocisteína é um tratamento ou prevenção efetiva para a doença cardiovascular?

Resumo
A suplementação com ácido fólico e vitaminas do complexo B não é efetiva para adultos com mais de 55 anos de idade portadores de doença cardiovascular (DCV) conhecida ou diabetes. Um segundo relato na mesma edição da revista concluiu que uma suplementação semelhante após um infarto agudo do miocárdio não foi útil e pode, na verdade, aumentar o risco de um mau resultado cardiovascular (risco relativo = 1,22; IC de 95%: 1,0-1,5).

Nível de evidência: 1 b

Referência
Lonn E, Yusuf S, Arnold MJ, et al, for the Heart Outcomes Prevention Evaluation (HOPE) 2 Investigators. Homocysteine lowering with folic acid and B vitamins in vascular disease. N Engl J Med 2006;354:1567-1577.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo-cego)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Discussão
Um nível elevado de homocisteína é um fator preditor independente do risco de desenvolvimento de doença cardiovascular. A hipótese que muitos médicos e pacientes fizeram (não embasada em nenhuma evidência) foi de que a redução dos níveis de homocisteína através do uso de vitaminas do complexo B e suplementos de ácido fólico iria, portanto, prevenir ou tratar a DCV. O presente estudo é o primeiro a avaliar essa hipótese em um ensaio clínico prospectivo randomizado. Os autores envolveram 5522 pacientes com mais de 54 anos de idade e uma doença coronariana, cerebrovascular ou vascular periférica conhecida ou diabetes com mais um fator de risco para DCV. Eles distribuíram aleatoriamente os pacientes (por processo mascarado) para receberem 2,5 mg de ácido fólico, 50 mg de vitamina B6 e 1 mg de vitamina B12 ou um placebo semelhante diariamente. Os pacientes eram de países nos quais a suplementação com folato na alimentação é obrigatória (EUA e Canadá) ou não (Brasil, Europa ocidental e Eslovênia). A adesão ao tratamento foi boa. Mais de 90% dos pacientes foram seguidos por uma média de cinco anos. Os grupos foram balanceados ao início do estudo e a análise foi por intenção de tratamento. Como esperado, os níveis de homocisteína caíram e os níveis das vitaminas aumentaram no grupo de tratamento ativo. Entretanto, não houve diferença entre os grupos no risco combinado de morte cardiovascular, infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral (18,8% versus 19,8%; risco relativo = 0,95, IC de 95%: 0,34-1,7). Também não houve diferenças com relação a essa combinação de resultados nos pacientes do terço superior de níveis de homocisteína (23,9% versus 24%). Não houve diferenças no resultado entre os países que fortficam ou não a alimentação com folato. Com relação aos resultados individuais, houve uma taxa ligeiramente menor de AVCs (4,0 versus 5,3%), mas um número maior de hospitalizações por angina instável (9,7% versus 7,9%) com a suplementação. O estudo teve poder de detectar uma redução relativa entre 17% e 20% no risco do resultado primário. Um segundo relato na mesma edição da revista também não encontrou qualquer benefício na prevenção secundária dos eventos cardiovasculares em pacientes com um infarto do miocárdio agudo recente (N Engl J Med 2006;345:1578?1588).Na verdade, eles encontraram evidências de um possível dano causado pela suplementação com vitamina B nesse grupo de alto risco.



Ácidos graxos ômega 3 não afetam mortalidade

Questão clínica
A suplementação com ácidos graxos ômega 3 reduz a mortalidade, as doenças cardiovasculares ou o câncer em adultos?

Resumo
No geral, a suplementação com ácidos graxos ômega 3 não reduz a mortalidade e nem as doenças cardiovasculares em comparação com o placebo. Esse estudo combinou a prevenção primária quanto secundária, ou seja, incluiu pessoas com e sem doença coronariana.

Nível de evidência: 1 a

Referência
Hooper L, Thompson RL, Harrison RA, et al. Risks and benefits of omega 3 fats for mortality, cardiovascular disease, and cancer: systematic review. BMJ 2006;332:752-760.

Desenho de estudo: revisão sistemática

Apoio financeiro: governamental

Casuística: variada (meta análise)

Discussão
Os autores dessa revisão, que constitui uma atualização de uma revisão Cochrane anterior, identificaram 48 ensaios randomizados controlados e 41 estudos de coorte que avaliaram o efeito da suplementação com óleo de peixe na mortalidade geral, nas doenças cardiovasculares e no câncer em adultos. Eles identificaram esses estudos pelo uso da rigorosa metodologia Cochrane habitual e analisaram os resultados dos ensaios randomizados de maneira separada dos dados de coorte. Os estudos incluíram pacientes com e sem doença arterial coronariana preexistente. Como resultado, os autores combinaram as pesquisas sobre prevenção primária com as secundárias. Os ácidos graxos ômega 3 foram administrados tanto como suplementos quanto como recomendação para o consumo de mais peixes oleaginosos. Nos ensaios randomizados, que envolveram mais de 30.000 pacientes, a suplementação com ômega 3 não reduziu a mortalidade de maneira significativa (risco relativo [RR] = 0,87; IC de 95%: 0,73-1,03) ou a probabilidade de um acidente cardiovascular (RR = 1,09; 0,87-1,37). Os ácidos graxos ômega 3 de cadeia longa não produziram resultados diferentes do que os de cadeia curta. Os cânceres não foram nem reduzidos nem aumentados em qualquer um dos ensaios clínicos ou estudos de coorte. A falta de benefícios demonstrada por esse estudo conflita com os resultados de uma meta análise prévia sobre o efeito em pacientes com doença arterial coronariana (Am J Med 2002;112:298?304).Entretanto, esse é o segundo estudo publicado após aquela meta análise que não encontra nenhum benefício geral.



Benefício da soja na prevenção do câncer de mama é incerto

Questão clínica
A ingestão de soja está associada a menor risco de desenvolvimento de câncer de mama?

Resumo
Se os resultados das pesquisas existentes até hoje forem verdadeiros, a alta ingestão de soja está associada a um pequeno efeito protetor contra o câncer de mama. Entretanto, os estudos publicados têm falhas em número suficiente para nos fazer questionar esse efeito.

Nível de evidência: 3a-

Referência
Trock BJ, Hilakivi-Clarke L, Clarke R. Meta-analysis of soy intake and breast cancer risk. J Natl Cancer Inst 2006;98:459-471.

Desenho de estudo: meta análise (outras)

Apoio financeiro: governamental e de fundação

Casuística: variada (meta análise)

Discussão
Os autores pesquisaram em três bases de dados (MEDLINE, EMBASE e BIOSIS) em busca de artigos que avaliassem a relação entre a ingestão de vários tipos de soja e o risco de câncer de mama. Eles também pesquisaram na Internet para identificar estudos não publicados. No artigo eles não dão muitos detalhes sobre a real estratégia de pesquisa de maneira que fica difícil avaliar se sua busca foi abrangente. Além disso, eles não descrevem um grande número de procedimentos utilizados em revisões sistemáticas de alta qualidade: avaliação da qualidade dos estudos, determinação independente por mais de um pesquisador quanto à inclusão dos artigos e uso de métodos explícitos de extração de dados. E, finalmente, eles utilizaram vários pressupostos e fórmulas para as estimar a quantidade de soja ingerida. Para compensar um pouco as limitações mencionadas acima, os autores realizaram análises de sensibilidade (testaram os pressupostos em uma ampla gama de valores possíveis) e tentaram avaliar o potencial para vieses de publicação. Eles acabaram por incluir 12 estudos de caso-controle e seis estudos de coorte (envolvendo quase um milhão de mulheres). A alta ingestão de soja foi associada com uma pequena redução relativa no risco de câncer de mama (odds ratio = 0,86, IC de 95%: 0,75-0,99). Quase metade dos estudos não forneceram dados sobre o status menstrual das mulheres. Entre os que forneceram, a soja pareceu ter uma associação mais forte com a redução de risco em mulheres no pré-menopausa. Os autores, corretamente, alertam contra a superinterpretação desses dados. Eles não encontraram um efeito de dose-resposta e estão preocupados com os fatores que podem estar associados ao menor risco de câncer de mama e que podem ter afetado o desenho e a implementação dos estudos.



Bloqueio simpático pode melhorar qualidade de vida na hiperidrose

Questão clínica
O bloqueio simpático torácico por via endoscópica é efetivo na hiperidrose de membros superiores?

Resumo
Nesse estudo, o bloqueio simpático torácico endoscópico melhorou a percepção e a qualidade de vida de pacientes com hiperidrose. Lembre-se: estudos não controlados não podem avaliar se uma intervenção é realmente efetiva a menos que haja um benefício tudo-ou-nada. Entretanto, devido ao fato de quase 100% dos pacientes terem melhorado após o procedimento, esses resultados se qualificam como tudo-ou-nada.

Nível de evidência: 1c

Referência
Panhofer P, Zacherl J, Jakesz R, Bischof G, Neumayer C. Improved quality of life after sympathetic block for upper limb hyperhidrosis. Br J Surg 2006;93:582-586.

Desenho de estudo: série de casos

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Discussão
Um total de a 80 mulheres e 32 homens com hiperidrose foram submetidos a bloqueio simpático torácico endoscópico. Sob anestesia geral, são inseridos trocânteres no terceiro e quarto espaços intercostais e aplicados clipes de 5 mm acima e abaixo do quarto gânglio simpático. Todos os pacientes completaram avaliações de qualidade de vida antes da cirurgia e 22 meses após. Todos tinham hiperidrose palmar e 86% dos pacientes que tinham hiperidrose a cancelar relataram uma melhora total ou parcial após 22 meses. De maneira interessante, 42% dos pacientes com hiperidrose plantar também melhoraram. Três pacientes necessitaram de drenos de tórax devido a pneumotórax, 2 sofreram nevralgias pós-operatórias, um teve uma infecção da ferida operatória e 17% desenvolveram hiperidrose dorsal compensatória. A hiperidrose de um paciente recidivou nove meses após e o tratamento foi repetido de maneira bem-sucedida. Ao final do seguimento, 87% dos pacientes estavam completamente satisfeitos e 10% parcialmente satisfeitos. A qualidade de vida foi significativamente melhorada (clínica e estatisticamente) em mais de 97% dos pacientes.



Isoflavonas melhoram humor de mulheres no pós-menopausa

Questão clínica
Os suplementos de isoflavonas melhoram o humor ou a cognição de mulheres saudáveis no climatério?

Resumo
O tratamento com isoflavonas melhorou o humor de mulheres saudáveis no pós-menopausa, mas não as pontuações em escalas cognitivas. Os riscos e benefícios do tratamento de longo prazo ainda permanecem incertos.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Casini ML, Marelli G, Papaleo E, Ferrari A, D'Ambrosio F, Unfer V. Psychological assessment of the effects of treatment with phytoestrogens on postmenopausal women: a randomized, double-blind, crossover, placebo-controlled study. Fertil Steril 2006;85:972-978.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Esse estudo foi um ensaio randomizado cruzado duplo cego que incluiu 78 mulheres saudáveis no pós-menopausa e que estavam dentro de uma faixa de 20% do peso normal e sem uso recente de terapia hormonal. As mulheres com depressão importante ou uso recente de medicações psico-ativas foram excluídas. Elas foram aleatoriamente distribuídas para receberem 6 meses de tratamento diário com um componente de fito-estrógeno facilmente absorvível contendo 60 mg de isoflavonas (40%-45% genisteina, 40%-45% daidzeina e 10%-20% gliciteina) ou placebo. Foram administradas múltiplas medidas de performance cognitiva e humor ao final de cada período de tratamento. As pontuações médias das escalas de humor estiveram na faixa normal ao final de cada período de tratamento com pequenas diferenças em favor das mulheres que estavam tomando as isoflavonas (5 das diferenças foram estatisticamente significativas, ainda que não tenha sido realizada a correção para múltiplas comparações). Oito características de humor -triste, confusa, medrosa, irritadiça, tensa, brava, cansada e agitada -também foram medidas em escalas de analogia visual de 100 pontos. Os resultados no final do tratamento favoreceram os fito-estrógenos em todos os quesitos à exceção do "agitada". As pontuações médias de 8 testes de cognição estiveram dentro da faixa normal sem quaisquer diferenças estatisticamente significativas. Entre as mulheres que completaram o estudo, 49 afirmaram que preferiram os fito-estrógenos, 9 preferiram o placebo e 16 não declararam nenhuma preferência.



Imersão imediata em água quente é o melhor para queimadura de água-viva

Questão clínica
A imersão em água quente é mais efetiva do que a aplicação de gelo para o alívio da dor causada pelas queimaduras por águas-vivas?

Resumo
A imersão imediata em água quente (45 °C) por até vinte minutos é significativamente mais efetiva do que a aplicação de gelo para as queimaduras causadas por águas-vivas.

Nível de evidência: 1 b-

Referência
Loten C, Stokes B, Worsley D, Seymour JE, Jiang S, Isbistergk GK. A randomized controlled trial of hot water (45 C) immersion versus ice packs for pain relief in bluebottle stings. Med J Aust 2006; 184:329-333.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (não cego)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: fundação

Distribuição da amostra: não descrita

Discussão
As queimaduras causadas por cnidários (popularmente conhecidos como águas-vivas ou caravelas) podem resultar em dores significativas que geralmente se resolvem dentro de 1 hora. A maioria das instituições de primeiros socorros recomenda a aplicação de pacotes de gelo. Para avaliar a efetividade potencial da imersão em água quente (uma vez que muitos venenos marinhos são mais lábeis ao calor in vitro), esses pesquisadores distribuíram aleatoriamente (por processo não descrito) 96 pacientes que se apresentaram com uma aparente queimadura por água-viva em duas praias do leste da Austrália para receberem imersão em água quente ou a aplicação de gelo. A temperatura precisa em 45 °C foi assegurada por aparelhos termostáticos de maneira a prevenir queimaduras superficiais. Os pacientes relataram seus níveis de dor no início, após 10 e após 20 minutos de tratamento pelo uso de uma escala de analogia visual entre 0 e 100. O resultado medido foi uma redução clinicamente importante da dor, definida como a alteração em milímetros na escala visual dependendo do ponto de início (16 mm para um ponto inicial entre zero e 33 mm; 33 mm para um ponto inicial entre 34 e 66mm, 48 mm para um ponto inicial entre 67 e 100mm). Um investigador avaliou microscopicamente fitas adesivas aplicadas a todos os locais de queimadura para confirmar a presença dos nematocistos. O acompanhamento foi efetivo para 92% dos pacientes após vinte minutos. A análise foi por intenção de tratamento. Aos 10 minutos, 53% do grupo da água quente relatou uma redução clinicamente significativa da dor em comparação com 32% daqueles tratados com a aplicação de um pacote de gelo (número necessário para tratar [NNT] = 5; IC de 95%: 3 - 72). A vinte minutos, 87% do grupo da água quente relatou uma redução clinicamente significativa na dor em comparação com 33% dos tratados com o gelo (NNT = 2; 1 - 3). A irradiação da dor também ocorreu de maneira significativamente menor com a água quente e nenhum paciente sofreu qualquer queimadura pela imersão. Os nematocistos foram confirmados em 42 (44%) dos participantes. A imersão em água quente permaneceu significativamente mais efetiva do que o gelo em uma análise exclusiva dos pacientes em que os nematocistos foram confirmados. O prurido, o eritema e os rashes após 24h foram semelhantes entre os grupos.



Fondaparinux reduz mortalidade em pacientes com IAM

Questão clínica
O fondaparinux reduz a mortalidade e morbidade dos pacientes com infarto do miocárdio e elevação aguda do segmento ST?

Resumo
O fondaparinux (um inibidor seletivo sintético do fator Xa, comercializado com o nome de Arixtra) reduz o risco de mortalidade e de re-infartos sem aumentar o risco de sangramentos graves nos pacientes com infartos do miocárdio com elevações agudas do segmento ST. Os pacientes submetidos a intervenção coronária percutânea não foram mais beneficiados pelo fondaparinux em comparação com a heparina não fracionada.

Nível de evidência: 1 b-

Referência
Yusuf S, Mehta SR, Chrolavicius S, et al, for the OASIS-6 Trial Group. Effects of fondaparinux on mortality and reinfarction in patients with acute ST-segment elevation myocardial infarction. The OASIS-6 randomized trial. JAMA 2006;295:1519-30.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes internados (quaisquer) com seguimento ambulatorial

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Nesse estudo os pesquisadores quiseram avaliar o benefício do fondaparinux, um inibidor do fator Xa, em pacientes que se apresentaram com infarto do miocárdio com elevação aguda do segmento ST. Os pacientes recrutados (n = 12.092) foram estratificados pelos pesquisadores em dois grupos, dependendo da indicação ou não de heparina não fracionada (como por exemplo, a intenção de uso de trombolítico específico para fibrina, pacientes não aptos a receberem fibrinolíticos mas aptos a receberem antitrombóticos ou aqueles que haviam sido agendados para realizarem uma intervenção percutânea). Os pacientes sem indicação para a heparina não fracionada receberam de maneira aleatória (processo de mascaramento não revelado) 2,5 mg de fondaparinux por via subcutânea uma vez ao dia ou um placebo semelhante até oito dias depois do evento ou alta hospitalar. Os pacientes com indicação para receberem heparina não fracionada que receberam placebo também receberam a heparina da maneira-padrão. Os pacientes agendados para uma intervenção percutânea receberam uma injeção em bolus único de fondaparinux ou heparina não fracionada imediatamente antes do procedimento. O seguimento foi efetivo para mais de 99% dos pacientes após seis meses. Indivíduos cegos à distribuição dos grupos de tratamento avaliaram os resultados para pelo uso da análise por intenção de tratamento, o risco geral de morte ou re-infarto em 30 dias foi significativamente reduzido nos pacientes que receberam o fondaparinux em comparação com os que receberam placebo (número necessário para tratar [NNT] = 67; IC de 95%: 39 - 252). O fondaparinux também foi superior à heparina não fracionada na redução do risco de morte ou re-infarto após seis meses (NNT = 25; 15 - 92). O fondaparinux não foi superior à heparina não fracionada nos pacientes que receberam uma intervenção coronariana percutânea primária. Em comparação com os que receberam placebo, os pacientes de receberam fondaparinux tiveram um risco menor, porém não significativo, de acidentes hemorrágicos sérios.


Probióticos são úteis nas diarréias associadas a antibióticos

Questão clínica

Os probióticos são capazes de prevenir as diarréias associadas aos antibióticos e auxiliar no tratamento da infecção por Clostridium difficile?

Resumo
Os probióticos Saccharomyces boulardii e Lactobacillus rhamnosus GG previnem a diarréia associada aos antibióticos, assim como combinações de dois ou mais probióticos. O S. boulardii, em conjunto com a vancomicina ou o metronidazol também é um tratamento efetivo para a infecção por Clostridium difficile.

Nível de evidência: 1 a-

Referência
McFarland LV. Meta-analysis of probiotics for the prevention of antibiotic associated diarrhea and the treatment of Clostridium difficile disease. Am J Gastroenterol 2006;101:812-822.

Desenho de estudo: meta análise (de ensaios randomizados controlados)

Casuística: variada (meta análise)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Discussão
Uma grande variedade de probióticos já foi proposta para ajudar a restabelecer a flora intestinal, prevenir a diarréia associada aos antibióticos e tratar a infecção por Clostridium difficile. Essa meta análise identificou todos os ensaios randomizados controlados mascarados no MEDLINE e no Google Scholar e avaliou sua qualidade. Houve 25 ensaios randomizados controlados sobre a prevenção das diarréias associadas a antibióticos que incluíram 2810 pacientes e seis ensaios sobre tratamento do Clostridium, incluindo 354 pacientes. Os estudos foram, no geral, de boa qualidade. Houve uma heterogeneidade considerável com relação às populações e aos resultados nos estudos sobre a prevenção da diarréia. Apesar de não haver diferenças nos resultados para os estudos em adultos ou em crianças ou com relação à duração da terapia, um maior benefício foi observado nos estudos que usaram as doses mais altas. O S. boulardii e o L. rhamnosus GG, ambos estudados em seis ensaios, foram os mais efetivos (risco relativo combinado = 0,37 e 0,31 respectivamente), assim como os estudos que utilizaram uma mistura de dois probióticos. Na maioria dos estudos sobre o tratamento da infecção por Clostridium, os pacientes também receberam vancomicina ou metronidazol e o resultado de interesse foi a probabilidade de recidiva da diarréia. Os resultados dos seis estudos foram homogêneos e uma estimativa combinada dos efeitos demonstrou um risco relativo de recidiva na diarréia de 0,59 (IC de 95%: 0,41-0,81). O Saccharomyces pareceu ser o probiótico mais efetivo nesse quesito. Os efeitos adversos em ambos os conjuntos de estudos foram mínimos. Esses estudos foram realizados, em sua maioria, em pacientes imuno-competentes e não deveriam ser generalizados para os pacientes imuno-comprometidos.



Paroxetina prolongada previne depressão recidivante em idosos

Questão clínica
O tratamento prolongado com medicação ou psicoterapia reduz o risco de recidiva das depressões importantes em pacientes idosos?

Resumo
O tratamento prolongado com paroxetina reduz o risco de recidiva do transtorno depressivo maior em pacientes idosos.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Reynolds CF 3rd, Dew MA, Pollock BG, et al. Maintenance treatment of major depression in old age. N Engl J Med 2006;354:1130-1138.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (especialidade)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Nesse estudo, 195 pacientes com mais 70 anos de idade portadores de transtorno depressivos maior (pelo menos 15 de 52 pontos na escala de Hamilton para depressão) foram inicialmente tratados com paroxetina (titulada entre 10 e 40 mg na medida da tolerância) e psicoterapia semanal. Após três semanas, aqueles que responderam inicialmente (77%) foram submetidos a um período de tratamento inicial de 16 semanas. Durante esse tempo, 116 (77% dos que responderam inicialmente) permaneceram bem e foram incluídos no estudo. Assim, apenas os pacientes que responderam bem à paroxetina foram incluídos no estudo, o que tenderia a enviesar os resultados em favor da paroxetina. Por outro lado, na prática clínica nós geralmente consideraríamos apenas a manutenção para os pacientes que respondem bem inicialmente à droga. Os 116 pacientes que permaneceram após essa fase inicial foram então aleatoriamente distribuídos (de uma maneira duplo-cega, com distribuição mascarada) para receberem paroxetina e psicoterapia, paroxetina e manejo clínico (discussão dos sintomas por enfermeiras, assistentes sociais e psicólogas mas sem psicoterapia), placebo com psicoterapia ou placebo com manejo clínico. Após dois anos, o risco de recidiva foi significativamente maior nos grupos que receberam a medicação placebo tanto com a psicoterapia quanto com o manejo clínico (68% e 58%, respectivamente) do que nos que receberam paroxetina com manejo clínico ou psicoterapia (37% e 35%, respectivamente). O número necessário para tratar com paroxetina continuada em relação ao placebo foi, portanto, de aproximadamente 4, sem nenhum efeito aparente da psicoterapia na prevenção da recidiva. Os resultados foram semelhantes entre os pacientes envolvidos durante um episódio inicial de depressão ou aqueles que foram recrutados durante uma recidiva.



Antibiótico reduz flatulência e empachamento também na síndrome do cólon irritável

Questão clínica
A rifaximina reduz os sintomas de empachamento abdominal e flatulência?

Resumo
Um curso de dez dias de rifaximina (um antibiótico derivado da rifampicina comercializado nos EUA pelo nome de Xifaxan) reduziu os sintomas de empachamento e flatulência nos pacientes com e sem síndrome do cólon irritável (SCI). Um outro estudo já havia encontrado uma redução dos sintomas abdominais de pacientes com diverticulite que foram tratados por sete dias mensais durante um ano, sugerindo que a administração cíclica pode ser uma opção. Apesar de serem necessários estudos maiores e de maior duração antes que possamos adotar amplamente essa abordagem para todos os nossos pacientes que têm SCI, ela é uma alternativa a ser considerada para os pacientes que têm sintomas especialmente problemáticos.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Sharara AI, Aoun E, Abdul-Baki H, Mounzer R, Sidani S, Elhajj I. A randomized double-blind placebo-controlled trial of rifaximin in patients with abdominal bloating and flatulence. Am J Gastroenterol 2006;101:326-33.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Distribuição da amostra: mascarada

discussão
Acredita-se que o empachamento e a flatulência, especialmente problemáticos nos pacientes portadores de síndrome do cólon irritável, podem ser causados pelo crescimento excessivo de bactérias no intestino grosso. A teoria é de que esse supercrescimento possa ser detectado pela aferição do hidrogênio liberado durante a fermentação bacteriana nos carboidratos através do teste do hidrogênio expirado com lactulose. Estudos anteriores que visaram a matar essas bactérias com neomicina ofereceram resultados promissores, mas os sintomas recidivavam rapidamente após o término do uso do antibiótico. No presente estudo, os pesquisadores recrutaram 126 adultos com pelo menos doze semanas de empachamento e/ou flatulência excessivos e pelo menos algum outro sintoma abdominal baixo. A idade média dos participantes foi 40 anos, 57% se encaixavam nos critérios de Roma II para SCI e 55% eram mulheres. Após um período basal de avaliação de dez dias, os pacientes foram aleatoriamente distribuídos (por processo mascarado) para receberem 40 mg de rifaximina duas vezes ao dia ou placebo por dez dias. Os resultados foram avaliados ao final do período de dez dias de duração de estudo e novamente dez dias após. O resultado final primário foi a resposta do paciente à questão "você considera que os seus sintomas melhoraram desde o início da droga em estudo?". Uma resposta favorável foi relatada com mais freqüência ao final do período de estudo (41% versus 23%; P = 0,03; número necessário para tratar [NNT] = 6), bem como ao final do período de dez dias durante os quais nenhuma medicação foi tomada (28,6% versus 12,5%; P = 0,02; NNT = 6). O benefício foi semelhante para o subgrupo de pacientes portadores de SCI. Os autores esmiuçaram um pouco os dados e chegaram à conclusão de que alterações dos resultados no teste do hidrogênio inspirado com lactulose se relacionaram às pontuações de empachamento nos pacientes que responderam bem à rifaximina mas não naqueles que não responderam. Esse tipo de análise posterior pode nos apontar algumas direções para pesquisas futuras mais não pode realmente orientar nossa terapia. A droga foi bem tolerada (ela não é absorvida pelo trato gastro-intestinal), apesar de a alegação dos autores de que não houve efeitos adversos relacionados ao tratamento em nenhum dos grupos poder significar que eles não os procuraram muito. O custo desse fármaco nos EUA é alto: cerca de US$150 por 400 mg duas vezes ao dia por sete dias.



Levo, amoxa e IBP são mais efetivos para H pylori persistente

Questão clínica
Qual o melhor tratamento para as infecções persistentes por H. pylori?

Resumo
Um regime de dez dias de levofloxacina, amoxicilina e um inibidor da bomba protônica (IBP) é mais efetivo e melhor tolerado do que o tradicional regime de quatro drogas em sete dias para os pacientes que têm uma infecção persistente por H. pylori apesar de tratamento anterior.

Nível de evidência: 1 a

Referência
Saad RJ, Schoenfeld P, Kim HM, Chey WD. Levofloxacin-based triple therapy versus bismuth-based quadruple therapy for persistent Helicobacter pylori infection: a meta-analysis. Am J Gastroenterol 2006;101:488-496.

Desenho de estudo: meta análise (de ensaios clínicos randomizados controlados)

Casuística: variada (meta análise)

Apoio financeiro: governamental

Discussão
Os vários coquetéis de agentes antibióticos e antiácidos que prescrevemos para erradicar o H pylori do trato digestivo são inefetivos para aproximadamente 10 a 20% dos nossos pacientes. Os pacientes com infecções persistentes são geralmente aconselhados a tomarem um regime de quatro drogas que inclui bismuto, tetraciclina, metronidazol e um inibidor da bomba protônica. Nessa meta análise, os autores identificaram seis ensaios clínicos randomizados controlados com um total de 854 pacientes que compararam regimes de três drogas baseados na levofloxacina com o regime-padrão de quatro drogas em pacientes com infecção persistente. Os regimes de dez dias com a levofloxacina foram mais efetivos do que os regimes de 7 dias e também foram significativamente mais efetivos do que o velho regime de quatro drogas (taxa de erradicação = 87% versus 60%; p < 0,05; número necessário para tratar = 4). Um regime típico consistiu de levofloxacina oral 500 mg por dia, amoxicilina oral 1g duas vezes ao dia e um IBP duas vezes ao dia (exemplo: pantoprazol oral 40 mg 2 vezes ao dia) por 10 dias. Os efeitos adversos também foram menos comuns com o regime da levofloxacina (18% versus 32%; número necessário para causar dano = 7).

Uma limitação potencial dessa meta análise é que os estudos foram realizados na Itália, na China e no Japão. Devido a perfis variáveis de resistência farmacológica, esses resultados podem não ser generalizáveis para as populações da América. Não houve uma heterogeneidade significativa entre os seis estudos que se encaixaram nos critérios de seleção mas uma segunda análise enfocou apenas os estudos que envolveram 10 dias de tratamento e as terapias baseadas na levofloxacina ainda demonstraram maior efetividade clínica.



Fondaparinux reduz mortalidade em pacientes com IAM

Questão clínica
O fondaparinux reduz a mortalidade e morbidade dos pacientes com infarto do miocárdio e elevação aguda do segmento ST?

Resumo
O fondaparinux (um inibidor seletivo sintético do fator Xa, comercializado com o nome de Arixtra) reduz o risco de mortalidade e de re-infartos sem aumentar o risco de sangramentos graves nos pacientes com infartos do miocárdio com elevações agudas do segmento ST. Os pacientes submetidos a intervenção coronária percutânea não foram mais beneficiados pelo fondaparinux em comparação com a heparina não fracionada.

Nível de evidência: 1 b-

Referência
Yusuf S, Mehta SR, Chrolavicius S, et al, for the OASIS-6 Trial Group. Effects of fondaparinux on mortality and reinfarction in patients with acute ST-segment elevation myocardial infarction. The OASIS-6 randomized trial. JAMA 2006;295:1519-30.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes internados (quaisquer) com seguimento ambulatorial

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Nesse estudo os pesquisadores quiseram avaliar o benefício do fondaparinux, um inibidor do fator Xa, em pacientes que se apresentaram com infarto do miocárdio com elevação aguda do segmento ST. Os pacientes recrutados (n = 12.092) foram estratificados pelos pesquisadores em dois grupos, dependendo da indicação ou não de heparina não fracionada (como por exemplo, a intenção de uso de trombolítico específico para fibrina, pacientes não aptos a receberem fibrinolíticos mas aptos a receberem antitrombóticos ou aqueles que haviam sido agendados para realizarem uma intervenção percutânea). Os pacientes sem indicação para a heparina não fracionada receberam de maneira aleatória (processo de mascaramento não revelado) 2,5 mg de fondaparinux por via subcutânea uma vez ao dia ou um placebo semelhante até oito dias depois do evento ou alta hospitalar. Os pacientes com indicação para receberem heparina não fracionada que receberam placebo também receberam a heparina da maneira-padrão. Os pacientes agendados para uma intervenção percutânea receberam uma injeção em bolus único de fondaparinux ou heparina não fracionada imediatamente antes do procedimento. O seguimento foi efetivo para mais de 99% dos pacientes após seis meses. Indivíduos cegos à distribuição dos grupos de tratamento avaliaram os resultados para pelo uso da análise por intenção de tratamento, o risco geral de morte ou re-infarto em 30 dias foi significativamente reduzido nos pacientes que receberam o fondaparinux em comparação com os que receberam placebo (número necessário para tratar [NNT] = 67; IC de 95%: 39 - 252). O fondaparinux também foi superior à heparina não fracionada na redução do risco de morte ou re-infarto após seis meses (NNT = 25; 15 - 92). O fondaparinux não foi superior à heparina não fracionada nos pacientes que receberam uma intervenção coronariana percutânea primária. Em comparação com os que receberam placebo, os pacientes de receberam fondaparinux tiveram um risco menor, porém não significativo, de acidentes hemorrágicos sérios.



Telitromicina não tem benefício significativo na asma (TELICAST)

Questão clínica
A telitromicina melhora os sintomas de pacientes com exacerbações agudas da asma?

Resumo
A telitromicina pode trazer um benefício de significado clínico questionável para os pacientes adultos com asma aguda. Há ainda o alto preço da droga, o aumento nas náuseas e diarréias e um aumento teórico no risco de resistência à droga na comunidade. Em face a esse equilíbrio de benefícios e danos e aos relatos recentes de insuficiência hepática fulminante em um pequeno número de pacientes que a tomaram, os médicos deveriam resistir à tentação de prescrever essa droga para asma.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Johnston SL, Blasi F, Black PN, et al, for the TELICAST Investigators. The effect of telithromycin in acute exacerbations of asthma. N Engl J Med 200;354:1589-1600.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado e (duplo cego)

Casuística: pacientes de pronto-socorro

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
A telitromicina é um cetolídeo. Seus primos, os macrolídeos, são conhecidos por possuírem alguns efeitos imuno-moduladores. Os autores consideraram que talvez um efeito semelhante melhorasse os resultados dos pacientes com asma, independentemente de eles terem ou não uma infecção bacteriana. Os pesquisadores identificaram 278 pacientes com idades entre 18 e 55 anos que se apresentaram com uma história de até 24h de exacerbação aguda da asma. Os pacientes tinham que ter um pico de fluxo expiratório de menos de 80% do predito para serem incluídos. Os pacientes foram aleatoriamente distribuídos (por distribuição mascarada) para receberem 800 mg diários de telitromicina ou placebo por dez dias. Seis pacientes do grupo placebo e oito do grupo da telitromicina abandonaram o estudo precocemente. O restante foi incluído na análise por intenção de tratamento. Os pacientes foram avaliados após dez dias e mantiveram o diário de sintomas por seis semanas. A medida de resultado primário foi a pontuação em uma escala sintomática de 7 pontos (0 significava nenhum sintoma e 6 significava sintomas graves). Os pacientes que tomaram a telitromicina tiveram uma melhora ligeiramente maior nas pontuações sintomáticas após dez dias (-1,3 pontos vs -1,0 pontos; P = 0,004). Uma diferença tão pequena tem um significado clínico bastante questionável. Não houve diferença entre os grupos nas medidas de fluxo expiratório. Os eventos adversos foram mais comuns no grupo da telitromicina (diarréia = 9,8% versus 3,8%; náuseas = 5,3% versus 0,0%; dores abdominais = 3,8% versus 1,5%). Não houve diferenças entre os grupos nos pacientes com e sem evidências de infecção por clamídia ou Mycoplasma.



Cálcio e vitamina D previnem quedas

Questão clínica
A terapia com cálcio e vitamina D reduz as quedas em mulheres idosas?

Resumo
Tratar mulheres idosas com cálcio e vitamina D reduz a sua probabilidade de sofrer uma queda, apesar de essa alteração na taxa de quedas não ocorrer muito rapidamente. Esse efeito é mais pronunciado em mulheres inativas.

Nível de evidência: 1b

Referência
Bischoff-Ferrari HA, Orav EJ, Dawson-Hughes B. Effect of cholecalciferol plus calcium on falling in ambulatory older men and women. Arch Intern Med 2006;155:424-30.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: fundação

Distribuição da amostra: não descrita

Discussão
Acredita-se que a vitamina D pode ter um efeito sobre a força muscular proximal ou dos membros inferiores, e uma meta-análise anterior já encontrou uma redução de 20% nas quedas em mulheres que utilizavam vitamina D. Esse relatório é a análise de uma avaliação já realizada sobre o efeito do cálcio e da vitamina D na densidade mineral óssea (N Engl J Med 1997;337:670-76). Os pesquisadores identificaram em uma comunidade 445 indivíduos saudáveis de pelo menos 65 anos de idade (idade média = 71). 45% dos participantes eram homens, a maioria era de brancos e nenhum recebia tratamento para osteoporose com qualquer outra coisa além de cálcio e vitamina D. Os pacientes foram aleatoriamente distribuídos (por processo não descrito) para receberem placebo ou cálcio com vitamina D (citrato de cálcio 500mg/dia e vitamina D 700 UI/dia). Ao final de três anos de estudo, apenas 71% ainda estavam realizando o tratamento. No geral, 49% dos homens e 55% das mulheres caíram durante o período de estudo. Metade (53%) dessas quedas ocorreram no primeiro ano do estudo e os resultados não foram diferentes entre os dois grupos. Entretanto, entre as mulheres as quedas apresentaram uma taxa significativamente menor no grupo de intervenção (47% versus 60%). O número necessário para tratar por três anos, nesse estudo, foi 7 (IC de 95%: 3,5-136). Esses resultados foram primariamente observados nas mulheres que eram menos ativas. Não houve diferenças na taxa de quedas dos homens entre os grupos. O efeito não foi dependente dos níveis séricos iniciais de vitamina D.



Morfina associada ao cetorolaco é a melhor escolha para cólica renal

Questão clínica
Em adultos que se apresentam com cólica renal aguda em departamentos de emergência, a associação da morfina ao cetorolaco é mais efetiva o que o uso isolado dessas drogas?

Resumo
5 mg de morfina intravenosa combinada com 15 mg de cetorolaco (Acular, Cetrolac) forneceram um alívio da dor maior do que o uso isolado dessas drogas. A combinação não aumentou a probabilidade de náuseas ou vômitos.

Nível de evidência: 1 b

Referência

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes de pronto-socorro

Apoio financeiro: fundação

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Esses pesquisadores abordaram 550 pacientes consecutivos que se apresentaram com dor nos flancos ao departamento de emergência e recrutaram 130 adultos com diagnósticos clínicos de cólica renal aguda e pontuações de dor "moderada" de pelo menos cinco em uma escala de 10 cm. Os pacientes foram aleatoriamente distribuídos, pelo uso de processo mascarado, para receberem 5 mg de morfina intravenosa, 15 mg de cetorolaco intravenoso ou a combinação de ambos nas mesmas dosagens, sendo as doses repetidas em vinte minutos quando necessário. Uma dose de resgate de 5 mg de morfina foi administrada após 40 minutos, se necessário para a dor. De uma pontuação média inicial de 8,8, a dor foi reduzida após 40 minutos em todos os três grupos, com as pontuações relatadas em 3,7 no grupo da morfina, 4,1 no grupo do cetorolaco e 2,0 no grupo do tratamento combinado. A redução média com a combinação foi 1,8 a 2,2 pontos maior do que com o uso das drogas isoladas (P < 0,003). Os pacientes do grupo do tratamento combinado tiveram uma probabilidade significativamente menor de necessitarem de analgesia adicional após 40 minutos: 16% no grupo da combinação, 42% no grupo da morfina e 33% no grupo do cetorolaco. As náuseas foram o efeito colateral mais comum, ocorrendo em 16% dos pacientes tratados com a morfina mas em apenas 2% dos tratados com cetorolaco e em 4% dos tratados com a combinação. Os resultados foram similares quando os pesquisadores analisaram apenas os pacientes com pedras renais diagnosticados por tomografia computadorizada.



Temperatura do conduto auditivo não é confiável na detecção de febre

Questão clínica
Qual a confiabilidade da termometria da orelha na detecção de picos febris em crianças?

Resumo
A termometria da orelha detecta apenas aproximadamente dois terços das crianças febris. Apesar de ela ser rápida e fácil, o seu uso deveria se limitar a situações em que a presença de febre não importa muito.

Nível de evidência: 1a-

Referência
Dodd SR, Lancaster GA, Craig JV, Smyth RL, Williamson PR. In a systematic review, infrared ear thermometry for fever diagnosis in children finds poor sensitivity. J Clin Epidemiol 2006;59:354-357.

Desenho de estudo: revisão sistemática

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Discussão
Em 2002, esses autores publicaram uma revisão sistemática (Lancet 2002;360:603-609) que evidenciou uma variabilidade muito ampla na concordância entre a termometria do conduto auditivo e a termometria retal nas crianças. Nesse estudo, eles usaram a mesma revisão para determinar a confiabilidade da termometria da orelha na detecção da febre. Para fazer isso, eles pesquisaram de maneira sistemática em numerosas bases de dados e tentaram encontrar estudos não publicados. Dois autores avaliaram, de maneira independente, a qualidade do 23 estudos incluídos (com quase 4100 crianças) e dois autores extraíram os dados de maneira igualmente independente. A sensibilidade da termometria da orelha variou entre 0 e 100%. A especificidade variou entre 58% e 100%. As estimativas agrupadas mais conservadoras, entretanto, foram 64% e 95%, respectivamente. Em outras palavras, a termometria da orelha externa não é muito confiável na detecção da febre.



Drogas antidepressivas aumentam risco de suicídio em crianças

Questão clínica
As medicações antidepressivas estão associadas a um aumento de risco de comportamento suicida em crianças?

Resumo
O uso de antidepressivos em crianças está associado a um aumento no risco de ideação suicida e de comportamentos relacionados. Não está claro qual o efeito geral das medicações antidepressivas sobre a morbidade e a mortalidade das crianças tratadas. Recomenda-se, portanto, o monitoramento estrito dos pacientes em uso dessas medicações.

Nível de evidência: 1a-

Referência
Hammad TA, Laughren T, Racoosin J. Suicidality in pediatric patients treated with antidepressant drugs. Arch Gen Psychiatry 2006;63:332-39.

Desenho de estudo: meta análise (de ensaios randomizados controlados)

Casuística: variada (meta análise)

Apoio financeiro: governamental

Discussão
Existe uma certa preocupação sobre o potencial de aumento no risco de suicídio que os antidepressivos exercem sobre crianças e adolescentes. Esses pesquisadores agruparam os dados de 24 ensaios controlados por placebo que envolveram 4582 pacientes inscritos no FDA pelos vários fabricantes. É provável que esse método de pesquisa seja capaz de abranger a maioria, se não todos, os ensaios clínicos que trazem informações sobre segurança. As drogas estudadas incluíram a fluoxetina, a sertralina, a paroxetina, há fluvoxamina, o citalopram, a bupropiona, a venlafaxina, a nefazodona e a mirtazapina. Dezesseis ensaios estudaram pacientes com transtorno depressivo maior e os outros oito estudaram o transtorno obsessivo compulsivo, o transtorno de ansiedade generalizada, o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade e o transtorno de ansiedade social. Os pontos finais de estudo incluíram o aumento na ideação suicida ou o comportamento suicida. Nenhum dos ensaios descreveu um suicídio completo. As durações dos ensaios variaram entre 4 e 16 semanas, de maneira que o risco de longo prazo não está incluído nessa análise. Indivíduos cegos à distribuição dos grupos de tratamento avaliaram os episódios adversos que potencialmente representasse episódios relacionados a suicídios. O processo de seleção resultou em 130 pacientes que tiveram um acontecimento relacionado a suicídio. O aumento do risco relativo geral para os inibidores seletivos da recaptação da serotonina nos ensaios de depressão foi 1,66 (IC de 95%: 1,2-2,68; número necessário para causar dano = 54, 21-1726) e para todas as drogas em todas as indicações foi 1,95 (IC de 95%: 1,28 - 2,98; NNH = 38; 18-128). A venlafaxina foi a única droga individual com aumento significativo no risco de suicídio. Não foram relatados episódios relacionados para a nefazodona e nem para a bupropiona.



Monitoramento e tratamento não são necessários no refluxo vésicoureteral moderado em crianças

Questão clínica
Em crianças com refluxo vésico-ureteral de leve a moderado (graus 1 a 3), o monitoramento e a profilaxia com antibióticos são efetivos na prevenção da pielonefrite recorrente?

Resumo
Após o tratamento da pielonefrite aguda, a profilaxia antibiótica não previne infecções adicionais do trato urinário em crianças sem refluxo vésico-ureteral documentado ou com refluxo de leve a moderado.

Nível de evidência: 1 b-

Referência
Garin EH, Olavarria F, Garcia Nieto V, Valenciano B, Campos A, Young L. Clinical significance of primary vesicoureteral reflux and urinary antibiotic prophylaxis after acute pyelonephritis: A multicenter, randomized, controlled study. Pediatrics 2006;117:626-32.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (não cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de atenção primária)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Distribuição da amostra: não descrita

Discussão
Os autores deste estudo multicêntrico avaliaram 218 crianças com idades entre três meses e dezoito anos (mediana = 2 anos) que sofreram pielonefrite aguda. As crianças foram avaliadas quanto à presença de refluxo vésico-ureteral mas foram excluídas somente se tivessem refluxos de grau 4 a 5 (grave). Após o tratamento, as crianças foram aleatoriamente distribuídas para receberem sulfametoxazol e trimetoprim ou nitrofurantoína diariamente por um ano, nas dosagens-padrão. A distribuição dos grupos ocorreu independentemente da presença ou não do refluxo. As crianças foram submetidas a checagens de função renal após seis meses e a uma ultra-sonografia renal e uma uretro-cistografia miccional após um ano. Os autores avaliaram somente as crianças que completaram o período de tratamento (92%). A maioria das crianças (80%), independentemente de status de tratamento ou presença de refluxo, não apresentou recidiva de qualquer tipo de infecção do trato urinário. As pielonefrites agudas, no entanto, foram recorrentes em 12,9% das crianças com refluxo que receberam antibióticos em comparação com 1,7% das crianças com refluxo que não receberam qualquer terapia (P = 0,0291; número necessário para causar dano = 9). Esse estudo não teve poder suficiente para encontrar pequenas diferenças nas taxas gerais, ou seja, qualquer diferença menor do que 20%. As cicatrizes renais foram pouco freqüentes e não ocorreram em taxas diferentes entre os grupos.



Ropivacaína epidural precoce não aumenta taxa de cesarianas

Questão clínica
A administração precoce de ropivacaína epidural aumenta a taxa de partos cesáreos em comparação com a espera até 4 cm de dilatação para a analgesia?

Resumo
A administração precoce de analgesia epidural com o uso da ropivacaína não aumentou a taxa de cesarianas de maneira significativa. Esse estudo foi pequeno demais para definir se o aumento absoluto de 2% na taxa de partos cesárea foi devido ao acaso. As pacientes preferiram a administração precoce.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Ohel G, Gonen R, Vaida S, Barak S, Gaitini L. Early versus late initiation of epidural analgesia in labor: does if increase the risk of cesarean section? A randomized trial. Am J Obstet Gynecol 2006;194:600-605.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (não cego)

Casuística: pacientes internados (somente enfermarias)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Em estudos anteriores os resultados foram conflitantes com relação ao efeito da administração precoce da analgesia epidural sobre a taxa de cesarianas em comparação com o retardo do procedimento. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas recomenda o retardo da administração até pelo menos 4 cm de dilatação. Nesse estudo israelense, 449 nulíparas com gestações não complicadas a termo no início do trabalho de parto foram aleatoriamente distribuídas para receberem a administração precoce ou retardada da analgesia epidural. As mulheres submetidas à indução do parto foram incluídas e a amostra foi estratificada para assegurar uma distribuição igualitária para cada grupo. O agente anestésico utilizado foi a ropivacaína, a qual é similar à bupivacaína mas causa menos bloqueio motor. As mulheres do grupo da administração precoce receberam a droga na primeira solicitação após a entrada, a uma dilatação cervical média de 2,4 cm. As mulheres da administração retardada receberam meperidina e prometazina intravenosas caso fosse solicitada analgesia antes de 4 cm de dilatação e receberam analgesia epidural a uma dilatação cervical média de 4,6 cm. A taxa de cesarianas foi 13% no grupo precoce e 11% no grupo retardado (diferença não significativa). Entretanto, o tamanho do estudo teve poder suficiente apenas para detectar uma diferença absoluta de 10% como significativa. A duração média da randomização até a dilatação cervical completa foi ligeiramente maior no grupo retardado (6,6 versus 5,9 horas; P = 0,04). A proporção de mulheres satisfeitas com sua analgesia epidural não foi diferente entre os grupos. Entretanto, 78% das mulheres do grupo retardado afirmaram que teriam escolhido a administração precoce se lhes fosse perguntado novamente e apenas 7% das mulheres do grupo precoce teriam escolhido o retardamento (p <0,001).



Descolamento da membrana no início da indução do parto ajuda

Questão clínica
O descolamento da membrana amniótica no início do trabalho de parto melhora os resultados finais?

Resumo
O descolamento da membrana amniótica no início do trabalho de parto aumenta a taxa de partos vaginais espontâneos, reduz o uso de ocitocina, encurta a duração do parto e melhora a satisfação das pacientes. As participantes desse estudo não foram submetidas ao deslocamento durante as consultas do pré-natal de maneira que esses resultados podem não ser aplicáveis a esse tipo de paciente.

Nível de evidência: 1 b-

Referência
Tan PC, Jacob R, Omar SZ. Membrane sweeping at initiation of formal induction of labor. Obstet Gynecol 2006;107:569-77.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (cego-simples)

Casuística: pacientes internados (somente enfermarias)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Já foi demonstrado que o descolamento da membrana amniótica nas consultas de pré-natal reduz os partos pós-data. O valor dessa técnica na indução do parto ainda não havia sido estabelecido. Nesse estudo realizado na Malásia, 274 mulheres submetidas a indução do parto a termo fora aleatoriamente distribuídas para receberem o descolamento de membrana no início da indução ou não. As mulheres nulíparas e multíparas foram igualmente distribuídas entre os grupos. Entretanto, houve uma proporção maior de mulheres com pontuação na escala de Bishop maior do que 5 no grupo de intervenção (60% versus 50%), o que pode ter enviesado os resultados a favor desse grupo. O descolamento de membrana nas consultas de pré-natal, no geral, não foi realizado. O único médico ciente da distribuição dos grupos de tratamento foi o que realizou o exame inicial. Nos casos de orifício cervical fechado, a cérvix externa foi deslocada. O restante da indução procedeu de acordo com as diretrizes institucionais, utilizando dinoprostona para as mulheres com um índice de Bishop menor do que 5, amniotomia a 3 cm de dilatação e ocitocina. As mulheres no grupo do deslocamento tiveram uma taxa maior de partos vaginais espontâneos (69% versus 56%, p = 0,041; número necessário para tratar [NNT] = 8; IC de 95%: 4-83). O intervalo médio do início da indução ao parto foi 5h mais curto no grupo do deslocamento (14h versus 19h). Um número menor de mulheres desse grupo precisou de ocitocina (46% versus 59%; P = 0,037; NNT = 8; 4-99). A dor após o descolamento, medida em uma escala de analogia visual de dez pontos, foi significativamente maior no grupo de intervenção (média = 4,7 versus 3,5; P = 0,001).



Temperatura do conduto auditivo não é confiável na detecção de febre

Questão clínica
Qual a confiabilidade da termometria da orelha na detecção de picos febris em crianças?

Resumo
A termometria da orelha detecta apenas aproximadamente dois terços das crianças febris. Apesar de ela ser rápida e fácil, o seu uso deveria se limitar a situações em que a presença de febre não importa muito.

Nível de evidência: 1a-

Referência
Dodd SR, Lancaster GA, Craig JV, Smyth RL, Williamson PR. In a systematic review, infrared ear thermometry for fever diagnosis in children finds poor sensitivity. J Clin Epidemiol 2006;59:354-357.

Desenho de estudo: revisão sistemática

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Discussão
Em 2002, esses autores publicaram uma revisão sistemática (Lancet 2002;360:603-609) que evidenciou uma variabilidade muito ampla na concordância entre a termometria do conduto auditivo e a termometria retal nas crianças. Nesse estudo, eles usaram a mesma revisão para determinar a confiabilidade da termometria da orelha na detecção da febre. Para fazer isso, eles pesquisaram de maneira sistemática em numerosas bases de dados e tentaram encontrar estudos não publicados. Dois autores avaliaram, de maneira independente, a qualidade do 23 estudos incluídos (com quase 4100 crianças) e dois autores extraíram os dados de maneira igualmente independente. A sensibilidade da termometria da orelha variou entre 0 e 100%. A especificidade variou entre 58% e 100%. As estimativas agrupadas mais conservadoras, entretanto, foram 64% e 95%, respectivamente. Em outras palavras, a termometria da orelha externa não é muito confiável na detecção da febre.



Gerenciamento da síndrome anticorpo anti-fosfolípide

Questão clínica
Qual é o gerenciamento otimizado da síndrome do anticorpo anti-fosfolípide?

Resumo
Os pacientes com resultados positivos para anticorpos anti-fosfolípide estão sob maior risco de acidentes trombóticos. As mulheres afetadas têm maiores riscos de perda fetal. A anticoagulação de moderada intensidade com warfarina (INR-alvo = 2,0-3,0) previne a recidiva das tromboses venosas. O tratamento ótimo dos outros aspectos trombóticos desses pacientes permanece incerto.

Nível de evidência: 1a-

Referência
Lim W, Crowther MA, Eikelboom JW. Management of antiphospholipid antibody syndrome. A systematic review. JAMA 2006;295:1050-57.

Desenho de estudo: revisão sistemática

Casuística: variada (meta análise)

Apoio financeiro: auto financiado ou sem financiamento

Discussão
Os anticorpos anti-fosfolípide estão associados a maiores riscos de eventos trombóticos e de morbidades na gestação. Para avaliar de uma maneira mais completa esses riscos e potenciais tratamentos, esses autores pesquisaram de maneira sistemática no MEDLINE, na biblioteca Cochrane e nas listas de referências dos artigos encontrados em busca de ensaios randomizados e estudos de coorte que se referissem a pacientes com anticorpos anti-fosfolípide. O risco de desenvolvimento de uma nova trombose em pacientes sem outras co-morbidades e sem histórico de acidentes trombóticos é baixo (menor do que 1% ao ano). Entre os outros pacientes com anticorpos anti-fosfolípide, o risco de um novo acidente trombótico está moderadamente aumentado nas mulheres com perdas fetais recorrentes e histórico de trombose (chegando a 10% ao ano) e é maior nos pacientes com história de trombose venosa que interromperam as drogas anticoagulantes por mais de seis meses (maior de 10% ao ano). A anticoagulação de moderada intensidade (INR-alvo = 2,0-3,0) reduz de maneira significativa o risco de trombose recorrente sem que nenhum benefício adicional seja ganho com a anticoagulação de alta intensidade (INR-alvo maior do que 3,0). Faltam evidências que tornem claras as recomendações para os pacientes com anticorpos anti-fosfolípide sem trombose anterior, que têm tromboses recorrentes apesar da anticoagulação, para o tratamento da trombose arterial e para o tratamento das mulheres com perda fetal recidivante.



Oximetria de pulso fetal não reduz partos operatórios

Questão clínica
As informações adicionais oferecidas pela oximetria de pulso fetal reduzem os partos operatórios quando o padrão de batimentos cardíacos é duvidoso?

Resumo
A adição da oximetria de pulso fetal na presença de um traço duvidoso na cárdio-tocografia reduziu a taxa de partos operatórios para a indicação por vitalidade fetal instável, mas não reduziu as taxas totais de cesarianas e nem a taxa de partos vaginais operatórios.

Nível de evidência:
1b

Referência
East CE, Brennecke SP, King JF, Chan FY, Colditz PB, and the FOREMOST Study Group. The effect of intrapartum fetal oximetry, in the presence of a nonreassuring fetal heart rate pattern, on operative delivery rates: a multicenter, randomized, controlled trial (the FOREMOST trial). Am J Obstet Gynecol 2006;194:606.e1-16.

Desenho de estudo:
ensaio clínico randomizado controlado (não cego)

Casuística: pacientes internados (apenas enfermarias)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Nesse ensaio randomizado controlado multicêntrico australiano houve quase 55.000 nascimentos rastreados por um período de cinco anos. De 2400 mulheres aptas, 601 foram recrutadas e aleatoriamente distribuídas para receberem monitoramento da oximetria de pulso fetal além da cárdio-tocografia contínua ou apenas a cárdio-tocografia. Cada um dos quatro centros participantes tinha parteiras especificamente treinadas para implantar o sensor de oximetria na vagina materna. Uma oximetria de pulso fetal de 30% ou mais foi considerada normal. Uma taxa de batimentos cardíacos fetais de menos de 70 batimentos por minuto por mais de 7 minutos foi considerada perigosa e indicativa de parto imediato independentemente da oximetria de pulso. Em aproximadamente 2% dos casos as parteiras foram incapazes de colocar corretamente o sensor de oximetria. A taxa de partos cesárea por queda da vitalidade fetal foi 14% no grupo da oximetria de pulso e 20% no grupo que não a monitorou, o que foi estatisticamente significativo. Entretanto, houve um aumento de magnitude similar nas cesarianas por outras indicações, principalmente trabalho de parto prolongado. A taxa total de partos cesárea não foi diferente entre os grupos (46% versus 48%). Os resultados para partos operatórios foram semelhantes. As taxas de partos vaginais espontâneas não foram diferentes entre os grupos (27% vs. 29%).



Umidade a 100% não é melhor do que nebulização normal no tratamento do crupe

Questão clínica
O que é melhor no tratamento do crupe de moderado a grave: o uso de alta ou baixa umidade?

Resumo
Em crianças que se apresentam com crupe de moderado a grave, o uso de nebulização controlada para 100% de umidade não resulta em maior melhora nas pontuações da doença do que a administração controlada para 40% de umidade ou que a umidade não controlada.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Scolnik D, Coates AL, Stephens D, Da Silva Z, Lavine E, Schuh S. Controlled delivery of high vs low humidity vs mist therapy for croup in emergency departments: a randomized controlled trial. JAMA 2006;295:1274-80.

Desenho de estudo: ensaio randomizado controlado (cego simples e)

Casuística: pacientes de pronto-socorro

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
As crianças que têm crupe são geralmente tratadas com umidade por nebulização-padrão, o que resulta em gotículas de água grandes demais para alcançar a laringe. esses pesquisadores quiseram avaliar se a administração de partículas com tamanho adequado à deposição laríngea (5 a 10 mícron) era benéfica. Um total de 140 crianças sem outros problemas de saúde com idades entre três meses e dez anos que se apresentaram ao pronto-socorro pediátrico com crupe de moderado a grave foi recrutado. Os participantes receberam de maneira aleatória (distribuição mascarada) trinta minutos de umidade pelo uso da técnica tradicional (um placebo comumente utilizado), a administração controlada de 40% de umidade (placebo de administração otimizada) ou a administração controlada de 100% de umidade com partículas de água de, em média, 6,21 mícron de diâmetro. O seguimento foi completo para todos os pacientes. Os profissionais que avaliaram os resultados foram cegos à distribuição dos grupos de tratamento. Pelo uso da análise por intenção de tratamento, as melhoras nas pontuações pela escala de Westley após 30 minutos e após 60 minutos foram similares nos três grupos. Além disso, não foram encontradas diferenças com relação a resultados secundários que incluíram alterações nas taxas de saturação de oxigênio, freqüências respiratórias e de pulso, proporção de respostas excelentes, pontuação de 0 ao final do estudo ou proporções de necessidade de uso de dexametasona ou adrenalina e necessidade de hospitalização. O estudo teve um poder de 80% na detecção de diferenças de um ponto nas escalas de crupe.



8 achados clínicos identificam AVC's

Questão clínica
Fatores clínicos detectáveis à beira do leito podem ajudar no diagnóstico diferencial do acidente vascular cerebral?

Resumo
Nesse estudo, 31% dos pacientes com suspeita de AVC tinham, na realidade, alguma outra condição clínica. Oito fatores clínicos ajudaram a distinguir esses pacientes daqueles que realmente haviam sofrido um AVC.

Nível de evidência: 2b

Referência
Hand PJ, Kwan J, Lindley RI, Dennis MS, Wardlaw JM. Distinguishing between stroke and mimic at the bedside: the brain attack study. Stroke 2006;37:769-75.

Desenho de estudo: transversal
Casuística: pacientes internados (quaisquer)

Apoio financeiro: governamental

Discussão
Um de cada três pacientes que se apresentam com início agudo de déficits neurológicos focais não é vítima de um acidente vascular cerebral. Isso é um fator importante na controvérsia que existe com relação uso de trombolíticos no infarto isquêmico agudo. Nesse estudo, os pesquisadores envolveram mais de 300 pacientes consecutivos que se apresentaram em um hospital-escola urbano com um possível AVC. Um de quatro médicos com pelo menos cinco anos de experiência realizou uma avaliação no leito padronizada em todos os pacientes. O diagnóstico final de AVC foi feito por um painel de consenso formado por especialistas em AVC que revisaram os detalhes clínicos, os estudos de imagens e "outras investigações relevantes". O diagnóstico final foi acidente vascular em 69% dos pacientes e outros diagnósticos em 31%. Oito variáveis clínicas predisseram de maneira independente o diagnóstico final. Déficit cognitivo e sinais anormais em outros sistemas foram fatores contra o AVC. A determinação de uma hora exata de início, sinais focais definidos e achados vasculares anormais, a presença de sinais neurológicos e a capacidade de lateralização dos sinais no lado direito ou esquerdo do cérebro e a capacidade de se determinar uma subclassificação clínica do AVC foram fatores sugestivos do diagnóstico positivo. Os autores não oferecem dados suficientes para o cálculo da sensibilidade, especificidade ou taxas de probabilidade positiva e negativa desses fatores.



Ácido úrico é mau preditor de complicações na pré-eclâmpsia

Questão clínica
O ácido úrico um é um preditor preciso da gravidade da pré-eclâmpsia ou de suas complicações?

Resumo
O ácido úrico sérico é um mau preditor dos resultados maternos e fetais relacionados à pré-eclâmpsia

Nível de evidência: 1a

Referência
Thangaratinam S, Ismail KM, Sharp S, Coomarasamy A, Khan KS. Accuracy of serum uric acid in predicting complications of pre-eclampsia: a systematic review. BJOG 2006;113:369-78.

Desenho de estudo: meta análise (outras)

Casuística: variada (meta análise)

Apoio financeiro: auto financiado

Discussão
Essa meta-análise de alta qualidade incluiu 18 estudos com um total de 3913 mulheres. Os autores agruparam os dados desses estudos para calcular as taxas de probabilidade positiva e negativa do ácido úrico sérico materno como um preditor de complicações da pré-eclâmpsia. Os autores consideraram uma taxa de probabilidade positiva de mais de 10 muito útil e entre 5 e 10 de utilidade moderada. Uma razão de probabilidade negativa de menos de 0,1 foi muito útil e entre 0,1 e 0,2 moderadamente útil. O valor limiar de teste positivo mais comumente utilizado nos estudos foi 350 umol/l, mas outros valores de referência foram incluídos. O ácido úrico não alcançou nem mesmo um critério moderadamente útil para a previsão da eclâmpsia materna, da hipertensão grave, dos partos cesárea ou da síndrome HELLP (hemólise, elevação de enzimas hepáticas e plaquetopenia). Ele também não foi nem mesmo moderadamente útil na previsão dos seguintes resultados neonatais: tamanho pequeno para a idade gestacional, natimortos ou morte neonatal.



Uso de corticóides na artrite reumatóide é seguro com baixas doses

Questão clínica
Qual é a incidência de efeitos adversos em pacientes que tomam glicocorticóides em baixas doses para o tratamento da artrite reumatóide?

Resumo
Os dados disponíveis até o momento são mínimos, mas parecem oferecer evidências de que os glicocorticóides em baixas doses (equivalentes a 10 mg ou menos de prednisona ou prednisolona) no tratamento da artrite reumatóide não aumentam as fraturas osteoporóticas, a pressão arterial, as doenças cardiovasculares ou a incidência de úlceras pépticas. O ganho de peso e as alterações dermatológicas são comuns com o uso dessas drogas.

Nível de evidência: 2 b

Referência
Da Silva JA, Jacobs JW, Kirwan JR, et al. Safety of low dose glucocorticoid treatment in rheumatoid arthritis: published evidence and prospective trial data. Ann Rheum Dis 2006;65:285-93.

Desenho de estudo: revisão sistemática

Casuística: variada (meta análise)

Apoio financeiro: auto financiado ou sem financiamento

Discussão
Os pesquisadores que conduziram essa revisão sistemática, um grupo de reumatologistas e endocrinologistas da Europa e da América do Norte, avaliaram a literatura existente para determinar o risco associado ao uso de glicocorticóides em baixas doses nos pacientes portadores de artrite reumatóide. Eles analisaram os dados de toxicidade de ensaios randomizados controlados. Apesar de mal documentado, o risco de fraturas osteoporóticas não parece aumentar com o uso de glicocorticóides em baixas doses (10 mg diários ou menos de prednisolona ou um equivalente) ao longo de dois anos. A osteonecrose, associada a doses mais altas, não foi relatada em nenhum dos quatro estudos. A intolerância à glicose é desencadeada com baixas dosagens, mas não na extensão em que se vê com as doses mais altas. Em um dos estudos, os níveis de glicemia de jejum aumentaram em média 14 mg/dl. Em um estudo de caso-controle, os glicocorticóides de baixa dosagem foram associados a um aumento de quase duas vezes na probabilidade de tratamento para hiperglicemia. O peso corporal nos quatro estudos aumentou em uma média de 4% a 8% ao longo de dois anos. A pressão arterial não foi afetada nos estudos de baixas doses, e um estudo de coorte não encontrou aumento nos resultados cardiovasculares para os usuários de baixa dosagem. A atrofia cutânea, as púrpuras e a facilidade e formação de hematomas ocorreram em mais de 5% dos pacientes que tomaram pelo menos 5 mg de prednisona por dia por um ano. As doenças pépticas não pareceram aumentar entre os pacientes que não tomavam AINH's além do corticóides.



Droperidol é melhor antiemético do que a metoclopramida e a proclorperazina

Questão clínica
Qual o antiemético é mais efetivo para as náuseas moderadas e graves: o droperidol, a metoclopramida ou a proclorperazina?

Resumo
Apesar de o droperidol (Inoval) ser significativamente melhor na redução da gravidade das náuseas do que a metoclopramida (Plasil) ou a proclorperazina, ele causa um número significativamente maior de acatisias.

Nível de evidência:1 b-

Referência
Braude D, Soliz T, Crandall C, Hendey G, Andrews J, Weichenthal L. Antiemetics in the ED: a randomized controlled trial comparing 3 common agents. Am J Emerg Med 2006;24:177-82.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo-cego)

Casuística: pacientes de pronto-socorro

Apoio financeiro: auto financiado ou sem apoio

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Um total de 97 pacientes com náuseas de moderadas a graves (pelo menos 40 em uma escala de analogia visual de 100 pontos) foi aleatoriamente distribuído para receber 1,25 mg de droperidol, 10 mg de metoclopramida, 10 mg de proclorperazina ou uma solução salina placebo. Após trinta minutos, a equipe de pesquisadores avaliou as náuseas dos pacientes utilizando a mesma escala de analogia visual. Além disso, eles analisaram sua sedação, ansiedade, perguntaram se os pacientes gostariam de mais uma dose e avaliaram a satisfação de cada paciente com o tratamento e os efeitos colaterais. Cada uma dessas avaliações foi realizada por profissionais que não foram informados de qual tratamento cada paciente recebeu. A análise foi por intenção de tratamento. Todos os tratamentos, incluindo a solução salina, reduziram a gravidade das náuseas de uma maneira clinicamente significativa. Efeitos similares foram observados com relação à ansiedade. Não houve uma sedação significativa com nenhum dos tratamentos. Na comparação das alterações nas pontuações de náuseas, entretanto, o droperidol foi 15 pontos mais efetivo do que os outros agentes na redução dos sintomas após trinta minutos. Em uma escala de 100 pontos, essa diferença é clinicamente importante. Entretanto, o droperidol também foi mais nocivo, causando acatisia em 71% dos pacientes na entrevista após 24h em comparação com apenas 23% dos pacientes tratados com outras medicações (número necessário para causar dano = 2,1; IC de 95%: 1,5 - 5,3).



Dexametasona reduz náuseas em pacientes submetidos a colecistectomia laparoscópica

Questão clínica
A dexametasona pré-operatória reduz as náuseas dos pacientes submetidos a colecistectomia laparoscópica eletiva?

Resumo
A administração pré-operatória de dexametasona parece reduzir as náuseas pós-operatórias de pacientes submetidos a colecistectomias laparoscópicas eletivas.

Nível de evidência: 2 b

Referência
Feo CV, Sortini D, Ragazzi R, De Palma M, Liboni A. Randomized clinical trial of the effect of preoperative dexamethasone on nausea and vomiting after laparoscopic cholecystectomy. Br J Surg 2006;93:295-9.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes internados (quaisquer)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Distribuição da amostra: não descrita

Discussão
Mais de 100 pacientes submetidos a colecistectomias laparoscópicas eletivas foram aleatoriamente distribuídos para receber 8 mg de dexametasona intravenosa ou soro fisiológico placebo 90 minutos antes da cirurgia, realizada sob anestesia geral. Os autores não descrevem se analisaram os dados por intenção de tratamento. Apenas 8% dos pacientes tratados com dexametasona sofreram náuseas em comparação com 27% dos pacientes do grupo de controle (número necessário para tratar, 5,3; IC de 95%: 3,0 - 26,5). Se esses dados não estiverem baseados na intenção de tratamento, eles têm maior probabilidade de estarem enviesados a favor do tratamento.



Topiramato é ligeiramente melhor do que o placebo no tremor essencial

Questão clínica
O topiramato é efetivo no tratamento do tremor essencial?

Resumo
O topiramato (Topamax) é ligeiramente melhor do que o placebo na melhora do tremor e da função em pacientes portadores de tremor essencial. Nesse estudo, a diferença não parece ser clinicamente significativa. Dados os custos e a taxa significativa de abandonos devido aos efeitos colaterais, o topiramato não deveria ser utilizado como tratamento de primeira linha.

Nível de evidência:1 b

Referência
Ondo WG, Jankovic J, Connor GS, et al, for the Topiramate Essential Tremor Study Investigators. Topiramate in essential tremor: a double-blind, placebo-controlled trial. Neurology 2006;66:672-77.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Nesse estudo, 223 pacientes portadores de tremor essencial foram aleatoriamente distribuídos para receberem topiramato ou um placebo semelhante. O topiramato teve uma dose diária inicial de 25 mg a qual foi aumentada semanalmente até 400 mg ou a resolução do tremor. Uma vez na dose máxima, os pacientes a mantiveram por mais doze semanas. Profissionais cegos aos grupos de tratamento avaliaram a gravidade (amplitude) dos tremores, habilidades de realização de tarefas específicas (tais como escrita, desenho ou ingestão de líquidos) e os problemas funcionais relatados pelos pacientes (tais como falar, comer, vestir-se e assim por diante). Esses resultados foram combinados em uma escala geral e em sub-escalas individuais que foram avaliadas por intenção de tratamento. Uma grande proporção dos pacientes abandonou o estudo (38% dos que tomavam topiramato e 22% dos que tomavam placebo; número necessário para causar dano = 6; IC de 95%: 4 - 21), principalmente devido aos efeitos colaterais. A duração média do estudo foi de 5 meses. Apesar de os pacientes que tomavam topiramato terem passado por melhoras na escala geral de tremores e nas escalas funcionais, os pacientes que tomaram placebo também melhoraram. Além disso, as melhoras não foram clinicamente significativas: as alterações médias foram 9,4 a 12,7 no grupo de tratamento e 3,7 a 8,9 no grupo placebo. Em geral, em uma escala de 100 pontos somente uma diferença entre 15 e 20 pontos chega a ser clinicamente importante. Nenhum dos resultados alcançou esse limiar.



Obesidade não afeta resultados de cinco anos da prótese no joelho

Questão clínica
Os pacientes obesos submetidos a uma prótese de joelho têm mais complicações de longo prazo do que os não-obesos?

Resumo
Nesse estudo, os pacientes obesos submetidos a artroplastias primárias dos joelhos tiveram resultados de longo prazo comparáveis aos de pacientes não-obesos.

Nível de evidência: 1 b-

Referência
Amin AK, Patton JT, Cook RE, Brenkel IJ. Does obesity influence the clinical outcome at five years following total knee replacement for osteoarthritis? J Bone Joint Surg Br 2006;88:335-40.

Desenho de estudo: estudo de coorte (prospectivo)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Discussão
Apesar dos dados conflitantes acerca do assunto, já se culpou a obesidade por todos os males da humanidade, desde mortalidade prematura até halitose. Nesse estudo, os pesquisadores recrutaram 370 pacientes consecutivos que tinham uma artroplastia primária devida a degeneração articular e os avaliaram de maneira seqüencial por períodos de até cinco anos (92% de seguimento completo). Além dos dados iniciais, os pesquisadores avaliaram de maneira prospectiva as dores, a função, as alterações radiográficas e as complicações (mortalidade peri-operatória, infecção, trombose venosa profunda e re-abordagem cirúrgica). Os autores não descrevem como os pacientes foram originalmente encaminhados ou se os resultados foram avaliados de maneira mascarada.

Eles não incluíram os dados funcionais de 37 pacientes que morreram antes de completarem 5 anos de seguimento mas os dados dos resultados foram utilizados. Utilizando como ponto de corte o índice de massa corporal (IMC) de 30, 158 pacientes não obesos (181 joelhos) e 125 pacientes obesos (147 joelhos) foram submetidos a cirurgias. Um total de 54% dos pacientes não-obesos eram homens contra apenas 41% dos pacientes obesos. Os níveis basais de função foram comparáveis entre os pacientes obesos e não-obesos. Ao final de cinco anos, não houve diferenças significativas nas dores ou na função do joelho entre os dois grupos. Além disso, as taxas de complicações não foram significativamente diferentes entre os pacientes obesos e não-obesos (infecção da ferida = 3,7% versus 4,9%; trombose venosa profunda = 0,5% versus 1,2%; mortalidade = 0,5% versus 0 e re-abordagem cirúrgica = 1,4% versus 2,5%). Os autores também compararam as mulheres obesas e não-obesas e os pacientes que pesavam menos ou mais do que 100 kg e não encontraram diferenças nos resultados dessas sub-categorias. Apenas seis pacientes do estudo eram obesos mórbidos (IMC > 40 kg/m2). Interessantemente, todos esses pacientes foram bem e não tiveram complicações. Uma nota preocupante: o IMC é uma medida não confiável da obesidade em pacientes saudáveis. Meus colegas ortopedistas diriam que a razão pela qual os pacientes obesos tiveram bons resultados nesse estudo é o fato de que os cirurgiões escolheram bons candidatos. Meus colegas mais metodológicos solicitariam um ensaio randomizado controlado para confirmar isso.



AAS e estatinas só são custo-efetivos nos pacientes de alto risco

Questão clínica
Em homens sem histórico de doença cardiovascular, a aspirina em dose baixa, uma estatina ou ambas as drogas são custo-efetivas na prevenção dos acidentes cardiovasculares?

Resumo
Do ponto de vista dos custos para um financiador, somente os custos da aspirina são razoáveis para homens com baixo risco de doença arterial coronariana (DAC). A adição de uma estatina à terapia com aspirina nesses homens está acima do que é considerado um custo razoável para a prevenção. Entretanto, a combinação da aspirina com uma estatina é custo-efetiva quando esses homens estiverem sob alto risco (10% ou mais).

Nível de evidência: 2a

Referência
Pignone M, Earnshaw S, Tice JA, Pletcher MJ. Aspirin, statins, or both drugs for the primary prevention of coronary heart disease events in men: A cost-utility analysis. Ann Intern Med 2006;144:326-36.

Desenho de estudo: análise de custo-efetividade

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: indústria e governamental

Discussão
Apesar de tanto a aspirina quanto as estatinas, separadamente, serem efetivas para a prevenção de um primeiro acidente cardiovascular, não há evidências diretas de que essa combinação seja mais efetiva do que o uso isolado das duas drogas. Os pesquisadores que conduziram essa análise determinaram a custo-efetividade da combinação sob a perspectiva de um financiador em terceira pessoa e nós podemos utilizar essa análise para entender os benefícios relativos dos dois tratamentos. Os pesquisadores começaram com um caso-base de um homem de 45 anos com um risco de doença cardiovascular em dez anos de 7,5% tratado com aspirina, uma estatina, ambas ou nenhuma das duas por dez anos. O resultado foi o acontecimento de um acidente cardiovascular -AVC, infarto do miocárdio ou morte -ao longo de dez anos. O modelo de Markov utilizado nessa análise também assumiu que todos os pacientes seriam tratados com ambas as drogas após dez anos e então estimou suas razões de custo-utilidade ao longo da vida. O modelo também considerou os principais riscos do tratamento, sangramento gastro-intestinal e morte relacionada a miopatia, com base nos resultados já obtidos em ensaios clínicos.

Para os homens sob baixo risco, a terapia com aspirina durante toda a vida aumentou seu período de vida por uma média de 3 dias (ajustados para a qualidade desses dias, ou "dias ajustados para a qualidade"). Os homens sob risco moderado (7,5%) ganharam uma média de 17 dias ajustados para a qualidade e os homens sob risco de moderado a alto (10%) ganharam 24 dias ajustados para a qualidade. Quando a estatina foi teoricamente adicionada ao tratamento com aspirina, o aumento médio no período de vida foi 13 dias para os homens sob baixo risco (ou seja, dez dias além dos proporcionados pela aspirina isoladamente), 35 dias para os de risco moderado (18 dias a mais) e 45 dias (21 dias a mais) para os homens com risco de moderado a alto. Nos homens sob baixo risco, o custo por ano de vida ajustado para a qualidade foi razoáveis US$9.800 para a aspirina isolada mas US$164.700 para a combinação. Nos de risco moderado, a terapia combinada teve custos razoáveis de US$56.200 (apesar de a faixa, dependente da análise de sensibilidade, ter sido entre US$26.100 e US$246.276). Sob o risco de moderado a alto, o custo por ano de vida ajustado para a qualidade foi de US$42.500 (variação entre US$20.600 e US$188.000).



Tala rígida é igual a faixa nas fraturas do galho verde em crianças

Questão clínica
As crianças que têm fraturas em "galho verde" no rádio ou ulna distais adquirem uma melhor função física quando tratadas com uma tala removível do que quando tratadas com atadura curta por três semanas?

Resumo
Aplicar uma atadura em lugar de uma tala melhora a função e oferece um alívio similar da dor a crianças com fraturas incompletas (em "galho verde"). Não ocorreram recidivas em nenhum dos grupos.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Plint AC, Perry JJ, Correll R, Gaboury I, Lawton L. A randomized, controlled trial of removable splinting versus casting for wrist buckle fractures in children. Pediatrics 2006;117:691-97.

Desenho de estudo: ensaio clínico e randomizado controlado (não cego)

Casuística: pacientes de pronto-socorro

Apoio financeiro: fundação

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
A imobilização por tala parece ser o método preferido de tratamento das fraturas incompletas na América do Norte e as ataduras são utilizadas com mais freqüência no Reino Unido. Esses pesquisadores canadenses avaliaram 87 crianças com idades entre 6 e 15 anos que sofreram fraturas incompletas do rádio ou ulna distais. As crianças foram aleatoriamente distribuídas, pelo uso de métodos de mascaramento, para receberem um tratamento com uma tala plástica curta ou uma atadura individualmente adaptada e fixada com esparadrapos por três semanas. Às crianças tratadas com a atadura foi dito para utilizarem-na apenas por conforto. A função física foi avaliada semanalmente por telefone pelo uso da escala de atividades para crianças, sendo o resultado principal a pontuação média a 2 semanas. Uma pontuação de 90 indica incapacidade leve e uma pontuação de 95 ou mais é considerada função normal. As crianças tratadas com a atadura tiveram pontuações leve mas significativamente melhores após duas semanas (pontuação média = 93,77 versus 89,29 em 100 pontos possíveis; P = 0,041). As melhoras na função física incluíram menor dificuldade com o banho, com escrita/digitação e com o autocuidado. As pontuações de dor em uma escala de analogia visual foram semelhantes em todas as avaliações ao longo do estudo. Não houve recidiva da fratura em nenhum dos grupos de tratamento ao longo de seis meses de acompanhamento. Aproximadamente 10% das crianças (n = 4) tratadas com a tala retornaram ao pronto-socorro devido a complicações: três haviam molhado a tala e uma tinha um lápis preso sob ela.



ACO’s que contêm norentindrona proporcionam menos dias de sangramento se usados continuamente

Questão clínica
Os contraceptivos orais que contêm acetato de norentindrona ou levonorgestrel diferem em seus efeitos sobre a supressão da menstruação com o uso contínuo?

Resumo
Em regimes de doses contínuas, pode-se obter mais dias de amenorréia com os contraceptivos orais (ACO's) que contêm 1 mg de acetato de norentindrona (ANET) do que com os ACO's que contêm 100 mcg de levonorgestrel (LNG).

Nível de evidência: 2b

Referência
Edelman AB, Koontz SL, Nichols MD, Jensen JT. Continuous oral contraceptives: are bleeding patterns dependent on the hormones given? Obstet Gynecol 2006;107:657-65.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Nesse estudo duplo-cego de quatro braços houve 139 mulheres recrutadas para o uso de ACO's continuamente por 180 dias com o propósito de suprimir a menstruação. O estrógeno utilizado em todos os braços do estudo foi o etinil-estradiol (E2), com uma dose que poderia ser de 20 mcg ou 30 mcg. A progesterona foi 1 mg de ANET (LoEstrin o genérico) ou 100 mcg de LNG (Alesse ou genérico). Os quatro braços do estudo incluíram: (1) ANET/20 mcg de E2; (2) ANET/30 mcg de E2; (3) LNG/20 mcg de E2 e (4) LNG/30 mcg de E2. Todas as participantes haviam utilizado ACO's cíclicos por pelo menos três meses antes da randomização. Esse estudo foi prejudicado por uma taxa geral de abandono de 45%. Foram registrados mais dias de amenorréia nos grupos do ANET, sem diferenças entre as dosagens maior e menor de estrógeno (dias médios de amenorréia durante o período: ANET/20 = 164, LNG/20 = 151; P = 0,02).



Diretriz: rastreamento da displasia congênita do quadril tem evidências insuficientes

Questão clínica
Os métodos atuais de rastreamento de rotina da displasia de quadril do desenvolvimento são efetivos na prevenção de resultados adversos?

Resumo
O rastreamento de rotina dos recém-nascidos pelo uso das manobras de Barlow e Ortolani pode identificar a displasia de quadril precocemente, apesar de a maioria desses casos se resolver espontaneamente sem nenhuma intervenção. As evidências de benefícios das intervenções cirúrgicas ou não cirúrgicas para esse problema são sofríveis.

Nível de evidência: 4

Referência
US Preventive Services Task Force. Screening for developmental dysplasia of the hip: Recommendation statement. Pediatrics 2006;117:898-902. Shipman SA, Helfand M, Moyer VA, Yawn BP. Screening for developmental dysplasia of the hip: a systematic literature review for the US Preventive Services Task Force. Pediatrics 2006;117: e557-76.

Desenho de estudo: diretriz de prática

Casuística: variada (diretriz)

Apoio financeiro: governamental

Discussão
Para que um exame de rastreamento seja clinicamente útil, dois critérios devem ser satisfeitos. Em primeiro, o teste deve ser capaz de identificar a doença antes que sintomas clinicamente aparentes ocorram. Em segundo, deve haver um tratamento disponível que seja mais efetivo quando utilizado antes do aparecimento dos sintomas. A USPSTF baseia essa diretriz atual em uma revisão sistemática da literatura que avaliou os papéis do rastreamento e do tratamento na displasia congênita do quadril, a qual se estima que ocorra em uma faixa entre 1,5 e 20 crianças por 1000 nascimentos vivos. Entretanto, a instabilidade do quadril autolimitada é um achado comum e 81% dos quadris instáveis se resolvem espontaneamente. Não há estudos que avaliem o papel do rastreamento ou o papel dos tratamentos cirúrgicos ou não. Estudos mal desenhados e mal conduzidos sobre o rastreamento encontraram uma redução no número de cirurgias para a displasia do quadril, mas esses resultados podem ter sido causados por médicos que estavam esperando a resolução espontânea. Além disso, a maioria das cirurgias realizada somente o é devido a achados do rastreamento. Os resultados do exame variam enormemente de acordo com o examinador -o certo é clik ou clunk? -e, o mais importante, mais de 60% das crianças com exames clínicos anormais sofreram uma reversão para o normal entre duas e quatro semanas de idade e mais de 90% terão uma resolução sem nenhum tratamento entre seis semanas e seis meses. Como resultado desses dados, a força-tarefa norte-americana deu nota "I" para esse teste de rastreamento (evidências insuficientes de recomendação a favor ou contra).



Prematuros com doença cardíaca congênita têm 72% de mortalidade

Questão clínica
Qual o prognóstico para crianças com doenças cardíacas congênitas nascidas antes da 36ª semana de gestação?

Resumo
Nesse estudo, 72% dos recém-nascidos prematuros com doenças cardíacas congênitas morreram até um ano depois do nascimento, sendo a maioria das mortes no primeiro mês.

Nível de evidência: 2 b-

Referência
Andrews RE, Simpson JM, Sharland GK, Sullivan ID, Yates RW. Outcome after preterm delivery of infants antenatally diagnosed with congenital heart disease. J Pediatr 2006;148:213-16.\

Desenho de estudo: estudo de coorte (retrospectivo)

Casuística: pacientes internados (quaisquer) com acompanhamento ambulatorial

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Discussão
Esses autores revisaram de maneira retrospectiva os bancos de dados de duas unidades terciárias de cardiologia fetal e identificaram 1191 fetos com sérios problemas cardíacos congênitos. Eles obtiveram detalhes do curso e dos resultados neonatais. Eles não descrevem métodos utilizados além de um questionário domiciliar que foi completado "em colaboração com o pessoal da pediatria". Isso levanta dúvidas sobre vieses que recordação, recuperação inconsistente dos dados e classificação errônea por parte da equipe de pesquisa. Apesar de isso não afetar o resultado de mortalidade, esse problema torna os outros dados suspeitos, de maneira que nos focaremos nos dados menos enviesados. Dos fetos identificados por ecocardiograma, 46 (4%) nasceram antes de 36 semanas de gestação. Desses, 28 nasceram após início espontâneo do trabalho de parto. Oito crianças morreram dentro das primeiras 24h de nascimento. Aproximadamente metade também tinha anormalidades extracardíacas ou de cariótipo. No geral, 72% dos recém-nascidos morreram em um ano. A presença de anormalidades extracardíacas não foi associada a nenhuma diferença na taxa de mortalidade.



Dietas com poucos carboidratos são iguais às que contêm poucas gorduras

Questão clínica
As dietas que contêm baixos níveis de carboidratos são tão efetivas quanto às que contêm poucos lipídios na aquisição e na manutenção da perda ponderal em adultos?

Resumo
As pessoas interessadas em perder peso podem escolher tanto uma dieta com baixas gorduras e calorias reduzidas quanto uma dieta com poucos carboidratos sem restrição de calorias para atingir uma perda ponderal pequena mas sustentada. São desconhecidos os efeitos de ambas sobre os resultados cardiovasculares, apesar de elas terem efeitos diferentes sobre os níveis lipídicos, o que pode ou não se traduzir em um efeito real sobre resultados que interessam aos pacientes.

Nível de evidência: 1 a

Referência
Nordmann AJ, Nordmann A, Briel M, et al. Effects of low-carbohydrate vs low-fat diets on weight loss and cardiovascular risk factors. Arch Intern Med 2006;166:285-93.

Desenho de estudo: meta análise (de ensaios clínicos randomizados controlados)

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: indústria

Discussão
São inúmeras as teorias sobre qual a melhor maneira de ajudar as pessoas a perderem peso. Os pesquisadores que conduziram esse estudo realizaram pesquisas em sete bases de dados em busca de ensaios randomizados controlados que comparassem as dietas com baixos teores de carboidratos com aquelas contendo baixos teores de gorduras. Eles também checaram artigos de revisão, contataram especialistas e pesquisaram as listas de referências dos artigos encontrados, localizando cinco estudos que envolveram um total de 447 pessoas. Três dos estudos acompanharam os pacientes por doze meses. Todos os estudos envolveram pacientes que seguiram as dietas especificadas e compraram seus próprios alimentos. As dietas que continham baixos carboidratos não restringiram as calorias mas limitaram a ingestão de carboidratos para menos de 20 a 30 g por dia com um aumento gradual. As dietas com baixas gorduras restringiram a ingestão desse nutriente a menos de 30% das calorias totais e uma delas restringiu a ingestão de gordura a menos de 10% das calorias totais. Todas as dietas de baixas gorduras restringiram as calorias totais por dia. As pessoas da dieta dos baixos carboidratos perderam mais peso mais rapidamente (em média 3,3 kg), do que os pacientes das baixas gorduras cujos dados foram recuperados após doze meses. Os níveis de triglicérides e HDL colesterol foram melhorados com a dieta de baixos carboidratos e o LDL colesterol e o colesterol total foram melhorados com as dietas que continham baixas quantidades de lipídios. As dietas com baixas quantidades de lipídios resultaram em uma perda de peso média sustentada entre 3,3 kg e 4,4 kg e as dietas com baixos carboidratos resultaram em uma média de perda ponderal entre 2,1 kg e 7,2 kg. As reduções na pressão arterial foram maiores no grupo dos baixos carboidratos após seis meses, mas não após doze meses. Os três ensaios que descreveram os níveis de glicose e de insulina não encontraram diferenças entre os grupos após doze meses.



Insulina intensiva só é útil se permanência na UTI for maior do que três dias

Questão clínica
O tratamento intensivo com insulina reduz a mortalidade dos pacientes internados em unidades de terapia intensiva?

Resumo
O tratamento intensivo com insulina em pacientes internados na UTI só é útil caso a permanência seja de pelo menos três dias. Infelizmente, os pacientes internados por um período menor podem ser prejudicadas e os médicos não foram capazes de prever com precisão quem realmente necessitaria de 3 ou mais dias (nesse estudo, 36% dos pacientes cujas previsões foram de pelo menos três dias receberam altas antes).

Nível de evidência: 1 b

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (cego simples)

Casuística: pacientes internados (apenas UTI)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Estudos realizados em UTI's cirúrgicas demonstraram uma redução da mortalidade entre os pacientes que receberam um controle estrito da glicemia, especialmente se tivessem permanência prolongada na UTI. Nesse estudo, 1200 pacientes internados em uma UTI belga cuja expectativa de internação era de pelo menos três dias foram aleatoriamente distribuídos por processo mascarado para receberem um tratamento intensivo com insulina (glicemia-alvo entre 80 e 110 mg/dl) ou o tratamento convencional (glicemia-alvo entre 180 e 200 mg/dl) com o uso de uma bomba de insulina. Os grupos foram equilibrados ao início do estudo e a análise foi por intenção de tratamento. A intenção foi recrutar apenas os pacientes que ficariam na UTI por 3 ou mais dias, mas somente 767 dos 1200 pacientes realmente permanecerem tanto tempo. Apesar de não haver diferenças nas taxas de mortalidade intra-hospitalar como um todo, houve benefício de morbidade: menos desenvolvimento de lesões renais (5,9% versus 8,9%), desmames mais precoces da ventilação mecânica e altas mais precoces, tanto da UTI quanto do hospital. No subgrupo dos 767 pacientes que passaram pelo menos três dias na UTI, a mortalidade intra-hospitalar foi mais baixa no grupo de tratamento intensivo (43% versus 52,5%; P = 0,009; número necessário para tratar [NNT] = 10). Por outro lado, entre os pacientes que ficaram na UTI por menos de três dias houve mais mortes no grupo de tratamento intensivo (26,8% versus 18,7%; P = 0,05; número necessário para causar dano = 12). Uma análise retrospectiva sugere que a taxa mais alta de mortalidade nos pacientes do grupo de tratamento intensivo que ficaram por menos de três dias foi devida ao número maior de pacientes cujo cuidado foi limitado ou suspenso por falta de prognóstico dentro de 72h da admissão. A morbidade também foi reduzida no tratamento intensivo do grupo que permaneceu na UTI por menos de três dias.



Fondaparinux é preferível nas síndromes coronarianas agudas

Questão clínica
O fondaparinux melhora os resultados em relação à enoxaparina nos pacientes com síndromes coronarianas agudas?

Resumo
O fondaparinux é uma alternativa mais segura do que a enoxaparina para os pacientes com síndromes coronarianas agudas (SCA), e também tem uma eficácia de longo prazo ligeiramente melhor.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Yusuf S, Mehta SR, Chrolavicius S, et al, for the Fifth Organization to Assess Strategies in Acute Ischemic Syndromes Investigators. Comparison of fondaparinux and enoxaparin in acute coronary syndromes. N Engl J Med 2006;354:1464-1476.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes internados (quaisquer) com seguimento ambulatorial

Apoio financeiro: indústria

Distribuição: mascarada

Discussão
Para este estudo, foram recrutados 20.078 pacientes internados com SCA's (idade média = 67 anos; 62% homens). O diagnóstico inicial para 45% desses pacientes foi de angina instável e os demais tinham infartos do miocárdio (IAM). Todos os pacientes foram aleatoriamente distribuídos (por processo oculto) para receberem fondaparinux 2,5mg uma vez ao dia ou enoxaparina 1mg/kg duas vezes ao dia. O fondaparinux foi administrado até a alta hospitalar ou por até oito dias, enquanto a enoxaparina foi administrada entre 2 e 8 dias ou até o paciente apresentar estabilidade clínica. Os pacientes foram seguidos por um período entre 90 e 180 dias. A análise utilizou o princípio da intenção de tratamento e incluiu todos os pacientes que iniciaram o estudo. Ao nono dia, os pacientes de ambos os grupos tiveram riscos de morte, IAM ou isquemia refratária praticamente idênticos. Entretanto, os que receberam o fondaparinux tiveram um risco significativamente menor de hemorragia (2,2% versus 4,1%; P<0,001; número necessário para tratar [NNT] = 53). Os resultados de longo prazo também foram melhores com fondaparinux. As mortalidades por todas as causas a 30 e 180 dias foram menores com o fondaparinux do que com a enoxaparina (5,8% versus 6,5%; P = 0,05; NNT = 143 para 180 dias), assim como os resultados combinados de morte, IAM ou AVC a 180 dias (11,3% versus 12,5%; P = 0,007; NNT = 83).



Tratamentos excisionais da displasia cervical associados a resultados adversos

Questão clínica
Os tratamentos excisionais para a displasia cervical estão associados a subseqüentes resultados reprodutivos adversos?

Resumo
Os métodos excisionais para o tratamento das lesões cervicais intra-epiteliais ou inicialmente invasivas estão associados a um maior risco de parto a menos de 37 semanas de gestação e um peso ao nascimento de menos de 2.500 g. As tendências não significativas de aumento na mortalidade neonatal também não são confortadoras. A ablação a laser não está significativamente associada a riscos obstétricos futuros, mas pode levar a um aumento na preocupação sobre problemas residuais uma vez que ela não permite o exame histológico. Esse estudo também observou o efeito desses métodos de tratamento sobre a fertilidade e encontrou apenas dados limitados que não foram sugestivos quanto a prejuízos nesse quesito.

Nível de evidência: 1 a

Referência
Kyrgiou M, Koliopoulos G, Martin-Hirsch P, Arbyn M, Prendiville W, Paraskevaidis E. Obstetric ourcomes after conservative treatment for intraepithelial or early invasive cervical lesions: systematic review and meta-analysis. Lancet 2006;367:489-98.

Desenho de estudo: meta análise (outras)

Casuística: variada (meta análise)

Apoio financeiro: auto financiado ou sem apoio

Discussão
Muitos médicos acreditam que grandes excisões em alça da junção escamo-colunar (EAJEC, também conhecidas como procedimento excisional eletro-cirúrgico em alça) não estão associadas a um aumento no risco obstétrico futuro. Nesta bem projetada meta-análise de 27 estudos controlados retrospectivos de coorte os autores buscaram avaliar as associações entre diferentes métodos conservadores de tratamento para o carcinoma intra-epitelial ou in situ, as morbi-mortalidades obstétrica e neonatal e a fertilidade. Os autores não encontraram nenhum estudo randomizado controlado sobre esse tópico. A incisão a frio foi associada a um aumento no risco de parto pré-termo (14% versus 5%), baixo peso ao nascimento (12% versus 7%) e parto cesárea (9% versus 3%). Os riscos relativos (RR) e os intervalos de confiança de 95% foram 2,59, 1,80-3,72; 2,53, 1,19-5,36; e 3,17, 1,7-9,4, respectivamente. A EAJEC foi associada a um maior risco de parto pré-termo (11% versus 7%), baixo peso ao nascimento (8% versus 4%) e ruptura prematura de membranas (5% versus 2%). Os RR's e IC's de 95% foram: 1,70, 1,24-2,35; 1,82, 1,9-3,06; e 2,69, 1,62-4,46, respectivamente. Os resultados das conização a laser demonstraram uma tendência não significativa de aumento no risco de parto pré-termo (14% versus 10%; RR = 1,71; 0,93-3,14). Todos os três métodos excisionais demonstraram tendências em direção ao aumento na mortalidade perinatal que não atingiram significado estatístico. Não é de se surpreender que as ressecções que atingiram 10 mm ou mais de profundidade apresentaram uma tendência maior de associação a prematuridade subseqüente. A ablação a laser demonstrou uma redução não significativa na mortalidade perinatal e não se observou nenhuma associação significativa com resultados adversos. Os dados disponíveis para a avaliação da fertilidade futura foram muito limitados mas não sugeriram nenhum risco de infertilidade.



Natalizumab reduz recidivas e incapacidade na EM recorrente

Questão clínica
O natalizumab é seguro e efetivo para tratamento da esclerose múltipla recorrente?

Resumo
O natalizumab reduz a probabilidade de recidiva e progressão da incapacidade nos pacientes com esclerose múltipla recorrente (EMR). Apesar de não terem sido observadas casos de leuco-encefalopatia progressiva multifocal nesse estudo, e de a droga ter sido bem tolerada, uma meta-análise prévia já estimou o risco dessa ocorrência em aproximadamente 1 por 1000 pacientes tratados por 18 meses.

Nível de evidência: 1b

Referência
Polman CH, O'Connor PW, Havrdova E, et al, for the AFFIRM Investigators. A randomized, placebo-controlled trial of natalizumab for relapsing multiple sclerosis. N Engl J Med 2006;354:899-910.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: indústria

Distribuição: mascarada

Discussão
O natalizumab é um inibidor seletivo de adesinas que, acredita-se, bloqueia a adesão dos leucócitos nas células vasculares do cérebro, assim atenua a resposta inflamatória observada na EMR. Entretanto, essa droga já foi associada à leuco-encefalopatia multifocal progressiva, uma ocorrência fatal rapidamente progressiva. Nesse estudo, 942 pacientes foram aleatoriamente distribuídos (por processo mascarado) em uma proporção 2:1 para receberem natalizumab 300 mg por infusão intravenosa a cada quatro semanas ou placebo. As recidivas foram avaliadas por um neurologista cego à distribuição de tratamento e poderiam ser tratadas com corticosteróides em altas doses. Os pacientes foram submetidos a ressonâncias magnéticas ao início de estudo, após um e dois anos. Os grupos foram equilibrados ao início do estudo e a análise foi por intenção de tratamento. Aproximadamente 9% dos pacientes de cada grupo abandonaram o estudo, mas metade desses pacientes continuou sob monitoramento regular. Após dois anos, a probabilidade cumulativa de progressão da incapacidade foi menor no grupo do natalizumab (17% versus 29%; P < 0,001; número necessário para tratar [NNT] = 9). A probabilidade de recorrência também foi reduzida (0,26 versus 0,81 recidivas/paciente/ano; P < 0,001). Também houve menos lesões novas ou maiores detectadas pela ressonância magnética no grupo do natalizumab. A porcentagem de pacientes que não sofreram recidivas após um (77% versus 56%; NNT = 5) e 2 anos (67% versus 40%; e NNT = 4) foi menor no grupo do natalizumab. Não houve diferenças entre os grupos quanto ao risco de infecção e não foram registrados casos de leuco-encefalopatia multifocal progressiva. As únicas ocorrências adversas mais comuns no grupo do natalizumab foram a fadiga (27% versus 21%) e a reação alérgica (9% versus 4%).

Os pacientes deste estudo foram excluídos se estivessem tomando interferon. Um segundo estudo encontrou benefícios similares em um grupo de 1171 pacientes distribuídos para receberem natalizumab com interferon ou somente interferon por dois anos, apesar de dois terem desenvolvido a leuco-encefalopatia (N Engl J Med 2006;354:911-23). Um terceiro estudo compilou os dados de 3417 pacientes que haviam recebido natalizumab em ensaios clínicos e concluiu que o risco geral de leuco-encefalopatia foi 1 por 1000 pacientes tratados por 18 meses (IC de 95%: 0,2 - 2,8 por 1000) (N Engl J Med 2006;354:924-33).



Kiwi® tem maior probabilidade de falhas

Questão clínica
O parto com o auxílio do extrator a vácuo Kiwi Omnicup® tem maior probabilidade de falha do que com o uso dos extratores convencionais?

Resumo
O extrator a vácuo Kiwi Omnicup® tem maior probabilidade de resultar em um parto mal sucedido do que as ventosas convencionais. Apesar de esse estudo ter sido pequeno demais para detectar diferenças nas raras lesões sérias maternas ou neonatais, os resultados não sugerem uma melhora do perfil de segurança.

Nível de evidência: 1b

Referência
Groom KM, Jones BA, Miller N, Paterson-Brown S. A prospective randomised controlled trial of the Kiwi Omnicup versus conventional ventouse cups for vacuum-assisted vaginal delivery. BJOG 2006;113:183-9.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (não cego)

Casuística: pacientes internados (apenas enfermarias)

Apoio financeiro: indústria

Distribuição: mascarada

Discussão
Kiwi Omnicup® é o nome de uma ventosa descartável relativamente nova projetada para ser menos complicada de se usar e permitir melhor manejo dentro da vagina materna para a correta colocação do dispositivo. Nesse estudo britânico, 404 mulheres de um único centro de cuidados terciários foram aleatoriamente distribuídas (por processo mascarado) para serem submetidas a um parto a vácuo como o uso do Kiwi ou qualquer outra de 3 ventosas convencionais escolhidas pelo operador. O mascaramento durante o procedimento não foi possível. A grande maioria das mulheres foi submetida ao procedimento de acordo com o grupo a que foram designadas e a análise foi por intenção de tratamento. A taxa de fracassos com o Kiwi foi 30%; com as ventosas convencionais, 19% (risco relativo = 1,58; IC de 95%: 1,10 - 2,24; número necessário para causar dano = 11; 2-19). A incidência de pelo menos um desprendimento do aparelho também foi mais alta com o Kiwi (44% versus 18%; P < 0,001). Não houve diferenças em quaisquer dos parâmetros de segurança considerados, incluindo traumas maternos e lesões neonatais.



Ropirinol pode ser efetivo para síndrome das pernas irrequietas

Questão clínica
O ropirinol (Requip) é efetivo para os pacientes com síndrome das pernas irrequietas?

Resumo
O ropirinol parece ter um efeito sobre os sintomas da síndrome das pernas irrequietas, pelo menos no curto prazo. A magnitude desse efeito ainda não é conhecida, uma vez que foi constatada nesse estudo uma grande resposta ao uso do placebo. A dose média utilizada nesse estudo foi titulada até 2,0 mg. Nos EUA, todas as doses têm aproximadamente o mesmo preço. Portanto, uma vez que a dose mais efetiva seja encontrada, o uso desse comprimido específico resultará em uma economia significativa sobre o uso dos comprimidos de 0,25 mg.

Nível de evidência: 1b-

Referência

Desenho de estudo: ensaio clínico com randomizado controlado (duplo-cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: não descrita

Discussão
Os agonistas dopaminérgicos tais como a pergolida (Permax) e a levodopa parecem ter um efeito sobre os pacientes portadores da síndrome das pernas irrequietas, apesar de uma parte desse efeito poder ser uma resposta-placebo. Os pesquisadores que conduziram esse estudo envolveram 381 pacientes (idade média = 52 anos), todos portadores da síndrome das pernas irrequietas diagnosticada segundo critérios pré-definidos. Os autores excluíram os pacientes que podiam ter a síndrome secundária a uma insuficiência renal, gestação ou deficiência de ferro. Os pacientes foram aleatoriamente distribuídos (por processo não descrito no artigo) para receberem placebo ou 0,25mg de ropirinol entre uma e três horas antes de dormir. A dosagem podia ser titulada até um máximo de 4 mg por dia, apesar de a dose mediana ao final do estudo ter sido de 2,0 mg ("4,0 mg" no grupo placebo). Os pacientes foram avaliados após três dias, após uma semana, semanalmente durante cinco semanas e depois em semanas alternadas por um total de doze semanas. Ao início do estudo, a pontuação média na escala internacional de síndrome das pernas irrequietas foi 22 em 40 pontos possíveis. Essa pontuação caiu em ambos os grupos para uma média de 11,9 no grupo tratado com o placebo e 8,4 no grupo tratado com o ropirinol (P < 0,001). As relevâncias clínicas dessa redução e da diferença entre os dois grupos não foram determinadas por essa escala. O prejuízo ao sono, medido pelo uso do questionário Medical Outcomes Study, foi reduzido de uma média de aproximadamente 60 (em 100 pontos possíveis) para 38,9 no grupo placebo e 29,1 no grupo tratado (P < 0,001). A quantidade e a adequação do sono, a sonolência diurna e o índice de problemas do sono também foram melhorados quando comparados com o placebo. A maioria dos pacientes no grupo do ropirinol (83%) relatou pelo menos um evento adverso durante o estudo, assim como 67% dos pacientes do grupo placebo. Esses efeitos podem ser responsáveis pela grande resposta ao placebo observada no estudo.



Recidiva da depressão é alta quando se interrompem as medicações durante a gravidez

Questão clínica
Qual é o risco de recorrência do transtorno depressivo maior em mulheres que suspendem a medicação durante a gestação?

Resumo
Aproximadamente 50% das mulheres que fazem uso de medicação antidepressiva sofreram uma recidiva do transtorno de depressivo maior durante a gestação. O risco é mais alto para aquelas que suspendem a medicação (68% de taxa de recidiva). É provável que a amostra desse estudo consista de pacientes com problemas cuja gravidade é maior do que aquela encontrada na prática rotineira, de maneira que os resultados podem não ser passíveis de generalização para outros contextos.

Nível de evidência: 1b

Referência
Cohen LS, Altshuler LL, Harlow BL, et al. Relapse of major depression during pregnancy in women who maintain or discontinue antidepressant treatment. JAMA 2006;295:499-07.

Desenho de estudo: estudo de coorte (prospectivo)

Casuística: pacientes ambulatoriais (especialidade)

Apoio financeiro: governamental

Discussão
O risco de recidiva da depressão grave em mulheres gestantes que continuam ou interrompem a medicação antidepressiva ainda não está claro. Esses pesquisadores identificaram 201 grávidas com uma história de depressão grave que buscaram cuidados em um de três centros de encaminhamento com especialização no tratamento de doenças psiquiátricas. As mulheres buscaram esses centros por conta própria ou encaminhadas por outros médicos. Todas elas tinham histórias de depressão grave anterior à gravidez, estavam com pelo menos dezesseis semanas de gestação e haviam recebido (por pelo menos doze semanas antes da última menstruação) ou estavam recebendo tratamento antidepressivo. O seguimento foi efetivo para 189 (94%) das participantes até o termo da gestação. Um total de 86 (43%) das mulheres sofreram recidivas do transtorno depressivo maior durante a gestação. As mulheres que mantiveram suas medicações durante o período tiveram uma taxa significativamente menor de recidiva do que aquelas que interromperam os remédios (26% versus 68%; número necessário para tratar = 2; IC de 95%: 1,8 - 4). Metade das mulheres que tiveram recidivas as sofreram no primeiro trimestre. O maior risco de recidiva ocorreu entre as mulheres com uma duração da depressão maior do que cinco anos ou uma história de mais do que 4 recorrências de episódios depressivos.



Progesterona subcutânea alivia dor da endometriose

Questão clínica
A formulação subcutânea do acetato de medroxiprogesterona é tão efetiva quanto a leuprolida no tratamento da dor pélvica associada à endometriose?

Resumo
O regime de seis meses de tratamento com o acetato de medroxiprogesterona de depósito subcutânea (DMPA; Depo Provera SubQ) oferece um alívio da dor equivalente ao da leuprolida (Lupron) para as mulheres portadoras de endometriose comprovada. Houve menos efeitos colaterais hipoestrogênicos com o DMPA, incluindo menos fogachos e um efeito menor sobre a densidade mineral óssea. Esse ensaio não testou a formulação intramuscular do DMPA, geralmente utilizada para a contracepção.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Schlaff WD, Carson SA, Luciano A, Ross D, Bergqvist A. Subcutaneous injection of depot medroxyprogesterone acetate compared with leuprolide acetate in the treatment of endometriosis-associated pain. Fertil Steril 2006;85:314-25.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade).

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Nesse estudo, 274 mulheres com endometriose cirurgicamente confirmada foram aleatoriamente distribuídas para receber 104 mg de DMPA por via subcutânea ou 11,25 mg de leuprolida por via intramuscular (a formulação do DMPA utilizada nesse estudo é uma dose menor do que a formulada para o uso intramuscular como contraceptivo). As pacientes de cada grupo receberam uma dose inicial e uma dose subseqüente três meses depois. O período de estudo consistiu de seis meses de tratamento ativo e doze meses de acompanhamento. A dor foi medida pelo uso da escala modificada de Biberoglu e Behrman, a qual consiste de cinco categorias (dismenorréia, dispareunia, dor pélvica, sensibilidade e contratura) pontuadas de 0 (nenhum desconforto) a 3 (sintomas graves), em uma faixa de 0 a 15 pontos. Uma pontuação mínima de 6 foi exigida para a inclusão no estudo. Os dados foram coletados através de diários dos pacientes e de exames pélvicos mensais. O estudo foi cego simples-as mulheres não puderam ser mascaradas devido às diferentes vias de administração, mas foi-lhes pedido que não revelasse,m aos avaliadores o grupo em que estavam. Uma diminuição de 4 pontos na escala foi considerada clinicamente significativa. Foi realizada uma análise por intenção de tratamento. Não houve diferenças entre os grupos nos abandonos devido aos efeitos colaterais, mas a taxa geral de abandonos foi maior no grupo do DMPA subcutânea: 35% versus 26%. Ambos os tratamentos demonstraram uma alteração média equivalente na escala aos 6 e os 18 meses (redução de 6,2 versus 7,7 e 5,3 versus 5,1, respectivamente). Os pacientes do grupo da leuprolida tiveram uma redução significativa na densidade mineral óssea da coluna lombar e do colo do fêmur. As mulheres do grupo do DMPA não. As pacientes do grupo da leuprolida tiveram uma probabilidade maior de relatarem fogachos graves (11% versus 2%; número necessário para causar dano = 11; IC de 95%: 6 - 36). O número médio de dias de sangramento menstrual for significativamente maior nas mulheres do grupo da DMPA (5,4% versus 0,7%).



Maioria dos neonatos de extremo baixo peso se tornam adultos funcionais

Questão clínica
As crianças de extremo baixo peso ao nascimento se tornam adultos funcionais?

Resumo
Quando sobrevivem, quase todas as crianças e adolescentes de extremo baixo peso ao nascimento superam as dificuldades sociais e cognitivas iniciais e atingem níveis funcionais comparáveis a pessoas de peso normal ao nascimento.

Nível de evidência: 1b

Referência
Saigal S, Stoskopf B, Streiner D, et al. Transition of extremely low-birth-weight infants from adolescence to young adulthood: comparison with normal birth-weight controls. JAMA 2006;295:667-75.

Desenho de estudo: estudo de coorte (prospectivo)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: governamental

Discussão
As crianças e adolescentes de extremo baixo peso ao nascimento geralmente obtêm resultados piores em testes de cognição, desempenho acadêmico, comportamento e adaptação social quando comparadas a crianças de peso normal ao nascer. O extremo baixo peso é definido como menos de 1.000g ao nascimento. Para determinar se há uma transição bem-sucedida para o período adulto, os pesquisadores analisaram os resultados de uma coorte prospectiva de base populacional contendo 166 participantes que tiveram extremo baixo peso ao nascimento e 145 controles de características sócio-demográficas comparáveis que tiveram um peso normal ao nascimento, avaliando-os entre os 22 e 25 anos de idade. Entrevistadores cegos ao status dos participantes aplicaram questionários validados que mediram educação, emprego, vida independente, status conjugal e concepção de filhos. O seguimento completo foi efetivo para 90% dos participantes do estudo. No geral, não foram encontradas diferenças significativas na obtenção de educação, emprego, vida independente, casamento ou concepção. As idades de aquisição desses marcadores também foram semelhantes em ambas as coortes.



Auto-monitoramento da anticoagulação é superior nas embolias venosas

Questão clínica
Os pacientes conseguem monitorar e gerenciar sua anticoagulação oral pelo menos tão bem quanto os profissionais?

Resumo
Os pacientes que auto-monitoraram sua anticoagulação oral tiveram menos acidentes trombo-embólicos do que aqueles que utilizaram as abordagens-padrão de monitoramento. Entretanto, o auto-monitoramento deveria ser oferecido apenas aos pacientes esclarecidos e motivados. Além disso, os aparelhos são caros e seu custo nem sempre é coberto pelas seguradoras.

Nível de evidência: 1 a

Referência
Heneghan C, Alonso-Coello P, Garcia-Alamino JM, Perera R, Meats E, Glasziou P. Self-monitoring of oral anticoagulation: a systematic review and meta-analysis. Lancet 2006;367:404-11.

Desenho de estudo: meta análise (de ensaios randomizados controlados)

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: auto financiado ou sem financiamento

Discussão
Esses pesquisadores realizaram buscas em múltiplas bases de dados à procura de ensaios randomizados controlados que comparassem o auto-monitoramento da anticoagulação oral com o monitoramento-padrão. Além disso, eles procuraram estudos em andamento e dados dos fabricantes de monitores em uma tentativa de encontrar estudos ainda não publicados. Três revisores avaliaram cada estudo de maneira independente para a sua inclusão, sendo as discrepâncias resolvidas por consenso. Além disso, eles avaliaram a qualidade metodológica de cada estudo. Ao final, os autores identificaram 14 estudos que incluíram 1309 pacientes. Eles foram, em geral, pequenos estudos e com uma média de 94 pacientes. Em todos os estudos, os pacientes auto-monitorados mantiveram seus INR dentro do alvo pelo menos tão bem quanto os monitorados da maneira padrão. E, o que é mais importante, apenas 2,2% dos pacientes auto-monitorados tiveram acidentes trombo-embólicos em comparação com 4,6% daqueles que receberam os cuidados usuais (número necessário para tratar = 43, IC de 95%: 27 - 92). Nos estudos que os mediram diretamente, os resultados de hemorragia e mortalidade geral também foram significativamente melhores nos grupos auto-monitorados. Uma ressalva: uma alta proporção de pacientes (31% - 88%) não aceitou ou abandonou o auto-monitoramento devido à complexidade desse procedimento.



Câncer relacionado a alguns tratamentos para diabetes

Questão clínica
Existe alguma relação entre a mortalidade relacionada ao câncer e os tratamentos para o diabetes mellitus do tipo 2?

Resumo
As mortes devidas ao câncer parecem ser mais prevalentes entre os pacientes com diabetes tipo 2 tratados com insulina ou alguma sulfoniluréia do que com a metformina. Uma possível explicação seria a de que a hiper-insulinemia aumenta o risco de câncer, ou que a metformina é protetora. Uma outra explicação poderia ser a de que, apesar de o câncer ser relacionado ao uso de certas medicações, ele não é causado por elas. Precisaríamos de estudos controlados para responder a essas questões.

Nível de evidência: 2 b

Referência

Desenho de estudo: estudo de coorte (retrospectivo)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: fundação

Discussão
A resistência à insulina e a hiper-insulinemia resultante já foram relacionadas a um grande número de distúrbios (especialmente, claro, ao diabetes mellitus do tipo 2). As seqüelas da síndrome metabólica também são uma conseqüência, e há algumas evidências de que o câncer está relacionado a elas. A insulina e o fator de crescimento insulina-like (IGF) são necessários em todos os estágios do crescimento celular, canceroso ou não. Dados extraídos do United Kingdom Prospective Diabetes Study (UKPDS) sugerem a possibilidade de um aumento na mortalidade por todas as causas entre os portadores de diabetes do tipo 2 tratados com insulina. Os pesquisadores que realizaram esse provocativo estudo identificaram 10.309 novos usuários de metformina ou sulfoniluréias no Canadá com o uso de uma base de dados de um plano farmacêutico. Eles monitoraram os pacientes por uma média de 5,4 anos utilizando um arquivo computadorizado de estatísticas vitais. O monitoramento foi efetivo para todos os pacientes. Eles tinham uma média de 63,4 anos de idade e 55% deles eram homens. Nesse tipo de estudo, nenhuma intervenção em particular é realizada -os pacientes foram tratados por seus médicos individuais como se não participassem de estudos e os resultados dos pacientes foram determinados ao longo do tempo. Uma vez que os participantes não foram especificamente designados para receberem uma ou outra terapia, poderiam ter ocorrido desequilíbrios (como, de fato, houve). A idade média dos pacientes que iniciaram com uma sulfoniluréia foi cinco anos maior do que a dos pacientes tratados com metformina (66,9 anos versus 61,8 anos; P < 0,001). Uma proporção maior de homens foi alocada no grupo tratado com as sulfoniluréias (58,6 versus 53,5; P < 0,001) e mais pacientes dentre aqueles que iniciaram o tratamento como metformina acabaram recebendo insulina (16,3% versus 9,2%; P < 0,01). Todos esses desequilíbrios podem ser estatisticamente ajustados, apesar de que um projeto ideal seria designar os pacientes de maneira aleatória para prevenir que isso aconteça. Um total de 407 mortes relacionadas ao câncer (3,9%) ocorreram em todo o grupo. Antes do ajuste estatístico, 3,5% dos pacientes que receberam metformina morreram de uma doença relacionada ao câncer em comparação com 4,9% dos pacientes do grupo tratado com uma sulfoniluréia (P = 0,0001). Após o ajuste estatístico, as mortes ainda foram 30% maiores no grupo tratado com uma sulfoniluréia do que no grupo que tomou metformina (proporção de dano [HR] = 1,3; IC de 95%: 1,1-1,6; P = 0,2). Além disso, a mortalidade relacionada ao câncer foi quase duas vezes mais alta entre os pacientes tratados com insulina, independentemente dos outros tratamentos (HR = 1,9; 1,5 - 2,4).



Duloxetina é efetiva para fibromialgia em algumas mulheres

Questão clínica

A duloxetina é efetiva no controle dos sintomas de mulheres portadoras de fibromialgia?

Resumo
A duloxetina (Cymbalta, Xeristar, Yentreve) é efetiva para algumas mulheres com fibromialgia, quer estejam ou não deprimidas. A redução média na pontuação de dor, quando comparada com o placebo, é pequena -entre 1,31 e 1,44 em 10 pontos possíveis -e muitas mulheres abandonam o tratamento (35%-39% nesse estudo). Entretanto, uma proporção significativa das mulheres terá uma redução de 50% ou mais nas pontuações médias de dor. O número necessário para tratar é 6 por três meses.

Nível de evidência: 1b-

Referência
Arnold LM, Rosen A, Pritchett YL. A randomized, double-blind, placebo-controlled trial of duloxetine in the treatment of women with fibromyalgia with or without major depressive disorder. Pain 2005;119:5-15 Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: não descrita

Discussão
Esses pesquisadores recrutaram 354 pacientes do sexo feminino que tinham fibromialgia primária, com ou sem um diagnóstico de depressão. Todas as participantes se encaixavam nos critérios do colégio americano de reumatologia para a fibromialgia primária e tinham uma pontuação de pelo menos 4 em 10 possíveis em no Brief Pain Inventory (pontuação média = 6,5). A maioria das mulheres eram brancas e a idade média era de 50 anos. Apenas 26% das pacientes estavam deprimidas e nenhuma estava tomando qualquer outro analgésico além do acetaminofeno. Elas foram aleatoriamente distribuídas (por processo não descrito) para receberem placebo ou duloxetina uma ou duas vezes por dia durante três meses. As desistências foram comuns em todos os grupos, mas houve um número maior de abandonos nos grupos de tratamento devido aos efeitos colaterais. A náusea foi relatada por aproximadamente 40% dos pacientes e a xerostomia ocorreu em cerca de 20% das pacientes.

A resposta média (ajustada) ao placebo foi uma redução de 1,16 no Brief Pain Inventory. Os pacientes que receberam qualquer uma das doses de duloxetina tiveram uma redução nas pontuações de dor entre 1,31 e 1,44 além daquelas conseguidas com o placebo. Não houve uma diferença nas respostas entre os pacientes dos dois grupos que tomaram a duloxetina. Entretanto, um número significativamente maior de pacientes que receberam a duloxetina teve uma redução de 50% na pontuação do Brief Pain Inventory: 41% em cada grupo tratado em comparação com 23% no grupo placebo (P = 0,0003). Em outras palavras, apesar de a resposta média ao tratamento não ter sido grande, uma em cada seis pacientes tratadas com a duloxetina ao invés do placebo terá uma redução de pelo 50% nas dores (número necessário para tratar = 5,6). Não houve diferenças entre as mulheres que estavam ou não deprimidas.



Rimonabant (Acomplia) é minimamente efetivo para perda de peso

Questão clínica
O rimonabant é efetivo na redução do peso de pacientes obesos ou com sobrepeso?

Resumo
O rimonabant (Acomplia) é minimamente efetivo para a perda ponderal sustentada em pacientes obesos ou com sobrepeso. Menos da metade dos participantes inicialmente recrutados para esse estudo completaram o protocolo de um ano. Daqueles que permaneceram, apenas um quarto perdeu uma quantidade significativa de peso (10% ou mais) e, da mesma maneira que ocorre com as outras drogas redutoras, os pacientes que interromperam a medicação recuperaram o peso após um ano.

Nível de evidência: 1b-

Referência
Pi-Sunyer FX, Aronne LJ, Heshmati HM, Devin J, Rosenstock J, for the RIO-North America Study Group. Effect of rimonabant, a cannabinoid-1 receptor blocker, on weight and cardiometabolic risk factors in overweight or obese patients. RIO-North America: A randomized controlled trial. JAMA 2006;295:761-75.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: não descrito

Discussão
O rimonabant é um bloqueador seletivo dos receptores canabinóides do tipo 1 que reduz o apetite e pode promover a perda ponderal em pacientes obesos ou com sobrepeso. Esses pesquisadores envolveram 3500 adultos obesos (índice de massa corporal [IMC] > 30) ou com sobrepeso (IMC > 27) em 64 centros de pesquisas norte-americanos e canadenses. Após um período de quatro semanas durante as quais todos os pacientes receberam placebo e dieta, os pacientes aderentes (87%) receberam aleatoriamente (mascaramento da randomização não descrito) 20 mg de rimonabant por dia, 5 mg de rimonabant por dia ou placebo. Durante o segundo ano de estudo os pacientes tratados com rimonabant foram re-randomizados para receberem placebo ou continuarem a tomar a mesma dose de rimonabant que já vinham recebendo. Todos os pacientes também foram colocados em uma dieta com um déficit de 600 calorias por dia. Os autores não especificam se os resultados foram medidos por indivíduos cegos à distribuição dos grupos de tratamento. Após um ano, um pouco mais do que metade dos pacientes inicialmente recrutados completaram o protocolo de estudo -o restante foi excluído devido a falta de eficácia, eventos adversos, má aderência ou solicitação do próprio paciente. Pelo uso da análise por intenção de tratamento modificada (a qual incluiu apenas pacientes que tomaram pelo menos uma dose do medicamento), os pacientes do grupo que recebeu 20 mg de rimonabant perderam significativamente mais peso do que aqueles que receberam placebo (6,3 kg versus 1,6 kg; diferença geral = 4,7 kg). A porcentagem de pacientes que atingiu uma perda de clinicamente significativa (10% ou mais) foi de 25,2% para os pacientes que receberam 20 mg do rimonabant e 8,5% para os pacientes do grupo do placebo (número necessário para tratamento = 17). A diferença entre 5 mg de rimonabant e o placebo não foi significativa. Os pacientes que foram trocados do grupo de 20 mg para o grupo placebo durante o segundo ano de estudo sofreram um ganho de peso enquanto aqueles que continuaram a tomar 20 mg da droga não.



Lesão miocárdica prediz mortalidade nas intoxicações por CO

Questão clínica
A lesão miocárdica nos pacientes intoxicados por monóxido de carbono está associada a um maior risco de mortalidade em longo prazo?

Resumo
A lesão miocárdica é uma complicação comum da intoxicação por monóxido de carbono (CO) de gravidade moderada a alta e está associada a um aumento significativo da mortalidade em longo prazo.

O nível de evidência: 1b

Referência
Henry CR, Satran D, Lindgren B, Adkinson C, Nicholson CI, Henry TD. Myocardial injury and long-term mortality following moderate to severe carbon monoxide poisoning. JAMA 2006;295:398-402.

Desenho de estudo: estudo de coorte (prospectivo)

Casuística: pacientes internados (quaisquer) com acompanhamento ambulatorial

Apoio financeiro: fundação

Discussão
A intoxicação por CO é um dos tipos mais comuns de envenenamento acidental. Esses pesquisadores quiseram determinar a associação entre a lesão do miocárdio e a mortalidade em longo prazo dos pacientes após uma intoxicação por CO de moderada a grave. A população em estudo incluiu 230 adultos consecutivos, com idades maiores do que 18 anos, tratados com oxigênio hiperbárico em um centro regional de encaminhamento do Meio-Oeste dos EUA. O acompanhamento foi efetivo por uma média de 7,6 anos e foi completo pelo uso do índice de mortalidade do departamento de Seguridade Social do governo. Esse índice é uma fonte de dados de mortalidade altamente precisa e específica. A lesão miocárdica foi definida como um nível de troponina cardíaca maior ou igual a 0,7 ng/ml, um nível de creatino-quinase fração MB (CK-MB) maior ou igual a 5,0 ng/ml ou alterações diagnósticas no eletrocardiograma. Um total de 85 pacientes (37%) se encaixou nos critérios de lesão miocárdica. Desses, 32 (38%) morreram enquanto apenas 22 (15%) dos 145 pacientes sem evidências de lesão miocárdica morreram. A mortalidade intra-hospitalar foi de apenas 5% (12 pacientes).



Estatinas são equivalentes na prevenção da doença cardiovascular

Questão clínica
Existe alguma diferença nos resultados do uso entre as principais estatinas?

Resumo
A efetividade geral da terapia com as estatinas no que diz respeito aos resultados mais importantes -redução da mortalidade, dos acidentes cardíacos e cérebro-vasculares -não é diferente entre as três principais estatinas. Esses são os resultados de uma meta-análise; nenhum estudo comparou diretamente doses equivalentes de duas estatinas diferentes.

Nível de evidência: 1a

Referência
Zhou Z, Rahme E, Pilote L. Are statins created equal? Evidence from randomized trials of pravastatin, simvastatin, and atorvastatin for cardiovascular disease prevention. Am Heart J 2006;151:273-81.

Desenho de estudo: meta análise (de ensaios clínicos randomizados controlados)

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: auto financiado/sem financiamento

Discussão
Esses pesquisadores fizeram uma análise das pesquisas existentes sobre o benefício das estatinas na prevenção das doenças cardiovasculares (DCV). As estatinas consideradas foram a pravastatina (Pravacol), a sinvastatina (Zocor) e a atorvastatina (Lipitor). Os autores identificaram, através de uma busca no MEDLINE e no registro Cochrane de ensaios controlados, todos os ensaios randomizados controlados que incluíram pelo menos 1000 participantes e avaliaram a DCV ou mortalidade como resultado ao longo de pelo menos um ano. Eles utilizaram apenas estudos de língua inglesa. Eles também tomaram alguns atalhos no processo de revisão sistemática que provavelmente tiveram poucos efeitos sobre suas conclusões: não realizaram pesquisas em dupla ou a extração dos dados. Eles identificaram oito estudos que envolveram quase 64.000 pessoas e compararam uma das estatinas com o placebo ou com os cuidados habituais. Eles não incluíram o único estudo que comparou diretamente duas estatinas uma vez que a meta desse artigo (mais favorável ao marketing) era comparar a intensidade do tratamento em vez da efetividade das duas drogas. Todos os estudos demonstraram um grau semelhante de redução dos níveis lipídicos. Não houve diferenças entre as estatinas na redução das doenças coronarianas fatais, dos infartos do miocárdio não fatais, dos acidentes vasculares cerebrais fatais ou não, de todas as mortes cardiovasculares ou da mortalidade por qualquer causa.



Antivirais são ligeiramente efetivos contra o influenza em adultos saudáveis

Questão clínica
Os antivirais são efetivos na prevenção ou no tratamento do influenza em adultos saudáveis?

Resumo
Os agentes antivirais são apenas ligeiramente efetivos na prevenção do influenza confirmado ou das síndromes influenza-like. Quando administrados durante os primeiros dias de enfermidade, os bloqueadores iônicos M2 e os inibidores da neuraminidase reduzem a duração da doença em aproximadamente 1 dia.

Nível de evidência: 1 a

Referência
Jefferson T, Demicheli V, Rivetti D, Jones M, Di Pietrantonj C, Rivetti A. Antivirals for influenza in healthy adults: systematic review. Lancet 2006;367:303-13.

Desenho de estudo: revisão sistemática

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: governamental

Discussão
Esses autores pesquisaram múltiplas bases de dados em busca de ensaios randomizados controlados sobre medicações antivirais no tratamento de adultos saudáveis com idades entre 16 e 65 anos infectados por influenza. Eles também procuraram por estudos não publicados. Dois autores avaliaram os estudos a serem incluídos e a qualidade dos mesmos de maneira independente. Um terceiro membro da equipe resolveu as discrepâncias. Eles analisaram vinte estudos acerca da profilaxia e 3 ensaios sobre o tratamento com o uso do inibidores iônicos M2: amantadina (Symmetrel) e rimantadina (Flumadine). Eles também analisaram dezenove estudos sobre os inibidores da neuraminidase zanamivir (Relenza) e oseltamivir (Tamiflu) com relação a profilaxia, tratamento e profilaxia pós-exposição. Nos estudos sobre profilaxia, a amantadina preveniu 61% dos casos de influenza, mas apenas 25% das doenças influenza-like. Os efeitos adversos fizeram um número maior de pacientes interromper o uso da amantadina do que do placebo. A rimantadina não foi melhor do que o placebo na prevenção do influenza e das síndromes influenza-like e também teve uma tendência maior de causar efeitos adversos que resultaram em interrupção da medicação. Os inibidores da neuraminidase não foram melhores do que o placebo na profilaxia das síndromes influenza-like. Ou oseltamivir preveniu 54% dos casos de influenza e o zanamivir 43%. De acordo com um único estudo, os inibidores da neuraminidase preveniram infecções do trato respiratório inferior em casos confirmados de influenza mas não em enfermidades influenza-like. Os autores não foram capazes de encontrar nenhum estudo rigoroso sobre o uso do oseltamivir na gripe aviária. Infelizmente, os autores não forneceram detalhes suficientes para o cálculo dos números necessários para tratar ou dos números necessários para causar dano.



Teste do PNB é benéfico na ICC com doença pulmonar

Questão clínica
Em pacientes que têm disfunções pulmonares, o teste do peptídeo natriurético do tipo B pode orientar a terapia de maneira efetiva?

Resumo
Em pacientes portadores de doença pulmonar preexistente, o teste do peptídeo natriurético do tipo B (PNB) na emergência é efetivo na distinção entre uma exacerbação devida à insuficiência cardíaca (ICC) e processos causados pela doença pulmonar. Como resultado, as hospitalizações diminuem, provavelmente devido ao início de uma terapia mais adequada já no pronto-socorro. Além disso, a duração da internação é menor e os custos também.

Nível de evidência: 1b

Referência
Mueller C, Laule-Kilian K, Frana B, et al. Use of B-type natriuretic peptide in the management of acute dyspnea in patients with pulmonary disease. Am Heart J 2006;151:471-77.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (cego-simples)

Casuística: pacientes de pronto-socorro

Apoio financeiro: fundação

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Esse relatório é uma análise de subgrupos do estudo BASEL (N Engl J Med 2004;350:647-54), que demonstrou a efetividade do teste do PNB no gerenciamento dos casos de insuficiência cardíaca que se apresentam com descompensações agudas em um departamento de emergência. Nessa análise, os 226 pacientes tinham histórias de problemas pulmonares: 72% tinham uma história de DPOC ou asma (as outras doenças pulmonares incluíam pneumonia, embolia pulmonar e doença intersticial). Os pacientes foram aleatoriamente distribuídos (por processo mascarado) para receberem os cuidados habituais implementados por um teste rápido do PNB ou para serem submetidos ao protocolo diagnóstico habitual sem o conhecimento do nível de PNB. Os médicos foram avisados de que um nível de PNB menor do que 100 pg/ml fazia da ICC uma hipótese pouco provável, um resultado maior do que 500 pg/ml tornava a ICC bastante provável, e níveis intermediários exigem informações adicionais e julgamentos clínicos para a realização do diagnóstico. O PNB não foi medido durante nenhuma hospitalização subseqüente. Os resultados foram avaliados por um grupo cego à distribuição de tratamento. A ICC foi a principal causa de dispnéia aguda em 39% dos pacientes, seguida pela exacerbação da DPOC (33%) e pela pneumonia (16%). Os pacientes do grupo do PNB tiveram uma probabilidade menor de serem internados (81% versus 91%; P = 0,034) e passaram menos tempo no hospital (9 versus 12 dias; P = 0,001). O custo mediano do cuidado foi menor no grupo do PNB (US$4.841 versus US$5.671; P = 0,008). As mortalidades intra-hospitalares foram semelhantes em ambos os grupos. Esses resultados são paralelos aos demonstrados pelo estudo BASEL em sua totalidade.



Lesão miocárdica prediz mortalidade nas intoxicações por CO

Questão clínica
A lesão miocárdica nos pacientes intoxicados por monóxido de carbono está associada a um maior risco de mortalidade em longo prazo?

Resumo
A lesão miocárdica é uma complicação comum da intoxicação por monóxido de carbono (CO) de gravidade moderada a alta e está associada a um aumento significativo da mortalidade em longo prazo.

O nível de evidência: 1b

Referência
Henry CR, Satran D, Lindgren B, Adkinson C, Nicholson CI, Henry TD. Myocardial injury and long-term mortality following moderate to severe carbon monoxide poisoning. JAMA 2006;295:398-402.

Desenho de estudo: estudo de coorte (prospectivo)

Casuística: pacientes internados (quaisquer) com acompanhamento ambulatorial

Apoio financeiro: fundação

Discussão
A intoxicação por CO é um dos tipos mais comuns de envenenamento acidental. Esses pesquisadores quiseram determinar a associação entre a lesão do miocárdio e a mortalidade em longo prazo dos pacientes após uma intoxicação por CO de moderada a grave. A população em estudo incluiu 230 adultos consecutivos, com idades maiores do que 18 anos, tratados com oxigênio hiperbárico em um centro regional de encaminhamento do Meio-Oeste dos EUA. O acompanhamento foi efetivo por uma média de 7,6 anos e foi completo pelo uso do índice de mortalidade do departamento de Seguridade Social do governo. Esse índice é uma fonte de dados de mortalidade altamente precisa e específica. A lesão miocárdica foi definida como um nível de troponina cardíaca maior ou igual a 0,7 ng/ml, um nível de creatino-quinase fração MB (CK-MB) maior ou igual a 5,0 ng/ml ou alterações diagnósticas no eletrocardiograma. Um total de 85 pacientes (37%) se encaixou nos critérios de lesão miocárdica. Desses, 32 (38%) morreram enquanto apenas 22 (15%) dos 145 pacientes sem evidências de lesão miocárdica morreram. A mortalidade intra-hospitalar foi de apenas 5% (12 pacientes).



Cefalosporinas são geralmente seguras para os pacientes alérgicos à penicilina

Questão clínica
Quais são as evidências existentes com relação ao uso da cefalosporinas nos pacientes alérgicos à penicilina?

Resumo
O risco de reação cruzada entre a penicilina e as cefalosporinas foi superestimado para as drogas de segunda e terceira geração. Existe um risco significativo apenas entre as cefalosporinas de primeira geração (cefalexina, cefalotina, cefadroxil e cefazolina), que têm uma cadeia lateral similar à da penicilina. Se o monitoramento correto for realizado, pode ser considerado o uso das cefalosporinas de segunda e terceira geração nesses pacientes.

Nível de evidência: 2 a

Referência
Pichichero ME. Cephalosporins can be prescribed safely for penicillin-allergic patients. J Fam Pract 2006; 55:106-12.

desenho de estudo: revisão sistemática

casuística: variada (meta análise)

apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Discussão
Esse autor realizou uma abrangente pesquisa no MEDLINE e no EMBASE para identificar os 101 artigos que foram utilizados como base para essa revisão sistemática. A taxa geral encontrada de erupções cutâneas foi de aproximadamente 2%. A anafilaxia foi muito rara, com um risco entre 0,1% e 0,0001%. Os médicos geralmente se preocupam com a reação cruzada entre as penicilinas e as cefalosporinas, mas isso parece se aplicar somente às cefalosporinas de primeira geração tais como a cefalotina, a cefaloridina, a cefalexina, o cefadroxil ou a cefazolina. Não foi observado um aumento no risco de reação alérgica com o uso das cefalosporinas de segunda e terceira geração, as quais incluem o cefprozil, a cefuroxima, a ceftazidima, a cefpodoxima e a ceftriaxona. O autor especula que isso se dá devido às cadeias laterais similares na estrutura química das penicilinas e das cefalosporinas de primeira geração, as quais não existem nas de segunda e terceira. Os pacientes que têm um histórico de reação à penicilina mediada por IgE (isto é, dispnéia, angioedema, urticária, edema laríngeo ou anafilaxia) não deveriam utilizar as cefalosporinas de primeira geração mas podem estar aptos a tomar as cefalosporinas de segunda e terceira geração com segurança.



Rimonabant (Acomplia) é minimamente efetivo para perda de peso

Questão clínica
O rimonabant é efetivo na redução do peso de pacientes obesos ou com sobrepeso?

Resumo
O rimonabant (Acomplia) é minimamente efetivo para a perda ponderal sustentada em pacientes obesos ou com sobrepeso. Menos da metade dos participantes inicialmente recrutados para esse estudo completaram o protocolo de um ano. Daqueles que permaneceram, apenas um quarto perdeu uma quantidade significativa de peso (10% ou mais) e, da mesma maneira que ocorre com as outras drogas redutoras, os pacientes que interromperam a medicação recuperaram o peso após um ano.

Nível de evidência: 1b-

Referência
Pi-Sunyer FX, Aronne LJ, Heshmati HM, Devin J, Rosenstock J, for the RIO-North America Study Group. Effect of rimonabant, a cannabinoid-1 receptor blocker, on weight and cardiometabolic risk factors in overweight or obese patients. RIO-North America: A randomized controlled trial. JAMA 2006;295:761-75.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: não descrito

Discussão
O rimonabant é um bloqueador seletivo dos receptores canabinóides do tipo 1 que reduz o apetite e pode promover a perda ponderal em pacientes obesos ou com sobrepeso. Esses pesquisadores envolveram 3500 adultos obesos (índice de massa corporal [IMC] > 30) ou com sobrepeso (IMC > 27) em 64 centros de pesquisas norte-americanos e canadenses. Após um período de quatro semanas durante as quais todos os pacientes receberam placebo e dieta, os pacientes aderentes (87%) receberam aleatoriamente (mascaramento da randomização não descrito) 20 mg de rimonabant por dia, 5 mg de rimonabant por dia ou placebo. Durante o segundo ano de estudo os pacientes tratados com rimonabant foram re-randomizados para receberem placebo ou continuarem a tomar a mesma dose de rimonabant que já vinham recebendo. Todos os pacientes também foram colocados em uma dieta com um déficit de 600 calorias por dia. Os autores não especificam se os resultados foram medidos por indivíduos cegos à distribuição dos grupos de tratamento. Após um ano, um pouco mais do que metade dos pacientes inicialmente recrutados completaram o protocolo de estudo -o restante foi excluído devido a falta de eficácia, eventos adversos, má aderência ou solicitação do próprio paciente. Pelo uso da análise por intenção de tratamento modificada (a qual incluiu apenas pacientes que tomaram pelo menos uma dose do medicamento), os pacientes do grupo que recebeu 20 mg de rimonabant perderam significativamente mais peso do que aqueles que receberam placebo (6,3 kg versus 1,6 kg; diferença geral = 4,7 kg). A porcentagem de pacientes que atingiu uma perda de clinicamente significativa (10% ou mais) foi de 25,2% para os pacientes que receberam 20 mg do rimonabant e 8,5% para os pacientes do grupo do placebo (número necessário para tratamento = 17). A diferença entre 5 mg de rimonabant e o placebo não foi significativa. Os pacientes que foram trocados do grupo de 20 mg para o grupo placebo durante o segundo ano de estudo sofreram um ganho de peso enquanto aqueles que continuaram a tomar 20 mg da droga não.



Intolerância a glicose é preditor de mortalidade entre não-diabéticos

Questão clínica
Níveis elevados de glicemia de jejum ou pós-prandial são preditores de mortalidade em homens?

Resumo
Níveis mais elevados de glicemia em jejum ou 2h após carga de glicose em homens de meia idade são fatores preditivos da mortalidade subseqüente. Entretanto, isso não necessariamente significa que a redução dessa glicemia reduzirá essa mortalidade (como foi demonstrado no UK Prospective Diabetes Study [UKPDS] Group. Lancet 1998;352:837-53).

Nível de evidência: 1b

Referência
Sorkin JD, Fleg JL, Muller DC, Andres R. The relation of fasting and 2-h postchallenge plasma glucose concentrations to mortality. Diabetes Care 2005;28:2626-32.

Desenho de estudo: estudo de coorte (prospectivo)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: governamental

Discussão
Nos idos de 1963 esses pesquisadores recrutaram 1236 homens para um estudo longitudinal sobre o envelhecimento. Nenhum deles tinha diabetes à época do recrutamento. Na ocasião, foram realizados exames de glicemia de jejum e, mais tarde, dos níveis glicêmicos 2h pós-carga de glicose. Eles foram seguidos por uma média de 13,4 anos e esse seguimento foi de quase 100%. Ao início do estudo a idade média desses homens era de 53 anos e 35% deles morreram durante o período de seguimento. O risco de mortalidade aumentou com níveis de glicemia de jejum maiores do que 110 mg/dl. Nos níveis entre 110 e 126 mg/dl, o risco relativo foi de 1,41 (IC de 95%: 1,01 - 1,97) e a níveis glicêmicos entre 126 e 139 mg/dl o risco relativo foi de 2,02 (1,09 - 3,73). De maneira similar, uma glicemia 2h após a carga de glicose maior do que 140 mg/dl também foi um preditor de mortalidade.

Uma ressalva importante: esse tipo de estudo demonstra uma associação, que pode ou não ser causal. Em outras palavras, mesmo que níveis mais altos de glicemia estejam associados a uma maior mortalidade, isso não significa necessariamente que reduzir os níveis glicêmicos irá reverter o risco. As glicemias mais altas podem ser simplesmente um marcador e não uma causa da mortalidade.



Tratamento clínico efetivo para obstrução parcial do delgado

Questão clínica
A terapia oral com óxido de magnésio, lactobacilos e simeticona melhora os resultados clínicos de pacientes com obstrução intestinal parcial?

Resumo
A combinação de óxido de magnésio, lactobacilos e simeticona parece reduzir a duração da internação e a necessidade de cirurgia em pacientes com obstrução parcial do intestino delgado, apesar de esse estudo ter sido limitado por falhas no mascaramento completo dos pacientes e dos cuidadores.

Nível de evidência: 1b

Referência
Chen SC, Yen ZS, Lee CC, et al. Nonsurgical management of partial adhesive small-bowel obstruction with oral therapy: a randomized controlled trial. CMAJ 2005; 173:1165-169.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (cego simples)

Casuística: pacientes internados (quaisquer)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
A obstrução parcial do delgado é uma complicação das cirurgias intra-abdominais e pélvicas de ocorrência relativamente comum, levando um terço dos pacientes à necessidade de descompressão cirúrgica. Nesse estudo, os pesquisadores identificaram em Taiwan 128 adultos que tinham uma história de cirurgia abdominal há mais de quatro semanas, sintomas compatíveis com a síndrome de obstrução parcial do delgado e uma radiografia confirmatória demonstrando níveis líquidos e aéreos no delgado mas apenas ar nos cólons. A distribuição da amostra foi mascarada e foi realizada uma tentativa para mascarar o cirurgião assistente (que tomava as decisões sobre tratamento e período de internação). Os grupos foram balanceados ao início do estudo e nenhum paciente foi perdido no seguimento. Todos receberam hidratação endovenosa e descompressão por sonda naso-gástrica. Os pacientes do grupo de controle não receberam nada oralmente, enquanto aqueles do grupo tratado receberam água e 500 mg que óxido de magnésio, 0,3 g de Lactobacilus acidophilus e 40 mg de simeticona três vezes ao dia seguidos de fechamento da sonda por 1hora. Os pacientes do grupo de tratamento ativo tiveram uma tendência menor de necessitarem de cirurgia (9% versus 24%; P = 0,03; número necessário para tratar = 7; IC de 95%: 4 - 52) e tiveram menores períodos de internação (1,0 versus 4,2 dias; P < 0,001). Não houve diferenças entre os grupos com relação à tendência de complicações sérias ou recidivas em seis meses. As principais limitações do estudo foram a falha de cegamento dos pacientes e profissionais e a dificuldade de mascaramento dos cirurgiões assistentes.

Comentário Dr. Idblan Albuquerque
“Esse trabalho, mesmo apresentando uma amostra pequena, é importante pois demonstra que agindo nos fatores que perpetuam a estase, há melhora significativa na evolução dos doentes com obstrução parcial do delgado. Creditando a importância do tratamento clínico nessa situação freqüente em indivíduos submetidos a cirurgia abdominal.”



Rastreamento com sangue oculto não reduz mortalidade por todas as causas

Questão clínica
O teste do sangue oculto nas fezes reduz a mortalidade por todas as causas?

Resumo
O rastreamento do câncer de cólon com o teste do sangue oculto fecal não reduz a mortalidade por todas as causas. Devemos nos lembrar disso -e dos resultados similarmente controvérsos relativos às mamografias -quando avaliamos qualquer novo exame de rastreamento que defensores das doenças, ainda que bem-intencionados, querem impor a nossos pacientes atualmente saudáveis.

Nível de evidência: 1a

Referência
Moayyedi P, Achkar E. Does fecal occult blood testing really reduce mortality? A reanalysis of systematic review data. Am J Gastroenterol 2006;101:380-84.

Desenho de estudo: meta análise (de ensaios clínicos randomizados controlados)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: auto financiado ou sem financiamento

Distribuição da amostra: não descrita

Discussão
O resultado mais importante de qualquer estudo relativo a rastreamentos é a mortalidade por todas as causas. Afinal, a idéia por trás do rastreamento é fazermos algo para pessoas saudáveis com a promessa de que isso irá lhes ajudar a viverem vidas mais longas. Seria isso uma verdade para o teste do sangue oculto? Esses autores combinaram os dados de 3 grandes ensaios randomizados publicados sobre o sangue oculto fecal: um dinamarquês, um britânico e um norte-americano. Os três compararam o teste do sangue oculto, realizado a cada dois anos, com a ausência de rastreamento. Os estudos britânico e dinamarquês usaram o teste do sangue oculto fecal não re-hidratado em adultos com idades entre 45 e 75 anos, enquanto o estudo americano utilizou o teste re-hidratado em adultos com idades entre 50 e 80 anos. Todos os três estudos seguiram os pacientes por uma média de 12 anos, o que significa que 245.217 participantes foram seguidos por mais de 3 milhões de pacientes-ano. No geral, houve uma redução relativa de 13% na mortalidade por câncer cólo-retal. Em termos absolutos, dividindo as mortes totais por câncer cólo-retal pelo total de participantes, houve uma redução muito menos impressionante de 0,82% em comparação com 0,94% (P = 0,002; número necessário para tratar = 833/12 anos). Mas o mais interessante vem agora: quando se olha para a mortalidade por todas as casas, houve, na verdade, um aumento relativo de 1,9% nas mortes não relacionadas ao câncer cólo-retal e não houve uma diferença geral entre os grupos na mortalidade por todas as causas (26,51% entre os rastreados e 26,46% entre os não-rastreados). Explicações potenciais para esse paradoxo incluem as conseqüências colaterais do rastreamento (ou seja, falha do paciente em adotar um estilo de vida mais saudável porque está fazendo o rastreamento ou mortalidade devida à colonoscopia de seguimento) e uma melhor identificação do câncer cólo-retal como causa de morte nos pacientes rastreados.



"Resfriado no peito" em vez de "bronquite" reduz uso desnecessário de antibióticos

questão clínica
Chamar a bronquite aguda de "resfriado no peito" melhora a satisfação dos pacientes e reduz o uso inadequado de antibióticos?

Resumo
O uso do nome "resfriado no peito" ou "infecção viral respiratória alta" em vez de "bronquite aguda" não parece afetar a satisfação dos pacientes com relação a seu diagnóstico mas pode melhorar a satisfação com o fato de não receberem um antibiótico. Ensaios prospectivos são necessários para confirmar se essa abordagem realmente reduz o uso inapropriado de antibióticos.

Nível de evidência: 2b

referência
Phillips TG, Hickner J. Calling acute bronchitis a chest cold may improve patient satisfaction with appropriate antibiotic use. J Am Board Fam Pract 2005;18:459-63.

desenho de estudo: descritivo

casuística: pacientes ambulatoriais (de atenção primária)

apoio financeiro: fundação

discussão
O uso excessivo de antibióticos para infecções respiratórias agudas é geralmente o resultado direto da pressão das expectativas dos pacientes sobre seus médicos pessoais. Esses pesquisadores desenvolveram um ensaio por escrito que representava uma enfermidade respiratória aguda típica a qual poderia ser chamada de bronquite mas não exigia terapia antibiótica. Pacientes que se apresentaram aos consultórios para consultas de rotina por razões outras que não uma infecção respiratória aguda receberam tanto esse ensaio quanto uma lista de questões que avaliaram sua satisfação tanto com diagnóstico quanto com o tratamento. Três rótulos diagnósticos diferentes -resfriado no peito, infecção respiratória viral superior e bronquite -foram correlacionados com um programa de tratamento específico que excluiu os antibióticos. Das 466 pesquisas oferecidas, 459 formulários completos foram analisados. A idade média dos participantes foi 43 anos e 66% eram mulheres. As taxas de satisfação com o diagnóstico foram similares com qualquer um dos rótulos. Entretanto, os pacientes com o rótulo de bronquite relataram uma insatisfação significativamente maior por não terem recebido um antibiótico (26%) do que aqueles que receberam o rótulo de resfriado no peito ou infecção respiratória viral superior (13% e 17%, respectivamente).



Maioria dos neonatos de extremo baixo peso de tornam adultos funcionais

Questão clínica
As crianças de extremo baixo peso ao nascimento e tornam adultos funcionais?

Resumo
Quando sobrevivem, quase todas as crianças e adolescentes de extremo baixo peso ao nascimento superam as dificuldades sociais e cognitivas iniciais e atingem níveis funcionais comparáveis a pessoas de peso normal ao nascimento.

Nível de evidência: 1b

Referência
Saigal S, Stoskopf B, Streiner D, et al. Transition of extremely low-birth-weight infants from adolescence to young adulthood: comparison with normal birth-weight controls. JAMA 2006;295:667-75.

Desenho de estudo: estudo de coorte (prospectivo)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: governamental

Discussão
As crianças e adolescentes de extremo baixo peso ao nascimento geralmente obtêm resultados piores em testes de cognição, desempenho acadêmico, comportamento e adaptação social quando comparadas a crianças de peso normal ao nascer. O extremo baixo peso é definido como menos de 1.000g ao nascimento. Para determinar se há uma transição bem-sucedida para o período adulto, os pesquisadores analisaram os resultados de uma coorte prospectiva de base populacional contendo 166 participantes que tiveram extremo baixo peso ao nascimento e 145 controles de características sócio-demográficas comparáveis que tiveram um peso normal ao nascimento, avaliando-os entre os 22 e 25 anos de idade. Entrevistadores cegos ao status dos participantes aplicaram questionários validados que mediram educação, emprego, vida independente, status conjugal e concepção de filhos. O seguimento completo foi efetivo para 90% dos participantes do estudo. No geral, não foram encontradas diferenças significativas na obtenção de educação, emprego, vida independente, casamento ou concepção. As idades de aquisição desses marcadores também foram semelhantes em ambas as coortes.



ISRS aumentam risco de hipertensão pulmonar em recém-nascidos

Questão clínica
O uso dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina em mulheres grávidas aumenta o risco de hipertensão pulmonar persistente em seus filhos?

Resumo
O uso dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) durante a segunda metade da gestação está associado a um aumento no risco de hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido (HPPRN). Esse tipo de estudo não pode estabelecer uma relação de causa, a depressão não tratada é um problema muito sério e 99% das grávidas que tomam essa medicação dão à luz crianças não afetadas pela HPPRN, de maneira que os potenciais danos e benefícios da continuação do ISRS nessas pacientes devem ser cuidadosamente contrabalanceados.

Nível de evidência: 3b

Referência
Chambers CD, Hernandez-Diaz S, Van Marter LJ, et al. Selective serotonin-reuptake inhibitors and risk of persistent pulmonary hypertension of the newborn. N Engl J Med 2006;354:579-87.

Desenho de estudo: caso-controle

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: governamental

Discussão
A HPPRN é uma causa importante de morbi-mortalidade (10-20% de taxa de fatalidade) e está associada ao remodelamento da vasculatura pulmonar. A causa da HPPRN ainda não está clara, mas estudos observacionais menores já sugeriram que o uso dos ISRS durante a gravidez pode ser um fator de risco. No presente estudo, 337 mulheres cujos neonatos tinham HPPRN e um grupo semelhante de 836 mulheres que haviam dado à luz crianças saudáveis nos mesmos centros médicos foram entrevistadas. Quase 75% das gestantes dos grupos caso e controle concordaram em participar. Uma regressão logística foi utilizada para o ajuste para outros fatores de risco e o cálculo das proporções de risco ajustadas (adjusted odds ratios - AORs). A HPPRN foi mais comum nas grávidas que eram negras ou asiáticas (AORs = 2,2 e 2,3) e que eram obesas antes da gestação (AOR = 2,6; IC de 95%: 1,6 - 4,0 para IMC > 27 kg/m2). O uso dos ISRS antes da 20ª semana não foi associado à HPPRN, mas o uso após vinte semanas foi um forte fator de risco (AOR = 6,1; IC de 95%: 2,2-16,8). O risco absoluto de HPPRN entre as gestantes que usaram um ISRS após a 20ª semana foi calculado entre 6 e 12 por 1000.



Vacina contra o HPV previne NIC's

Questão clínica
A vacinação contra o papilomavírus humano 16 previne as neoplasias intraepiteliais cervicais?

Resumo
A vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) 16 previne as neoplasias intraepiteliais cervicais (NIC's) a ele relacionadas em mulheres não previamente infectadas.

Nível de evidência:1 b

Referência
Mao C, Koutsky LA, Ault KA, et al. Efficacy of human papillomavirus-16 vaccine to prevent cervical intraepithelial neoplasia. Obstet Gynecol 2006;107:18-27.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
O HPV 16 é responsável por aproximadamente metade de todos os cânceres cervicais. A vacina estudada aqui consiste de 40 mg de polipeptídeo capsídeo purificado específico para esse vírus. Aproximadamente 2400 mulheres, com idades entre 16 e 23 anos, foram aleatoriamente distribuídas para receberem três injeções da vacina ou placebo, administradas ao recrutamento, após dois meses e após seis meses. Todas as mulheres foram submetidas ao exame cervical no recrutamento, o que incluiu amostras para citologia, tricomoníase e vaginose bacteriana e testes para o DNA do HPV 16, clamídia e gonococo. Amostras sorológicas para a titulação dos anticorpos anti-HPV16 também foram obtidas ao recrutamento e de maneira seriada dali em diante. As mulheres com citologia anormal foram encaminhadas para colposcopia e todas as participantes foram submetidas a colposcopias após 48 meses. A principal análise foi relativa às mulheres que eram soronegativas e tinham um teste para o DNA do vírus negativo ao início do estudo e que receberam pelo menos uma dose da vacina. Entre essas mulheres houve 32 casos de NIC relacionada ao HPV identificados, todos no grupo placebo (0,0% versus 1,1%; eficácia de 100%; IC de 95%: 88 - 100). Não houve diferenças significativas nas perdas de seguimento entre os grupos (70% após quatro anos em ambos os grupos).



Auto-monitoramento da anticoagulação é superior nas embolias venosas

Questão clínica
Os pacientes conseguem monitorar e gerenciar sua anticoagulação oral pelo menos tão bem quanto os profissionais?

Resumo
Os pacientes que auto-monitoraram sua anticoagulação oral tiveram menos acidentes trombo-embólicos do que aqueles que utilizaram as abordagens-padrão de monitoramento. Entretanto, o auto-monitoramento deveria ser oferecido apenas aos pacientes esclarecidos e motivados. Além disso, os aparelhos são caros e seu custo nem sempre é coberto pelas seguradoras.

Nível de evidência: 1 a

Referência
Heneghan C, Alonso-Coello P, Garcia-Alamino JM, Perera R, Meats E, Glasziou P. Self-monitoring of oral anticoagulation: a systematic review and meta-analysis. Lancet 2006;367:404-11.

Desenho de estudo: meta análise (de ensaios randomizados controlados)

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: auto financiado ou sem financiamento

Discussão
Esses pesquisadores realizaram buscas em múltiplas bases de dados à procura de ensaios randomizados controlados que comparassem o auto-monitoramento da anticoagulação oral com o monitoramento-padrão. Além disso, eles procuraram estudos em andamento e dados dos fabricantes de monitores em uma tentativa de encontrar estudos ainda não publicados. Três revisores avaliaram cada estudo de maneira independente para a sua inclusão, sendo as discrepâncias resolvidas por consenso. Além disso, eles avaliaram a qualidade metodológica de cada estudo. Ao final, os autores identificaram 14 estudos que incluíram 1309 pacientes. Eles foram, em geral, pequenos estudos e com uma média de 94 pacientes. Em todos os estudos, os pacientes auto-monitorados mantiveram seus INR dentro do alvo pelo menos tão bem quanto os monitorados da maneira padrão. E, o que é mais importante, apenas 2,2% dos pacientes auto-monitorados tiveram acidentes trombo-embólicos em comparação com 4,6% daqueles que receberam os cuidados usuais (número necessário para tratar = 43, IC de 95%: 27 - 92). Nos estudos que os mediram diretamente, os resultados de hemorragia e mortalidade geral também foram significativamente melhores nos grupos auto-monitorados. Uma ressalva: uma alta proporção de pacientes (31% - 88%) não aceitou ou abandonou o auto-monitoramento devido à complexidade desse procedimento.



Conduta expectante é opção aceitável nas hérnias inguinais

Questão clínica
É seguro postergar a cirurgia (ou seja, adotar uma conduta expectante) de homens com hérnias inguinais assintomáticas ou com sintomas mínimos?

Resumo
A conduta expectante é uma opção segura e aceitável para os homens que apresentam hérnias inguinais assintomáticas ou minimamente sintomáticas. As complicações agudas são raras e os pacientes que têm sua cirurgia postergada não estão sob maiores riscos de complicações operatórias ou pós-operatórias.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Fitzgibbons RJ Jr, Giobbie-Hurder A, Gibbs JO, et al. Watchful waiting vs repair of inguinal hernia in minimally symptomatic men. A randomized clinical trial. JAMA 2006;295:285-92.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (cego simples)

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

discussão
Apesar de muitos homens portadores de hérnias inguinais serem assintomáticos ou minimamente sintomáticos, o reparo cirúrgico é geralmente recomendado para prevenir complicações tais como um encarceramento intestinal agudo. Esses pesquisadores recrutaram 720 homens com idades maiores do que 18 anos e hérnias inguinais assintomáticas ou minimamente sintomáticas. Os participantes foram aleatoriamente distribuídos (por processo mascarado) para receberem uma conduta expectante ou para a correção-padrão da hérnia. O seguimento completo ocorreu entre 2 e 4,5 anos para 90% dos envolvidos. Os pacientes, cientes do grupo a que estavam designados, descreveram os próprios resultados. Os resultados primários incluíram dor e desconforto que interferissem com as atividades habituais e qualidade geral de vida. Os resultados secundários foram as complicações. 23% dos pacientes designados para a conduta expectante acabaram por receber o reparo cirúrgico e 17% daqueles designados para o reparo cirúrgico acabaram recebendo a conduta expectante. Com o uso na análise por intenção de tratamento não houve diferenças significativas relatadas entre os dois grupos com relação a limitação de atividades devido a dores ou à qualidade geral de vida. As complicações pós-operatórias ocorreram de maneira similar entre os pacientes inicialmente designados para o reparo cirúrgico e aqueles que mudaram após a conduta expectante. Um paciente da conduta expectante teve um encarceramento agudo sem estrangulamento dentro de dois anos e um teve um encarceramento agudo com obstrução intestinal após quatro anos, com uma taxa geral de complicações para a conduta expectante de 1,8 por 1000 pacientes-ano. O tamanho da amostra forneceu um poder de 90% de detecção de uma diferença de 10% para cada um dos resultados primários medidos.



Vacina contra o HPV previne NIC's

Questão clínica
A vacinação contra o papilomavírus humano 16 previne as neoplasias intraepiteliais cervicais?

Resumo
A vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) 16 previne as neoplasias intraepiteliais cervicais (NIC's) a ele relacionadas em mulheres não previamente infectadas.

Nível de evidência:1 b

Referência
Mao C, Koutsky LA, Ault KA, et al. Efficacy of human papillomavirus-16 vaccine to prevent cervical intraepithelial neoplasia. Obstet Gynecol 2006;107:18-27.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
O HPV 16 é responsável por aproximadamente metade de todos os cânceres cervicais. A vacina estudada aqui consiste de 40 mg de polipeptídeo capsídeo purificado específico para esse vírus. Aproximadamente 2400 mulheres, com idades entre 16 e 23 anos, foram aleatoriamente distribuídas para receberem três injeções da vacina ou placebo, administradas ao recrutamento, após dois meses e após seis meses. Todas as mulheres foram submetidas ao exame cervical no recrutamento, o que incluiu amostras para citologia, tricomoníase e vaginose bacteriana e testes para o DNA do HPV 16, clamídia e gonococo. Amostras sorológicas para a titulação dos anticorpos anti-HPV16 também foram obtidas ao recrutamento e de maneira seriada dali em diante. As mulheres com citologia anormal foram encaminhadas para colposcopia e todas as participantes foram submetidas a colposcopias após 48 meses. A principal análise foi relativa às mulheres que eram soronegativas e tinham um teste para o DNA do vírus negativo ao início do estudo e que receberam pelo menos uma dose da vacina. Entre essas mulheres houve 32 casos de NIC relacionada ao HPV identificados, todos no grupo placebo (0,0% versus 1,1%; eficácia de 100%; IC de 95%: 88 - 100). Não houve diferenças significativas nas perdas de seguimento entre os grupos (70% após quatro anos em ambos os grupos).



Tanto faz ficar ou não gritando “Força!” durante o parto

Questão clínica
Durante a segunda etapa do trabalho de parto, estimular a mãe a empurrar o bebê é mais benéfico do que não fazê-lo?

Resumo
O tempo de esforço é reduzido por uma média de quinze minutos quando as mulheres são estimuladas a empurrar o bebê durante a fase expulsiva do trabalho de parto. Fora isso, o hábito de falar "força!" durante essa fase não teve qualquer outro dano ou benefício -é uma questão de preferência. Esse estudo incluiu apenas mulheres que não receberam ocitocina ou analgesia epidural.

Nível de evidência:1 b

Referência
Bloom SL, Casey BM, Schaffer JI, McIntire DD, Leveno KJ. A randomized trial of coached versus uncoached maternal pushing during the second stage of labor. Am J Obstet Gynecol 2006;194:10-13.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (não-cego)

Casuística: pacientes internados (apenas enfermarias)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra:
mascarada

Discussão
O benefício da prática rotineira de se estimular a empurrar durante a segunda etapa do trabalho de parto ainda é controverso. Nesse estudo, 325 mulheres com gestações não complicadas a termo e em trabalho de parto espontâneo ativo pela primeira vez foram aleatoriamente distribuídas para serem verbalmente estimuladas a empurrar ou não durante o segundo estágio no parto. As mulheres cujo peso fetal estimado fosse maior do que 4.000 g, as que tinham um diagnóstico de corioamnionite e as que receberam ocitocina ou analgesia epidural foram excluídas. O estímulo consistiu de se pedir às parturientes que empurrassem para baixo com a glote fechada e as pernas puxadas para cima por intervalos de 10 segundos durante as contrações. Às mulheres que não receberam orientações foi apenas dito que fizessem "o que viesse naturalmente". Foi pedido que elas ficassem em posição lateral ou recostadas e elas foram assistidas por enfermeiras obstetrizes formadas. As parteiras foram treinadas para agirem de acordo com as instruções de sua parte no estudo. O parto a fórceps foi cogitado apenas se houvesse uma fase expulsiva prolongada (mais do que 2h) ou alguma anormalidade nos batimentos cardíacos fetais. A duração média da segunda fase do parto foi 46 minutos no grupo estimulado e 59 no grupo não estimulado (P = 0,014). Não houve diferenças com relação a modo de parto, aos traumas perineais ou ao número de episiotomias. Não houve diferenças, ainda, nos índices de Apgar, nas necessidades de reanimação, nas sepses ou nas admissões em unidades de cuidados intensivos. Houve mais neonatos com presença de mecônio no grupo estimulados mas na vasta maioria dos casos isso foi notado anteriormente ao segundo estágio do trabalho de parto. Também parece pouco provável que um estudo maior tivesse detectado diferenças clinicamente importantes.



Aspirina reduz risco de acidentes cardiovasculares e aumenta risco de sangramentos

Questão clínica
A aspirina é benéfica para a prevenção primária dos acidentes cardiovasculares de homens? E de mulheres?

Resumo
A prevenção primária com aspirina reduz o risco de episódios cardiovasculares adversos tanto em homens como em mulheres. Mais especificamente, a aspirina reduz o risco de acidente vascular cerebral em mulheres e o risco de infarto do miocárdio em homens. O risco de hemorragia importante é significativamente maior com a terapia regular pela aspirina em ambos os sexos e a mortalidade geral não se altera. Os pacientes, juntamente com seus médicos, devem pesar riscos e benefícios individuais antes de se decidirem por um uso regular da aspirina.

Nível de evidência: 1 a

referência
Berger JS, Roncaglioni MC, Avanzini F, Pangrazzi I, Tognoni G, Brown DL. Aspirin for the primary prevention of cardiovascular events in women and men. A sex-specific meta-analysis of randomized controlled trials. JAMA 2006;295:306-13.

Desenho de estudo: meta análise (de ensaios clínicos randomizados controlados)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Casuística: variada (meta análise)

discussão
Apesar de a aspirina reduzir o risco de episódios cardiovasculares adversos em adultos de alto risco, não está claro se as mulheres obtêm os mesmos benefícios que os homens. Esses pesquisadores realizaram uma busca abrangente no MEDLINE, no registro Cochrane de ensaios controlados, nas bibliografias dos ensaios encontrados e nas atas das principais reuniões científicas à procura de ensaios randomizados que avaliassem os riscos e benefícios do tratamento com aspirina para a prevenção primária dos acidentes cardiovasculares. Seis ensaios randomizados com um total de 95.456 indivíduos, incluindo 51.342 mulheres, foram identificados. O seguimento foi efetivo por uma média de 6,4 anos entre os vários estudos. Nas mulheres, a terapia com o AAS foi associada a uma redução significativa de 12% nos acidentes cardiovasculares (odds ratio [OR] = 0,88; IC de 95%: 0,70 - 0,97; número necessário para tratar [NNT] = 316, 180 - 3805) e uma redução de 17% nos acidentes vasculares cerebrais (OR = 0,73; IC de 95%: 0,70 - 0,97; NNT = 457, 259 - 2597). Não houve um efeito benéfico significativo da aspirina na redução do risco de infarto do miocárdio e nem na mortalidade cardiovascular. Nos homens, houve uma redução similar de 32% nos acidentes cardiovasculares (OR = 0,76; IC de 95%: 0,78 - 0,94; NNT = 155, 98 - 364) e uma redução de 32% no risco de infarto do miocárdio (OR = 0,68; IC de 95%: 0,54 - 0,86; NNT = 114, 79 - 261). Não houve um benefício significativo da aspirina na redução do risco de acidente vascular cerebral e nem na mortalidade cardiovascular. O tratamento com a aspirina aumentou de maneira significativa o risco de sangramentos importantes tanto nos homens quanto nas mulheres e as mortalidades por todas as causas não foram alteradas. Não houve evidências de vieses de publicação e os resultados dos ensaios foram homogêneos.



Inalação de solução hipertônica é efetiva na fibrose cística

Questão clínica
A inalação com uma solução salina hipertônica melhora os resultados clínicos dos pacientes com fibrose cística?

Resumo
A solução salina hipertônica administrada por via inalatória após o tratamento com um bronco-dilatador é uma maneira segura e barata de reduzir o número de crises em crianças portadoras de fibrose cística.

Nível de evidência:1 b

Referência
Elkins MR, Robinson M, Rose BR, et al, for the National Hypertonic Saline in Cystic Fibrosis (NHSCF) Study Group. A controlled trial of long-term inhaled hypertonic saline in patients with cystic fibrosis. N Engl J Med 2006;354:229-40.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Esses autores recrutaram 164 crianças e adolescentes com idades entre 6 e 16 anos portadores de fibrose cística estável. Essas crianças e adolescentes foram aleatoriamente distribuídos (por processo mascarado) para receberem solução salina hipertônica (4 ml de NaCl a 7%) ou normal (4 ml de NaCl 0,9%) administradas duas vezes ao dia por meio de um nebulizador. Todos os pacientes receberam um bronco-dilatador anteriormente. O estudo durou 48 semanas e a análise foi por intenção de tratamento. Durante esse tempo, números semelhantes de pacientes em cada grupo foram perdidos no seguimento (10 no grupo de controle e 7 no grupo tratado) ou interromperam as inalações (7 e 8, respectivamente). Ao final do estudo, os pacientes que receberam a solução hipertônica sofreram melhoras nas medidas do função pulmonar (VEF1 e CVF) enquanto aqueles que receberam solução normal permaneceram com funções pulmonares estáveis. Os pacientes que receberam a solução hipertônica também tiveram menos exacerbações que necessitaram de antibióticos endovenosos (0,39 versus 0,89 por participante durante o período de 41 semanas; P = 0,02; número necessário para tratar por um ano = 2). Os pacientes do grupo de tratamento também tiveram uma probabilidade maior de permanecerem sem exacerbações (76% versus 62%; P = 0,03). Os pacientes que receberam as soluções hipertônicas, entretanto, tiveram mais efeitos adversos -primariamente tosse, apertos no peito e faringites.



Pais preferem participar da decisão terapêutica na OMA

Questão clínica
Os pais de crianças com otite média aguda preferem participar da decisão de usar ou não antibióticos?

Resumo
Apresentar informações sobre os prós e contras do tratamento antibiótico para a otite média aguda e deixar os pais decidirem se e quando começarão o tratamento aumenta a satisfação dos pais com a consulta e poderia potencialmente diminuir o uso de antibióticos. Esses resultados foram encontrados em pais brancos, com renda e idade mais altas e podem não se aplicar a todos os grupos sócio-econômicos.

Nível de evidência:2c

Referência
Merenstein D, Diener-West M, Krist A, Pinneger M, Cooper LA. An assessment of the shared-decision model in parents of children with acute otitis media. Pediatrics 2005;116:1267-75.

desenho de estudo: transversal

casuística: pacientes ambulatoriais (de atenção primária)

apoio financeiro: fundação

Discussão
Os pesquisadores que conduziram esse estudo queriam determinar qual a extensão em que os pais gostariam de participar nas tomadas de decisão com relação ao tratamento de seus filhos, dado um cenário no qual eles (filhos) tivessem otite média aguda. Os participantes desse estudo não eram típicos: eles foram, em média, mais velhos (idade média de 46 anos), mais ricos (76% tinham uma renda familiar maior do que US$75.000 ao ano), mais instruídos (87% tinham nível universitário), a maioria era de brancos não hispânicos e quase todos tinham seguro-saúde. Durante uma consulta numa clínica de medicina de família, foi pedido a 436 pais que imaginassem sua reação a uma de 3 suposições clínicas. Todas essas situações hipotéticas apresentavam uma mãe levando seu filho de 2,5 anos de idade com febre ao médico. A criança recebia o diagnóstico de otite média aguda. Em cada situação, o médico explicava seu desejo de diminuir o uso de antibióticos e a falta de necessidade de utilizá-los na maioria dos casos. Na situação "paternalista" o médico recomendava claramente os antibióticos. Nas hipóteses "de decisão compartilhada" o médico não fazia qualquer recomendação específica mas dava uma prescrição para o início de um antibiótico em dois dias caso a criança não melhorasse e em uma dessas situações o acetaminofeno também era recomendado como tratamento.

Antes de ler as situações hipotéticas, 93% dos pais disseram que achavam que eram necessários antibióticos se houvesse uma infecção no ouvido. Após lê-las, 82% relataram estar dispostos a esperar 48h antes de iniciar o tratamento. Entretanto, 27% dos pais que receberam a situação paternalista queriam iniciar os antibióticos imediatamente enquanto apenas 7% dos que receberam as hipóteses de decisão compartilhada o teriam feito (P < 0,001). Todos relataram graus semelhantes de satisfação com a quantidade de informações que receberam. Um número significativamente maior de pacientes relatou ficar mais satisfeito com as abordagens de decisão compartilhada do que com a abordagem paternalista (76% satisfeitos no grupo paternalista versus 84% e 93% nos grupos de decisão compartilhada; P < 0,001).



Inibidor da ECA retarda progressão da disfunção renal (creatinina entre 3 e 5 mg/dl)

Questão clínica
O benazepril melhora os resultados renais dos pacientes com um nível de creatinina maior do que 3,0 mg/dl?

Resumo
Em um grupo de pacientes não diabéticos com níveis séricos de creatinina entre 3,0 e 5,0 mg/dl, o benazepril (Lotensin) retardou a progressão da doença renal. Esses pacientes foram cuidadosamente monitorados para quaisquer alterações na função renal durante as primeiras oito semanas e rastreados e monitorados para a detecção de quaisquer efeitos adversos precoces sobre a função renal.

Nível de evidência:1 b

Referência
Hou FF, Zhang X, Zhang GH, et al. Efficacy and safety of benazepril for advanced chronic renal insufficiency. N Engl J Med 2006;354:131-40.

desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

apoio financeiro: indústria e governo

distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Os inibidores da enzima conversa fora da angiotensina (ECA) são conhecidos por retardarem o declínio dos níveis séricos de creatinina em pacientes diabéticos e não diabéticos com insuficiência renal de leve a moderada (creatinina sérica = 1,5 - 3,0 mg/dl). Nesse estudo, pacientes chineses não diabéticos com disfunções renais mais graves (creatinina sérica entre 3,1 e 5,0 mg/dl) foram estudados para determinar se esse efeito protetor dos rins ocorre em níveis mais altos de disfunção renal. Os autores identificaram 422 pacientes, 141 dos quais com um nível sérico de creatinina entre 1,5 e 3,0 mg/dl e 281 com níveis séricos de creatinina entre 3,1 e 5,0 mg/dl. A idade média dos pacientes foi 45 anos e metade deles eram mulheres. Os autores então colocaram todos os pacientes em um período inicial de teste ativo que durou oito semanas para testar sua tolerância à droga em estudo, o benazepril. Isso resultou em uma exclusão de 94 pacientes, a maioria deles por tosse seca (n = 72), mas também devido a uma elevação aguda na creatinina sérica (n = 9), hipercalemia (n = 5) e má adesão (n = 8). Esse tipo de período inicial ativo insufla a eficácia aparente da droga em estudo. Os pacientes remanescentes receberam então outras drogas (que não um inibidor da ECA ou bloqueador de receptor da angiotensina) para controlar sua pressão arterial, uma vez que a meta era identificar qualquer benefício potencial do inibidor da ECA acima e além da melhora do controle da pressão arterial. Os autores então distribuíram aleatoriamente os 224 pacientes restantes que tinham níveis de creatinina entre 3,1 e 5,0 mg/dl para receberem benazepril 10 mg 2 vezes ao dia ou placebo. Os 104 pacientes com um nível sérico de creatinina entre 1,5 e 3,0 mg/dl receberam benazepril 10 mg 2 vezes ao dia. Os pacientes foram seguidos por uma média de 3,4 anos e foi-lhes pedido que evitassem sódio e potássio em suas dietas. O resultado primário foi uma combinação da duplicação do nível sérico de creatinina, necessidade de diálise, transplante ou morte. Esses resultados foram alcançados por 40% dos pacientes no grupo do benazepril e 60% dos pacientes no grupo do placebo (P = 0,04; número necessário para tratar = 5; IC de 95%: 3 - 18). Houve uma redução de 51% no risco de dobrar a creatinina sérica (P = 0,02) e uma redução de 41% no risco de doença renal terminal (P = 0,02). Houve apenas uma morte em toda a população do estudo e os efeitos adversos foram similares entre os grupos. Os resultados observados no estudo não serão replicados na prática clínica, uma vez que a tentativa inicial de terapia com o benazepril eliminou os pacientes que responderam mal ao tratamento. Interessantemente, esse estudo foi financiado pela Novartis em conjunto com o Exército de Libertação Popular da China.



Medidas seriadas do PNB prevêem risco de morte e ICC após síndrome coronariana aguda

Questão clínica
As avaliações seriadas dos níveis de peptídeo natriurético B são úteis para a determinação do prognóstico de pacientes com doença arterial coronariana instável?

Resumo
As medidas seriadas dos níveis de peptídeo natriurético do tipo B (PNB) durante o seguimento dos pacientes que sofreram uma síndrome coronariana aguda (SCA) ajuda a prever os riscos subseqüentes de morte e insuficiência cardíaca congestiva (ICC). Ainda não está claro se essa informação leva a mudanças no tratamento clínico de maneira a melhorar resultados que interessam ao paciente ou se essa prática simplesmente aumenta os custos sem trazer qualquer benefício.

Nível de evidência:1 b

Referência
Morrow DA, de Lemos JA, Blazing MA, et al. Prognostic value of serial B-type natriuretic peptide testing during follow-up of patients with unstable coronary artery disease. JAMA 2005;294:2866-2871.

Desenho de estudo: estudo de coorte (prospectivo)

Casuística: pacientes internados (qualquer localização) com seguimento ambulatorial

Apoio financeiro: indústria

Discussão
O PNB é liberado pelo músculo cardíaco em resposta ao estresse isquêmico. Níveis basais elevados em pacientes que sofreram SCA's estão associados a uma maior mortalidade tanto em curto quanto em longo prazo. Para determinar o valor das medidas seriadas após uma SCA, os pesquisadores seguiram de maneira prospectiva 4497 pacientes que sofreram SCA's com ou sem elevação do segmento ST recrutados em um ensaio clínico que avaliava o tratamento precoce intensivo com o uso de estatinas em comparação com um tratamento menos agressivo. O seguimento foi efetivo para 3618 (85%) e 2966 (70%) dos pacientes após quatro e doze meses, respectivamente. Os indivíduos que realizaram os exames foram cegos aos resultados clínicos e à distribuição dos grupos de tratamento. Um total de 230 mortes e 163 casos incidentes de ICC ocorreram durante o seguimento. Após o ajuste para outros fatores de risco, os níveis elevados de PNB (maiores do que 80 pg/ml) após quatro meses e doze meses foram significativamente associados ao aumento no risco de morte ou início de ICC subseqüentes (proporção de risco [PR] = 3,9; IC de 95%: 2,6 - 6,0; e PR = 4,7; IC de 95%: 2,5 - 8,9, respectivamente). Os pacientes com níveis elevados de PNB ao início do estudo e com níveis de PNB no seguimento de menos de 80 pg/ml tiveram um aumento não significativo nos riscos em comparação com os pacientes que tinham níveis de PNB de menos de 80 pg/ml em ambas as consultas com os pacientes com níveis elevados de PNB ao início de estudo e após quatro meses e tiveram os maiores riscos de morte ou nova ICC.



Pés frios aumentam probabilidade de sintomas de IVAS

Questão clínica
Molhar os pés em água gelada aumenta a probabilidade de ficar resfriado?

Resumo
Esse pequeno e falho estudo apóia o que nossas mães sempre disseram: tire essas meias molhadas ou você vai pegar um resfriado.

Nível de evidência: 2b

Referência
Johnson C, Eccles R. Acute cooling of the feet and the onset of common cold symptoms. Fam Pract 2005;22:608-13.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (não cego)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Os autores submeteram 180 voluntários saudáveis (idade média = 20 anos) a vinte minutos de resfriamento dos pés em um recipiente com água a 10°C ou a apenas deixar os pés em uma bacia vazia durante o mesmo período. Foi então pedido que os pacientes registrassem seus sintomas durante os 4 ou 5 dias seguintes. Não houve diferenças nas escalas de sintomas durante os primeiros três dias, mas nos dias 4 e 5 as pontuações médias de sintomas foram 1,93 no grupo dos pés frios de 1,36 no grupo controle (p = 0,013). Além disso, um número maior de pacientes do grupo dos pés frios relatou que tiveram um resfriado comum (14,4% versus 5,6%; p = 0,046; número necessário para causar dano = 11). Apesar de a distribuição e a randomização terem sido adequadas, a falta de mascaramento é um viés potencial importante. Se os pacientes esperaram que o resfriamento causaria sintomas, eles podem ter tido uma tendência maior de relata-los.



Dieta rica em ômega 3 reduz ligeiramente os sintomas da DPOC

Questão clínica
Os suplementos dietéticos ricos em ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 são capazes de melhorar os sintomas da doença pulmonar obstrutiva crônica?

Resumo
Esse pequeno estudo concluiu que uma dieta rica em ácidos graxos omega-3 causa pequenas melhoras nos sintomas da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

Nível de evidência:1 b

Referência
Matsuyama W, Mitsuyama H, Watanabe M, et al. Effects of omega-3 polyunsaturated fatty acids on inflammatory markers in COPD. Chest 2005;128:3817-827.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Os ácidos graxos poli-insaturados ômega 3 têm propriedades antiinflamatórias e esses pesquisadores formularam a hipótese de que essa ação poderia ajudar a reduzir a inflamação crônica observada nos pacientes com DPOC. Eles identificaram 64 pacientes portadores de DPOC (VEF1 < 60% do predito) e um índice de massa corporal menor do que 25 kg/m2. Os pacientes selecionados também não haviam fumado pelo menos durante os seis meses anteriores ao início do estudo. A idade média foi de 66 anos e todos à exceção de sete participantes eram homens. Os pacientes foram aleatoriamente distribuídos (por processo mascarado) para receberem 400 calorias ao dia de suplemento nutricional rico em ácidos graxos ômega 3 ou uma dieta de controle que não continha uma quantidade apreciável desse componente. Os pacientes foram seguidos por dois anos. Ao final do estudo, os pacientes que receberam a dieta rica em ômega-3 tiveram uma pequena melhora em suas pontuações de dispnéia ao final do teste de caminhada em seis minutos (aproximadamente 1 ponto em uma escala de 10), enquanto aqueles que usaram a dieta de controle não tiveram melhoras. O grupo tratado foi capaz de andar aproximadamente 5% a mais ao final do estudo, em comparação com uma redução de 1% no grupo de controle. Esses resultados têm um significado clínico bastante discutível.



Pelargônio é efetivo para sintomas da bronquite aguda

Questão clínica
O extrato de Pelargonium sidoides é mais efetivo do que o placebo na redução dos sintomas da bronquite aguda de curta duração em adultos?

Resumo
O extrato do arbusto Pelargonium sidoides (no Brasil conhecido popularmente como pelargônio) vendido na Alemanha com o nome de Umckaloabo produziu o uma redução dos sintomas da bronquite aguda significativamente maior do que o, além de uma satisfação maior dos pacientes tratados com ele. Como ocorre com todos os produtos fitoterápicos, os resultados podem ser diferentes quando utilizados outros extratos.

Nível de evidência: 1 b

Referência
Chuchalin AG, Berman B, Lehmacher W. Treatment of acute bronchitis in adults with a pelargonium sidoides preparation (EPS 7630): a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Explore 2005;1:437-45.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Distribuição da amostra: mascarada

discussão
O pelargônio já foi aprovado em vários países para o tratamento da infecção aguda do trato respiratório com base em uma possível ação antimicrobiana ou imuno-moduladora. Pesquisadores russos, alemães e norte-americanos realizaram esse estudo utilizando uma preparação da raiz do pelargônio disponível na Alemanha (Umckaloabo). Eles recrutaram 124 pacientes de clínicas ambulatoriais na Rússia os quais haviam se apresentado por sintomas de bronquite aguda com menos de 48h de duração, definidos cinicamente e por meio de uma escala de gravidade da bronquite com pontuação maior do que 4 em 20 pontos possíveis (pontuação média = 9). Essa escala classifica a tosse, a secreção, os roncos ou estertores, a dor ao tossir e a dispnéia com pontuações entre 0 e 4. Aproximadamente 25% dos pacientes eram fumantes e outros 31% foram estranhamente rotulados como "impossível classificar". Os pacientes foram aleatoriamente distribuídos pelo uso de processo mascarado para receberem o extrato de pelargônio a uma dose de 1,5 ml (30 gotas) três vezes ao dia por oito dias ou um placebo de cor e sabor idênticos. O estatístico que realizou a análise por intenção de tratamento foi cego à distribuição dos grupos. Ao final do tratamento, as pontuações na escala de gravidade da bronquite haviam diminuído em uma média de 7,2 pontos no grupo tratado em comparação com 4,9 pontos no grupo placebo (diferença absoluta = 2,3 pontos; IC de 95%: 1,2 - 3,6; P < 0,001).Um número significativamente maior de pacientes que recebeu o tratamento relatou estar satisfeito (80% versus 43%; número necessário para tratar = 2,7).



Yoga é efetiva para lombalgia

Questão clínica
Um programa específico de exercícios de yoga pode ser mais efetivo do que exercícios tradicionais (com ou sem acompanhamento profissional) para os pacientes portadores de dor lombar crônica?

Resumo
Um programa de yoga especificamente voltado para os pacientes com lombalgia crônica é mais efetivo do que o tratamento com exercícios ou o autocuidado na redução da incapacidade funcional. Esse estilo de yoga é chamado de viniyoga e foi adaptado para uso em pacientes portadores de dores lombares crônicas.

Nível de evidência: 1b

Referência
Sherman KJ, Cherkin DC, Erro J, Miglioretti DL, Deyo RA. Comparing yoga, exercise, and a self-care book for chronic low back pain: A randomized, controlled trial. Ann Intern Med 2005;143:849-56.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (não cego)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Resumo
Os autores desse estudo recrutaram pacientes que haviam sido previamente tratados por dor lombar mas que não estavam recebendo nenhuma terapia. Eles excluíram, de maneira adequada, os pacientes com dor lombar complicada tais como aqueles com dor ciática ou estenose vertebral, aqueles que sentiam dores mínimas (menos de 3 em uma escala de zero a dez) e os pacientes que estivessem recebendo ajuda financeira do governo ou que estivessem envolvidos em algum processo judicial devido às ausências no trabalho. Pelo uso de distribuição mascarada, eles designaram os pacientes de maneira aleatória para receberem uma de três intervenções: yoga, exercícios ou autocuidado com base em um livro sobre lombalgias. O estilo de yoga foi baseado na prática do viniyoga, da maneira como adaptada no livro Yoga for Wellness (as posições são mostradas em uma ilustração em www.annals.org). A sessão de exercícios consistiu de cinco exercícios aeróbicos e fortalecedores, além de alongamento. As aulas foram administradas semanalmente por doze semanas e foi pedido aos pacientes do grupo do yoga que realizassem as posições em casa.

O resultado primário medido foi uma alteração na incapacidade relacionada à coluna após doze semanas, de acordo com a escala de incapacidade de Roland (uma pesquisa contendo 23 questões) e os incômodos pontuados em uma escala de zero a dez. Ao final das doze semanas de intervenção, as pontuações no grupo do yoga caíram de uma média de 8 para aproximadamente 4 no índice de incapacidade e essa redução foi significativamente melhor do que o auto cuidado (diferença de 3,4 pontos) e do que o exercício (diferença de 1,8 ponto). As pontuações na escala que incômodos melhoraram em graus semelhantes nos três grupos. Após 26 semanas, as pontuações de incapacidade continuaram melhores no grupo do yoga e as pontuações de incômodo foram significativamente melhores também no grupo do yoga, com uma redução média de 2,2 pontos em relação ao autocuidado (P < 0,001).



Citalopram não é teratogênico

Questão clínica
O citalopram é teratogênico?

Resumo
O citalopram (Celexa) não parece ser teratogênico. A exposição próxima ao nascimento, entretanto, foi associada a maiores riscos de diagnóstico de sofrimento fetal no parto e de admissão em unidades de cuidados especiais neonatais.

nível de evidência:1 b

Referência
Sivojelezova A, Shuhaiber S, Sarkissian L, Einarson A, Koren G. Citalopram use in pregnancy: Prospective comparative evaluation of pregnancy and fetal outcome. Am J Obstet Gynecol 2005;193:2004-09.

Desenho de estudo: estudo de coorte (prospectivo)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: governamental

Discussão
Estudos anteriores sobre a maioria dos outros ISRS já haviam sugerido que eles não são teratógenos, mas estão associados a uma síndrome de má adaptação neonatal. Nesse estudo,125 mulheres que contataram o programa Motherisk de Toronto, Canadá, com questões sobre seu uso do citalopram foram envolvidas caso estivessem tomando essa medicação durante a gestação. Cada uma dessas mulheres foi comparada a duas pacientes-controle com base nas idades materna e gestacional ao momento da primeira ligação. Um dos grupos-controle consistiu de mulheres que tomavam outros ISRS. O outro grupo não teve exposição aos ISRS ou qualquer outra substância de potencial teratogênico conhecido. Entre as mulheres expostas ao citalopram ocorreram 114 (86%) nascidos vivos, 14 (11%) abortos espontâneos, 2 (1,5%) interrupções eletivas e 2 (1,5%) natimortos. Das 108 crianças expostas ao citalopram no primeiro trimestre, uma (0,9%) teve uma má-formação importante, o que não foi diferente nos dois grupos de controle. As taxas de nascidos vivos, pesos médios ao nascimento e duração das gestações não foram diferentes entre os grupos. Houve uma maior incidência de admissões em uma enfermaria de cuidados especiais entre as crianças expostas ao citalopram ao longo da gestação (risco relativo = 4,2; IC de 95%: 1,7 - 10,3). As admissões foram tipicamente associadas ao diagnóstico de sofrimento fetal durante o parto.



Alta ingesta de fibras não está associada a redução no risco de câncer cólo-retal

Questão clínica
Uma alta ingestão de fibras na dieta reduz o risco de câncer cólo-retal?

Resumo
Uma dieta rica em fibras não está independentemente associada à redução no risco de câncer cólo-retal. Os pacientes que consomem alimentos com altas quantidades de fibras, porém, têm uma tendência maior de adotarem outros comportamentos associados a reduções no risco de câncer.

Nível de evidência: 2a

Referência
Park Y, Hunter DJ, Spiegelman D, et al. Dietary fiber intake and risk of colorectal cancer: A pooled analysis of prospective cohort studies. JAMA 2005;294:2849-57.

Desenho de estudo: meta análise (outra)

Casuística: variada (meta análise)

Apoio financeiro: governamental

Discussão
Permanece a incerteza sobre o valor da alta quantidade de fibras dietéticas na prevenção do câncer cólo-retal. Esses pesquisadores agruparam os dados de 13 estudos prospectivos de coorte analisando vários fatores dietéticos e o risco de câncer. Os casos de câncer cólo-retal foram identificados através de questionários auto-administrados ligados à revisão dos registros médicos e registros específicos para o câncer. Ocorreu, em geral, um seguimento entre 6 e 20 anos para mais de 90% dos pacientes ao longo dos estudos. Cada estudo ofereceu dados sobre a ingestão de alimentos e nutrientes através de questionários de freqüência alimentícia. De um total de 725.628 homens e mulheres, foram identificados 8081 casos de câncer cólo-retal. Após uma análise inicial ajustada para a idade, a alta ingestão de fibras dietéticas foi associada a uma redução no risco de câncer cólo-retal. Entretanto, uma análise subseqüente multi-variável que realizou o controle para tabagismo e a ingestão de folato dietético, carne vermelha, leite e álcool não encontrou uma relação significativa entre a ingestão de fibras dietéticas e o risco de câncer cólo-retal. Em outras palavras, os pacientes que consumiram uma dieta rica em fibras também tomaram mais leite, menos álcool e tiveram probabilidades menores de fumar e consumir carne, todos fatores também relacionados ao risco de desenvolvimento de câncer cólo-retal.



Prescrever antibióticos não economiza tempo

Questão clínica
Prescrever antibióticos para infecções virais economiza o tempo do médico?

Resumo
A prescrição de antibióticos para as infecções respiratórias de crianças não melhora a satisfação dos pais e, como demonstrado nesse estudo, não economiza o tempo do médico. E, como você certamente já sabe, ela também não afeta a duração ou a gravidade dessas doenças virais.

Nível de evidência: 2c

Referência
Coco A, Mainous AG. Relation of time spent in an encounter with the use of antibiotics in pediatric office visits for viral respiratory infections. Arch Pediatr Adolesc Med 2005;159:1145-49.

Desenho de estudo: transversal

Casuística: pacientes ambulatoriais (de atenção primária)

Apoio financeiro: fundação

Resumo
"Se eu não der antibióticos, eles não vão ficar satisfeitos".
"Se eu não der antibióticos, eles vão trocar de médico.”
"Se eu não der antibióticos, terei que perder tempo explicando o porquê."

Essas são algumas das desculpas que os médicos usam para justificar sua má prática. Nesse estudo, os autores utilizaram uma pesquisa nacional sobre cuidados médicos ambulatoriais para avaliar a duração das consultas de crianças que se apresentaram com resfriados ou bronquite. A pesquisa, completada por médicos e funcionários das clínicas, incluiu um item chamado "tempo gasto com o médico". A duração média das consultas durante as quais antibióticos foram prescritos foi 14,24 minutos. A duração média das consultas quando não foram prescritos antibióticos foi 14,18.

Outros estudos já demonstraram que as exigências, a satisfação e a probabilidade de troca de médico não são afetadas pela prescrição ou não de um antibiótico. Aparentemente, a única coisa que a prescrição desnecessária dos antibióticos aumenta é a probabilidade de comportamentos subseqüentes de uso excessivo de remédios.



Antipsicóticos: segurança para os idosos é semelhante entre os diferentes agentes

Questão clínica
Os agentes antipsicóticos convencionais são mais seguros do que os atípicos para o uso em pacientes idosos?

Resumo
Parece razoável concluir que tanto os agentes antipsicóticos convencionais quanto os atípicos estão associados a um maior risco de morte dos pacientes idosos. As limitações desse estudo, entretanto, não nos permitem concluir de maneira confiável quanto a se os agentes mais antigos são menos seguros do que as drogas mais novas.

Nível de evidência: 2b

Referência
Wang PS, Schneeweiss S, Avorn J, et al. Risk of death in elderly users of conventional vs. atypical antipsychotic medications. N Engl J Med 2005;353:2335-41.

Desenho de estudo: estudo de coorte (retrospectivo)

Casuística: base populacional

Apoio financeiro: governamental

Discussão
Um recente alerta de saúde pública (www.fda.gov/cder/drug/advisory/antipsychotics.htm) fez a advertência de que há um aumento de duas vezes no risco de morte entre os pacientes idosos demenciados quando recebem agentes antipsicóticos atípicos tais como o aripiprazol (Arilif), a clozapina (Clozaril), a olanzapina (Zyprexa), a quetiapina (Seroquel), a risperidona (Risperdal) e a ziprasidona (Geodon). Pesquisadores realizaram esse estudo patrocinado pelo governo norte-americano para determinar se os agentes convencionais (ex: haloperidol, tiothixeno, loxapina) possuem um risco semelhante. Eles identificaram pacientes com idades maiores do que 65 anos que haviam recebido uma primeira prescrição para qualquer agente antipsicótico entre os anos de 1994 e 2003. Os dados de mortalidade vieram do Medicare Death Master File e eles utilizaram conjuntos de dados administrativos para estabelecer co-morbidades, hospitalizações, internações em casas de repouso e uso de outras medicações. Eles identificaram um total de 9142 pacientes que usavam um antipsicótico convencional e 13.748 que usavam agentes atípicos. Esses grupos foram bastante diferentes: os pacientes que tomavam antipsicóticos convencionais tinham uma tendência maior de terem doenças cardíacas ou cânceres, mas tendências menores de terem outras alterações do humor ou tomarem outras medicações psicotrópicas. Na análise não ajustada, houve mais mortes entre os usuários de agentes convencionais (17,9% versus 14,6%; P < 0,001; número necessário para causar dano = 30; IC de 95%: 23 - 43). Isso corresponde a uma razão de risco de 1,51 (IC de 95%: 1,43 - 1,59). Após o ajuste para co-morbidades, o risco relativo foi um pouco menor, mas ainda estatisticamente significativo (1,37; IC de 95%: 1,27 - 1,49). O risco foi maior durante os primeiros 40 dias após início da terapia nos pacientes não demenciados e nos pacientes que tomaram doses maiores do que a média das medicações convencionais.



Beta-bloqueadores não previnem varizes gastro-esofágicas

Questão clínica
Os beta-bloqueadores previnem o desenvolvimento de varizes em pacientes portadores de cirrose?

Resume
Os beta-bloqueadores não previnem o desenvolvimento de varizes os pacientes portadores de cirrose e aumentam a probabilidade de episódios adversos sérios. Eles ainda são adequados na prevenção das hemorragias gastro-intestinais dos pacientes com varizes estabilizadas.

Nível de evidência: 1b

Referência
Groszmann RJ, Garcia-Tsao G, Bosch J, et al, for the Portal Hypertension Collaborative Group. Beta-blockers to prevent gastroesophageal varices in patients with cirrhosis. N Engl J Med 2005;353:2254-61.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Uma vez que os beta-bloqueadores previnem as hemorragias de pacientes portadores de varizes gastro-esofágicas, talvez prescrevê-los mais precocemente no curso da doença possa prevenir o seu aparecimento, certo? Esses autores testaram essa teoria em um grupo de 213 pacientes que tinham cirrose e um gradiente de pressão portal de pelo menos 6 mmHg mas não tinham evidências de varizes. Os pacientes portadores de ascíte, carcinoma hepatocelular, trombose da veia esplênica ou porta, cirrose biliar primária ou colangite esclerosante primária ou uma expectativa de vida de menos de um ano foram excluídos. Os grupos foram equilibrados ao início do estudo, a distribuição da amostra foi adequadamente mascarada e a análise foi por intenção de tratamento. Após serem designados para receberem timolol (entre 5 e 80 mg, de acordo com a freqüência cardíaca) ou placebo os pacientes foram avaliados a cada três meses. A média de idade dos pacientes foi 45 anos, 63% deles eram homens, 25% tinham o álcool como causa da cirrose e a dose final média do timolol foi 10 mg. Após um seguimento mediano de 55 meses, não houve diferenças na probabilidade de varizes e nem na probabilidade de resultados secundários tais como ascíte ou encefalopatia hepática. Um número maior de pacientes do grupo do timolol teve algum episódio adverso sério (48% versus 32%; P = 0,02; número necessário para causar dano = 6; IC de 95%: 3 - 39).



Redução dos antibióticos dados a crianças com garganta inflamada não aumentou complicações raras

Questão clínica
Uma prescrição mais cautelosa dos antibióticos para a garganta inflamada aumenta o número de crianças com complicações sérias?

Resumo
Os hábitos mais criteriosos de prescrição de antibióticos para as infecções respiratórias da infância não aumentaram o número de episódios de abscesso peri-tonsilares ou febre reumática. Os efeitos sobre as mastoidectomias não estão claros, mas parece pouco provável que haja um aumento clinicamente importante.

nível de evidência: 2 c

referência
Sharland M, Kendall H, Yeates D, et al. Antibiotic prescribing in general practice and hospital admissions for peritonsillar abscess, mastoiditis, and rheumatic fever in children: time trend analysis. BMJ 2006;331:328-29.

desenho de estudo: ecológico

casuística: base populacional

Apoio financeiro: auto financiado ou sem apoio

Discussão
Assim como nos EUA, os médicos do Reino Unido também estão prescrevendo menos antibióticos para os problemas respiratórios agudos de crianças. Essa é uma tendência louvável, mas alguns pesquisadores têm especulado que o uso de menos antibióticos pode aumentar o risco de problemas bastante raros mas extremamente sérios, tais como as mastoidites, os abscessos peritonsilares e a febre reumática. Os autores utilizaram os dados de um banco nacional sobre as drogas vendidas pelos farmacêuticos, uma base de dados de atenção primária que incluiu 130 clínicas e um banco de dados de internações hospitalares. Eles concluíram que a prescrição de antibióticos por parte dos médicos diminuiu em aproximadamente 35% entre 1993 e 1999 e a partir daí permaneceu no mesmo nível. O número de prescrições aviadas continuou a cair em cerca de mais 9% nos quatro anos seguintes, provavelmente devido ao aumento no uso de prescrições retardadas como uma estratégia de redução do uso inadequado de antibióticos. Durante o mesmo período (1993 a 2003) não houve alterações nas taxas de internações hospitalares por abscesso peri-tonsilar ou febre reumática mas houve um pequeno aumento nas taxas de admissões para mastoidectomias (19%). Entretanto, houve uma tendência em direção a uma redução no número mastoidectomias nas clínicas gerais. Além disso, a maior parte do aumento das mastoidectomias hospitalares foi em crianças com menos de quatro anos, a idade na qual a otite média é mais comum.



Plasil EV reduz náuseas e desconforto durante inserção de sonda nasogástrica

Questão clínica
A metoclopramida intravenosa é efetiva na redução da náusea e das dores durante a inserção de uma sonda naso-gástrica?

Resumo
A metoclopramida EV reduz a náusea e as dores durante a inserção das sondas naso-gástricas. Os pesquisadores adicionaram uma dose de 10 mg de metoclopramida intravenosa a uma infusão salina normal quinze minutos antes do procedimento.

Nível de evidência:1 b-

referência
Ozucelik DN, Karaca MA, Sivri B. Effectiveness of pre-emptive metoclopramide infusion in alleviating pain, discomfort and nausea associated with nasogastric tube insertion: A randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Int J Clin Pract 2005;59:1422-27.

desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

casuística: pacientes de pronto-socorro

de apoio financeiro: desconhecido/não declarado

distribuição da amostra: incerta

discussão
Os pacientes freqüentemente se queixam de náuseas, dores e vômitos durante a inserção das sondas naso-gástricas. Os autores desse estudo quiseram avaliar a efetividade da metoclopramida intravenosa na redução desses sintomas. Pacientes adultos de mais de 17 anos de idade (n = 100) que haviam sido admitidos em um pronto-socorro foram aleatoriamente distribuídos (por processo não descrito) para receberem 100 ml de solução salina normal com 10 mg de metoclopramida ou apenas soro fisiológico 15 minutos antes do procedimento. Os pacientes, cegos ao tratamento, deram notas para a dor percebida, as náuseas e o desconforto de acordo com uma escala de analogia visual de 10 cm tanto no início quanto imediatamente após a inserção. O seguimento foi efetivo para todos os pacientes durante a permanência no pronto-socorro. Na linha de base, todos os pacientes tinham uma pontuação de zero na escala de dor. Pela análise por intenção de tratamento, os pacientes que receberam a solução salina normal tiveram um aumento estatisticamente significativo nos valores da escala de analogia visual em comparação com os que receberam metoclopramida (diferença na dor, náusea e desconforto = 25,9 - 49,7 mm).



ACO’s são seguros para portadoras de LES

Questão clínica
É seguro prescrever contraceptivos orais para mulheres portadoras de lupus eritematoso sistêmico?

Resumo
Esse estudo concluiu que os anticoncepcionais orais (ACO's) são seguros e não aumentam o risco de ativação da doença em mulheres portadoras de lupus eritematoso sistêmico (LES). Outro estudo publicado na mesma edição da revista não encontrou diferenças nos resultados clínicos das mulheres que receberam um contraceptivo oral, uma pílula de progesterona isolada ou um dispositivo intra-uterino (N Engl J Med 2005;353:2539-49).

Nível de evidência: 1b

Referência:
Petri M, Kim MY, Kalunian KC, et al, for the OC-SELENA Trial. Combined oral contraceptives in women with systemic lupus erythematosus. N Engl J Med 2005;353:2550-58.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: governamental

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
O senso comum tem sido o de que não se deve dar anticoncepcionais orais para mulheres portadoras de LES devido às preocupações teóricas de que os estrógenos desempenham um papel na atividade da doença. Nesse estudo, os autores identificaram 183 mulheres com idade menores do que 40 (ou do que 36, caso fumantes) portadoras da doença em fase estável ou em processo de melhora. Os critérios de exclusão incluíram hipertensão, história de doença trombo-embólica, anticorpos anti-cardiolipina, anticoagulante lúpico, câncer ginecológico, história de infarto do miocárdio, enxaquecas ou disfunção hepática. As participantes foram aleatoriamente distribuídas (por processo mascarado) para receberem etinil-estradiol trifásico com norethindrona (Orthp Novum 7/7/7) ou um placebo correspondente e foram seguidas por um ano. Um pouco mais do que um terço das participantes de cada grupo interrompeu a medicação em estudo, mas a análise foi por intenção de tratamento, o que é bastante adequado. Durante o seguimento não houve diferença na freqüência de rashes (7,6% versus 7,7%) e nem com relação a uma escala de sintomas específica para a doença. Também não houve diferença entre os grupos com relação ao número de episódios trombo-embólicos.



Pais preferem participar da decisão terapêutica na OMA

Questão clínica
Os pais de crianças com otite média aguda preferem participar da decisão de usar ou não antibióticos?

Resumo
Apresentar informações sobre os prós e contras do tratamento antibiótico para a otite média aguda e deixar os pais decidirem se e quando começarão o tratamento aumenta a satisfação dos pais com a consulta e poderia potencialmente diminuir o uso de antibióticos. Esses resultados foram encontrados em pais brancos, com renda e idade mais altas e podem não se aplicar a todos os grupos sócio-econômicos.

Nível de evidência:2c

Referência
Merenstein D, Diener-West M, Krist A, Pinneger M, Cooper LA. An assessment of the shared-decision model in parents of children with acute otitis media. Pediatrics 2005;116:1267-75.

desenho de estudo: transversal

casuística: pacientes ambulatoriais (de atenção primária)

apoio financeiro: fundação

Discussão
Os pesquisadores que conduziram esse estudo queriam determinar qual a extensão em que os pais gostariam de participar nas tomadas de decisão com relação ao tratamento de seus filhos, dado um cenário no qual eles (filhos) tivessem otite média aguda. Os participantes desse estudo não eram típicos: eles foram, em média, mais velhos (idade média de 46 anos), mais ricos (76% tinham uma renda familiar maior do que US$75.000 ao ano), mais instruídos (87% tinham nível universitário), a maioria era de brancos não hispânicos e quase todos tinham seguro-saúde. Durante uma consulta numa clínica de medicina de família, foi pedido a 436 pais que imaginassem sua reação a uma de 3 suposições clínicas. Todas essas situações hipotéticas apresentavam uma mãe levando seu filho de 2,5 anos de idade com febre ao médico. A criança recebia o diagnóstico de otite média aguda. Em cada situação, o médico explicava seu desejo de diminuir o uso de antibióticos e a falta de necessidade de utilizá-los na maioria dos casos. Na situação "paternalista" o médico recomendava claramente os antibióticos. Nas hipóteses "de decisão compartilhada" o médico não fazia qualquer recomendação específica mas dava uma prescrição para o início de um antibiótico em dois dias caso a criança não melhorasse e em uma dessas situações o acetaminofeno também era recomendado como tratamento.

Antes de ler as situações hipotéticas, 93% dos pais disseram que achavam que eram necessários antibióticos se houvesse uma infecção no ouvido. Após lê-las, 82% relataram estar dispostos a esperar 48h antes de iniciar o tratamento. Entretanto, 27% dos pais que receberam a situação paternalista queriam iniciar os antibióticos imediatamente enquanto apenas 7% dos que receberam as hipóteses de decisão compartilhada o teriam feito (P < 0,001). Todos relataram graus semelhantes de satisfação com a quantidade de informações que receberam. Um número significativamente maior de pacientes relatou ficar mais satisfeito com as abordagens de decisão compartilhada do que com a abordagem paternalista (76% satisfeitos no grupo paternalista versus 84% e 93% nos grupos de decisão compartilhada; P < 0,001).



Enxerto é igual a angioplastia na isquemia grave dos MMII, mas custa mais (BASIL)

Questão clínica
Os enxertos são melhores do que a angioplastia para os pacientes portadores de doença isquêmica grave dos membros inferiores?

Resumo
Os portadores de doença vascular periférica avançada que são submetidos tanto a cirurgias de enxerto quanto a angioplastias por balão têm taxas semelhantes de sobrevivência sem amputação. Mesmo levando-se em consideração que os pacientes inicialmente tratados com angioplastia tiveram maiores taxas de re-intervenções, os custos médicos durante o primeiro ano de tratamento foram um terço maiores para os pacientes tratados cirurgicamente.

Nível de evidência: 1b-

Referência
Adam DJ, Beard JD, Cleveland T, et al, for the BASIL trial participants. Bypass versus angioplasty in severe ischaemia of the leg (BASIL): multicentre, randomised controlled trial. Lancet 2005;366:1925-34.

desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (não cego)

casuística: pacientes internados com seguimento ambulatorial

apoio financeiro: governamental

distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Os pacientes portadores de doença vascular periférica grave nos membros inferiores, definida como dor ao repouso, úlcera isquêmica ou gangrena, foram aleatoriamente designados (por distribuição mascarada) para receberem um tratamento inicial com cirurgia de enxerto ou angioplastia por balão (sem stent). Para serem incluídos, os pacientes tinham que ter uma doença infra-inguinal confirmada. Aproximadamente um terço dos pacientes que se apresentaram com doença grave foram aptos a participar do estudo. Os principais resultados medidos foram analisados por intenção de tratamento. Apesar de esse ter sido um estudo não cego, os resultados são relativamente livres de vieses de mensuração (à exceção da qualidade de vida). Entretanto, as decisões sobre a re-intervenção e o uso de recursos hospitalares pode ter sido influenciada por quaisquer possíveis vieses dos cirurgiões responsáveis. Os pesquisadores continuaram o seguimento de cada paciente até que se atingisse um dos principais pontos finais (morte ou amputação). O estudo foi projetado para ter um poder de 90% de detecção de uma diferença de 15% em uma sobrevivência sem amputação de três anos.

Aproximadamente dois terços dos pacientes tinham mais de 70 anos, quase 80% eram ou haviam sido fumantes e 40% tinham diabetes. Apenas 2% dos pacientes foram perdidos no seguimento após a randomização. Dentre os 228 pacientes inicialmente tratados cirurgicamente,30 acabaram morrendo e 20 sofreram uma amputação. Dentre os 224 pacientes inicialmente tratados com a angioplastia, 28 morreram e 25 sofreram uma amputação. Os pacientes tratados com angioplastia tiveram uma taxa significativamente maior de re-intervenções (26% versus 18%). Os custos hospitalares durante o primeiro ano após a randomização foram aproximadamente um terço maiores para os pacientes tratados cirurgicamente do que para aqueles tratados com a angioplastia. Em uma análise posterior, os pacientes tratados com a cirurgia pareceram estar melhores após dois anos. O número de acidentes após dois anos, entretanto, foi muito pequeno. Uma vez que análises posteriores são sempre permeadas por problemas, elas devem ser utilizadas apenas para gerar novas hipóteses a serem confirmadas por outros estudos.



Fenofibrato não previne episódios coronarianos no DM (FIELD)

Questão clínica
Em pacientes portadores de diabetes do tipo 2, o fenofibrato previne os episódios coronarianos?

Resumo
Nesse estudo, os pacientes portadores de diabetes do tipo 2 tratados com fenofibrato (Antara, Lofibra, Tricor) não tiveram reduções indicativas nos episódios coronarianos em comparação com os pacientes tratados com placebo. Houve uma pequena redução, entretanto, nos infartos do miocárdio não fatais, nas doenças cardiovasculares totais e nas revascularizações.

Nível de evidência:1 b

referência
Keech A, Simes RJ, Barter P, et al, for the FIELD study investigators. Effects of long-term fenofibrate therapy on cardiovascular events in 9795 people with type 2 diabetes mellitus (the FIELD study): randomised controlled trial. Lancet 2005;366:1849-61.

desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)

apoio financeiro: indústria e governo

distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Nesse estudo, aproximadamente 10.000 pacientes com idades entre 50 e 75 anos portadores de diabetes mellitus do tipo 2 foram aleatoriamente designados para receberem 200 mg de fenofibrato diariamente ou um placebo semelhante. Todos os pacientes tiveram um nível de colesterol total entre 115 e 250 mg/dl, além de uma taxa colesterol total/HDL de 4,0 ou mais ou um nível de triglicérides entre 88 e 440 mg/dl e não tinham indicação clara ou não estavam em tratamento com terapia lipídica ao início do estudo. Após a randomização, os pacientes foram avaliados a intervalos de quatro a seis meses por cerca de 5 anos. As decisões subseqüentes sobre a adição de outras medicações foram deixadas a cargo do discernimento do médico responsável. O estudo foi desenhado para ter poder suficiente para detectar diferenças modestas na taxas de eventos.

Os resultados dos estudos foram analisados via intenção de tratamento por avaliadores cegos à distribuição dos grupos. O seguimento foi completo para mais de 99% dos pacientes. Os pacientes tratados com placebo tiveram uma probabilidade maior de receberem subseqüentemente medicações redutoras de lipídios que não estavam em estudo (17% versus 8%). Não houve diferenças significativas nos episódios coronarianos (6% versus 5%), apesar de os pacientes tratados com placebo terem tido mais infartos do miocárdio não fatais (8,4% versus 6,4%; número necessário para tratar [NNT] = 100; IC de 95%: 58 - 406). Os pacientes que tomaram o fenofibrato também tiveram uma probabilidade menor de ter um acidente cardiovascular (NNT = 69; IC de 95%:36 - 1060) ou uma revascularização (NNT = 67; IC de 95%: 40 - 194). Uma revisão sistemática * sobre os fibratos já havia demonstrado um aumento significativo na mortalidade por todas as causas (número necessário para causar dano = 132/4,4 anos). Nesse estudo, também houve um aumento não significativo na mortalidade por todas as causas (14,2/1000 versus 12,9/1000; P = 0,18).

*Studer M, Briel M, Leimenstoll B, Glass TR, Bucher HC. Effect of different antilipidemic agents and diets on mortality. A systematic review. Arch Intern Med 2005;165:725-30



Tratamento clínico efetivo para obstrução parcial do delgado

Questão clínica
A terapia oral com óxido de magnésio, lactobacilos e simeticona melhora os resultados clínicos de pacientes com obstrução intestinal parcial?

Resumo
A combinação de óxido de magnésio, lactobacilos e simeticona parece reduzir a duração da internação e a necessidade de cirurgia em pacientes com obstrução parcial do intestino delgado, apesar de esse estudo ter sido limitado por falhas no mascaramento completo dos pacientes e dos cuidadores.

Nível de evidência: 1b

Referência
Chen SC, Yen ZS, Lee CC, et al. Nonsurgical management of partial adhesive small-bowel obstruction with oral therapy: a randomized controlled trial. CMAJ 2005; 173:1165-169.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (cego simples)

Casuística: pacientes internados (quaisquer)

Apoio financeiro: desconhecido/não declarado

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
A obstrução parcial do delgado é uma complicação das cirurgias intra-abdominais e pélvicas de ocorrência relativamente comum, levando um terço dos pacientes à necessidade de descompressão cirúrgica. Nesse estudo, os pesquisadores identificaram em Taiwan 128 adultos que tinham uma história de cirurgia abdominal há mais de quatro semanas, sintomas compatíveis com a síndrome de obstrução parcial do delgado e uma radiografia confirmatória demonstrando níveis líquidos e aéreos no delgado mas apenas ar nos cólons. A distribuição da amostra foi mascarada e foi realizada uma tentativa para mascarar o cirurgião assistente (que tomava as decisões sobre tratamento e período de internação). Os grupos foram balanceados ao início do estudo e nenhum paciente foi perdido no seguimento. Todos receberam hidratação endovenosa e descompressão por sonda naso-gástrica. Os pacientes do grupo de controle não receberam nada oralmente, enquanto aqueles do grupo tratado receberam água e 500 mg que óxido de magnésio, 0,3 g de Lactobacilus acidophilus e 40 mg de simeticona três vezes ao dia seguidos de fechamento da sonda por 1hora. Os pacientes do grupo de tratamento ativo tiveram uma tendência menor de necessitarem de cirurgia (9% versus 24%; P = 0,03; número necessário para tratar = 7; IC de 95%: 4 - 52) e tiveram menores períodos de internação (1,0 versus 4,2 dias; P < 0,001). Não houve diferenças entre os grupos com relação à tendência de complicações sérias ou recidivas em seis meses. As principais limitações do estudo foram a falha de cegamento dos pacientes e profissionais e a dificuldade de mascaramento dos cirurgiões assistentes.



Vacina pertussis acelular tem efetividade entre 63% e 92%

Questão clínica
A vacina pertussis acelular é segura e efetiva para o uso em adultos e adolescentes?

Resumo
Uma vacina acelular contra a coqueluche reduz o risco da doença em adultos e é bem tolerada.

Nível de evidência: 1b

Referência
Ward JI, Cherry JD, Chang SJ, et al, for the APERT Study Group. Efficacy of an acellular pertussis vaccine among adolescents and adults. N Engl J Med 2005;353:1555-63.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo-cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (quaisquer)
Distribuição da amostra: incerta

Discussão
Os casos de coqueluche em adultos estão aumentando. Nesse estudo, 2781 adultos saudáveis foram aleatoriamente distribuídos para receberem a vacina pertussis acelular (GlaxoSmithKline) ou uma vacina contra hepatite (Havrix) como placebo. Os grupos foram equilibrados ao início do estudo, a análise foi por intenção de tratamento e os resultados foram avaliados de maneira cega. Os pacientes foram seguidos por uma mediana de 22 meses. Os pesquisadores solicitaram a presença dos pacientes a cada duas semanas para se certificarem de qualquer episódio de tosse que durasse mais do que cinco dias, o que ocorreu 2672 vezes. A coqueluche foi definida de quatro maneiras, sendo que a mais restrita exigiu uma cultura positiva, uma reação de PCR ou uma evidência sorológica convincente. Aproximadamente 80% dos participantes completaram o estudo, com a maioria das desistências ocorrendo durante os seis meses finais. Pelo uso da definição mais estrita, houve nove casos de coqueluche no grupo de controle e um no grupo vacinado (eficácia ajustada da vacina: 92%). Com a definição menos estrita de infecção por pertussis a eficácia da vacina diminuiu para 63%. É interessante notar que houve 1047 casos de tosse com duração maior do que 3 semanas entre os 2781 participantes (um para cada cinco pessoas-ano) e 310 com duração maior do que 6 semanas (um para cada 16 pessoas-ano). Apenas uma pequena minoria desses episódios foi causada pela coqueluche (5,7% entre as tosses que duraram mais de 8 semanas), e houve mais episódios de tosse no grupo que recebeu a vacina (1388 versus 1284), apesar de os autores afirmarem que isso não foi estatisticamente significativo. Não houve diferenças entre os grupos quanto à probabilidade de eventos adversos sérios.



Tretinoína tópica pode acelerar cura das úlceras diabéticas

Questão clínica
Uma breve aplicação diária de tretinoína melhora a cura das úlceras diabéticas nos pés?

Resumo
Esse pequeno estudo oferece algum suporte para a aplicação da tretinoína tópica 0,05% durante 10 minutos por dia às úlceras diabéticas.

Nível de evidência
1b-

Referência
Tom WL, Peng DH, Allaei A, Hsu D, Hata TR. The effect of short-contact topical tretinoin therapy for foot ulcers in patients with diabetes. Arch Dermatol 2005; 141:1373-377.

Desenho de estudo:
ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Casuística: pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Apoio financeiro: indústria

Distribuição da amostra: mascarada

Discussão
Achados extraídos de estudos não controlados já haviam sugerido que uma breve aplicação de tretinoína tópica pode melhorar a cura dos pacientes com úlceras crônicas de pele. Nesse pequeno estudo foram identificados 24 pacientes portadores de úlceras diabéticas dos membros inferiores mas sem evidências de doença vascular periférica ou infecção em um centro médico para veteranos de guerra norte-americanos. Os grupos foram razoavelmente bem equilibrados ao início de estudo: o grupo de controle tinha uma média de idade de 61 anos, uma duração média das úlceras de 12 meses e um tamanho médio de 1,1 cm enquanto o grupo de intervenção tinha 58 anos, 6 meses e 0,9 cm, respectivamente. O grupo de intervenção recebeu tretinoína tópica 0,05% aplicada por 10 minutos diários e em seguida enxaguada com solução salina por um total de quatro semanas. Foi aplicado gel de iodo antes do tratamento em todos os pacientes. Após 16 semanas, as feridas do grupo de intervenção estavam 55% menores enquanto as do grupo de controle estavam 3% maiores (não foram relatados valores absolutos em termos de cm2). Um número maior de úlceras foram completamente curadas no grupo de intervenção do que no grupo de controle (6/13 versus 2/11; P = 0,03). A dor de leve a moderada foi um pouco mais comum no grupo da tretinoína (3 versus 1) mas essa diferença não teve significado estatístico neste pequeno estudo.



TC helicoidal auxilia no gerenciamento de pacientes de PS com dor abdominal inespecífica (GAPEDS)

Questão clínica
Qual estratégia diagnóstica identifica melhor os pacientes com dor abdominal inespecífica que precisarão de intervenção urgente?

Resumo
Uma avaliação clínica estruturada combinada com a análise laboratorial, o raio X e a tomografia computadorizada (TC) helicoidal sem contraste identifica os pacientes com dor abdominal inespecífica que precisarão de intervenção urgente.

Nível de evidência: 3b

Referência
Gerhardt RT, Nelson BK, Keenan S, et al. Derivation of a clinical guideline for the assessment of nonspecific abdominal pain: the Guideline for Abdominal Pain in the ED Setting (GAPEDS) Phase 1 Study. Am J Emerg Med 2005;23:709−17.

Desenho de estudo: regra de decisão (desenvolvimento)

Casuística: pacientes de pronto-socorro

Discussão
Esse estudo foi desenhado para determinar qual exame ou combinação de exames realizados em conjunto com a história e o exame físico podem identificar os pacientes com dor abdominal inespecífica que não precisarão de intervenção urgente. A dor abdominal inespecífica foi definida como uma dor abdominal ou pélvica de não mais do que sete dias de duração e que não fosse acompanhada por sinais de peritonite, instabilidade ou alguma outra necessidade clínica óbvia de intervenção (como, por exemplo, uma faca enfiada no umbigo). Os investigadores excluíram os pacientes com uma queixa primária que fosse de origem uro-genital. O resultado primário medido nesse estudo foi a necessidade de intervenção urgente, definida como necessidade de intervenção cirúrgica, endoscópica ou não operatória sem a qual o paciente pudesse ir a óbito ou sofrer alguma morbidade grave. Uma vez que alguns pacientes com dor abdominal inespecífica podem ser portadores de doenças latentes ainda em baixo grau, os pesquisadores avaliaram e seguiram os 165 pacientes adultos por seis meses após a internação inicial para terem certeza de que nenhum deles teve algum diagnóstico tardiamente realizado. Os autores estudaram uma amostra conveniente que representa aproximadamente 94% dos pacientes potencialmente recrutáveis. Eles compararam quatro modelos de decisão: (1) história e exame físico somente; (2) história e exame físico com exames laboratoriais; (3) história e exame físico com exames laboratoriais e raios X; e (4) história e exame físico com exames laboratoriais, raios X e TC helicoidal sem contraste. Os três primeiros modelos fora bastante insensíveis (0,25 - 0,56), mas razoavelmente específicos (0,81 - 0,92). As taxas de probabilidade positiva e negativa desses modelos não foram suficientemente fortes para alterarem significativamente as probabilidades diagnósticas (2,9 - 3,2 e 0,5 - 0,8, respectivamente). O último modelo, entretanto, foi muito mais forte. Ele identificou corretamente 96% dos pacientes que precisavam de intervenção urgente e 90% daqueles que não necessitavam (razão de probabilidade positiva = 9,2; razão de probabilidade negativa = 0,09).



Metoprolol precoce no IAM: sem benefícios e com possíveis prejuízos (COMMIT; CCS-2)

Questão clínica
O uso precoce do metoprolol melhora os resultados clínicos de pacientes com infarto agudo do miocárdio?

Resumo
O uso precoce do metoprolol nos pacientes com infarto agudo do miocárdio (IAM's) que já estejam recebendo trombolíticos e aspirina não oferece benefícios em curto prazo em comparação com o placebo. Uma vez que esse uso precoce, entretanto, aumenta o risco de choque cardiogênico, pode ser sábio esperar para usar essa droga quando o paciente estiver hemodinamicamente estável.

Nível de evidência: 1b

Referência
Chen ZM, Pan HC, Chen YP, et al for the COMMIT (ClOpidogrel and Metoprolol in Myocardial Infarction Trial) Collaborative Group. Early intravenous then oral metoprolol in 45,852 patients with acute myocardial infarction: randomised placebo-controlled trial. Lancet 2005; 366:1622-32.

desenho de estudo: ensaio clínico e randomizado controlado (duplo cego)

apoio financeiro: indústria e governo

casuística: pacientes internados (quaisquer)

distribuição da amostra: mascarada

discussão
Os estudos relativos ao uso dos beta-bloqueadores para a prevenção secundária do infarto agudo do miocárdio foram realizados com maior freqüência antes da disseminação dos trombolíticos. Esse estudo teve dois componentes-chave: um avaliou se a adição do clopidogrel ao AAS era benéfica para os pacientes com infarto agudo do miocárdio. A segunda parte do estudo, aqui apresentada, avaliou se a adição do metoprolol à prática-padrão atual (aspirina e trombolíticos) tem algum valor para esses pacientes. Mais de 45.000 pacientes que compareceram a hospitais chineses com suspeita de infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST, bloqueio de ramo esquerdo ou depressão do segmento ST dentro de 24h após o início dos sintomas foram aleatoriamente distribuídos para receberem metoprolol ou placebo. A equipe de pesquisa excluiu os pacientes encaminhados para intervenção percutânea primária, uma vez que eles tendem a se beneficiar das drogas ativas. Também foram excluídos os pacientes com "uma pequena probabilidade de benefício e um alto risco de eventos adversos" relativos às medicações em estudo, o que é uma exclusão bastante subjetiva. Os médicos assistentes foram estimulados a prescrever beta-bloqueadores e aspirina após a alta, mas essa prática não foi monitorada. As primeiras três doses (5 mg ou placebo) foram administrados por via endovenosa a cada cinco minutos de maneira que a freqüência cardíaca permanecesse próxima dos 50 bpm e a pressão arterial sistólica permanecesse acima dos 90 mmHg. Após essas três doses, os pacientes receberam 50 mg de metoprolol ou placebo a cada 6h durante o primeiro dia. Do segundo dia em diante, os pacientes receberam 200 mg de metoprolol de liberação lenta ou placebo uma vez ao dia durante quatro semanas ou até a alta hospitalar. Os resultados principais, avaliados por intenção de tratamento, foram a mortalidade por todas as causas e uma composição de morte, re-infarto e parada cardíaca. Os resultados foram avaliados durante os primeiros 28 dias ou até a alta hospitalar. Entre os pacientes incluídos, 92% sofreram elevação do segmento ST ou bloqueio de ramo esquerdo e 8% tinham depressão do segmento ST, o que evanta a preocupação de que o efeito do beta-bloqueador pode ter sido diferente entre esses grupos. Apenas um paciente de cada grupo foi perdido no seguimento. Não houve diferenças entre os dois grupos na mortalidade total de (cerca de 8%) ou nos outros resultados (9,4% entre os que tomaram metoprolol e 9,9% a entre os que tomaram placebo) para o estudo teve poder suficiente para detectar e uma diferença de 10% nas taxas de ocorrências. Mais pacientes do grupo que recebeu o metoprolol sofreram choque cardiogênico durante as primeiras 24h do que no grupo placebo (5% versus 3,9%). Seria necessário aplicar metoprolol a 90 pacientes para prejudicar um deles (IC de 95%: 67 - 136).



Gerenciamento do diabetes durante o Ramadã

Questão clínica
Como deve ser gerenciado o diabetes do paciente que escolhe jejuar durante o feriado islâmico do Ramadã?

Resumo
Essas diretrizes baseadas em opiniões de especialistas (existem poucos estudos nessa área) destacam métodos cautelosos de gerenciamento dos pacientes muçulmanos com diabetes do tipo 2 que insistem em jejuar durante o Ramadã. Os detalhes estão expostos na discussão (vide o artigo original para saber sobre pacientes com diabetes tipo 1 e gestantes).

Nível de evidência:5

Referência
Al−arouj M, Bouguerra R, Buse J, et al. Recommendations for management of diabetes during Ramadan. Diabetes Care 2005;28:2305−11.

Desenho de estudo: diretriz de prática

Casuística: variada (diretriz)

Discussão
O jejum durante o mês sagrado do Ramadã é uma tarefa obrigatória para todos os muçulmanos adultos saudáveis. Durante esse mês, eles se abstêm de comer, beber e tomar medicações orais entre o nascer e o pôr-do-sol. A maioria das pessoas faz uma refeição após o pôr-do-sol e outra antes do amanhecer. Apesar de os diabéticos estarem dispensados do jejum, uma vez que isso pode colocá-los sob risco de complicações, muitos deles insistem na prática. Como seria de se esperar, a hipoglicemia, a hiperglicemia, a ceto-acidose diabética, a desidratação e a trombose estão associadas a esse jejum. Nunca foi realizada qualquer pesquisa que estratificasse esses pacientes por risco de complicações ou que oferecesse qualquer orientação para o gerenciamento desses casos -essas diretrizes foram baseadas na opinião de especialistas. Os pacientes sob alto risco de complicações deveriam monitorar freqüentemente seus níveis glicêmicos durante o dia e interromperem o jejum se houver hipoglicemia (ou seja, menos de 60 mg/dl em qualquer momento ou menos de 70 mg/dl nas primeiras horas de jejum). Além disso, o jejum deve ser quebrado se a glicemia exceder 300 mg/dl. O jejum não deveria ser realizado nos dias em que o paciente se sente mal. Aqueles que tomam a metformina deveriam tomar dois terços da dose diária antes da refeição noturna e o terço restante antes da refeição do amanhecer. Não é necessária qualquer mudança na administração das glitazonas. A sulfoniluréias devem ser tomadas com a refeição do entardecer, sendo suas doses ajustadas com base no risco de hipoglicemia. As sulfoniluréias que são tomadas duas vezes ao dia deveriam ter metade da dose normal administrada antes da refeição da alvorecer e a dose normal durante a refeição do anoitecer. A clorpropramida nunca deveria ser utilizada. A repaglinida e a nateglinida podem ser usadas antes de cada refeição. A insulina deve ser administrada uma vez ao dia com a refeição do anoitecer ou individualizada e administrada duas vezes ao dia, sendo a maior dose tomada com a refeição do anoitecer.



Associação da gabapentina à morfina é ligeiramente melhor para as nevralgias do que o uso isolado de uma das duas

Questão clínica
A combinação da gabapentina com a morfina tem efeito melhor na dor neuropática do que o uso isolado de uma das duas drogas?

Resumo
A combinação entre gabapentina e morfina fornece um benefício pequeno e clinicamente insignificante em comparação com o uso isolado de uma dessas drogas. Os antidepressivos tricíclicos têm-se mostrado tão efetivos quanto a gabapentina em outros estudos e são muito menos caros, mas eles não foram avaliados nesse ensaio.

Nível de evidência: 1b

Referência
Gilron I, Bailey JM, Tu D, Holden RR, Weaver DF, Houlden RL. Morphine, gabapentin, or their combination for neuropathic pain. N Engl J Med 2005;52:1324-334.

Desenho de estudo:
ensaio clínico randomizado cruzado

Distribuição da amostra:
mascarada

Casuística:
pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Discussão
A gabapentina e a morfina são amplamente utilizadas no tratamento da dor neuropática, mas não está claro se a combinação de ambas é melhor do que o uso de uma das duas somente. Esse pequeno estudo utilizou um desenho cruzado: cada paciente tomou cada droga ou uma combinação de ambas e serviu como o próprio controle. Esse desenho de estudo torna possível identificar resultados estatisticamente significativos com um tamanho de amostra relativamente pequeno. Os 57 pacientes do estudo tinham neuropatia diabética ou nevralgia pós-herpética de gravidade pelo menos moderada e estiveram em tratamento por pelo menos três meses antes do início do estudo. Aqueles com nevralgia pós-herpética eram um pouco mais velhos do que os que tinham neuropatia diabética (idade média = 68 vs. 60 anos). Eles interromperam qualquer medicação para a nevralgia e mantiveram um diário de dor por sete dias para estabelecer seu nível de sintomas basal. Os pacientes foram então aleatoriamente distribuídos (com mascaramento) para receberem de 1 a 4 seqüências de tratamentos. Cada seqüência incluía as seguintes doses-alvo máximas para os quatro regimes de tratamento: (1) 60 mg de morfina de liberação sustentada administrada duas vezes ao dia; (2) 3.200 mg diários de gabapentina divididos em três doses; (3) 30 mg de morfina de liberação sustentada duas vezes ao dia com adição de 800 mg de gabapentina 3 vezes ao dia; e (4) placebo ativo com uma dose baixa de lorazepam (o qual, acredita-se, não exerce efeito sobre a dor neuropática mas engana os pacientes fazendo-os pensar que estão tomando a droga ativa devido aos efeitos colaterais). Cada período de tratamento durou cinco semanas, com a dose sendo lentamente aumentada durante as três primeiras semanas e os resultados sendo medidos na quarta semana. Na quinta semana, as drogas foram paulatinamente reduzidas e então a medicação foi interrompida. Os pacientes mais velhos e os de menor estatura tiveram doses menores do que as citadas acima (60 mg de morfina isolada e 2400 mg de gabapentina isolada). Na verdade, a maioria dos pacientes não chegou às doses máximas: as doses médias finais de morfina e gabapentina utilizadas em combinação foram 35 e 1700 mg ao dia, respectivamente. Apenas 41 dos 57 pacientes completaram o estudo, sendo que a maioria o abandonou durante o primeiro período de tratamento. O resultado primário medido foi a intensidade média de dor em uma escala de zero a dez durante a quarta semana (quando os pacientes estavam recebendo a dose máxima de cada droga). A intensidade de dor média foi 5,7 ao início do estudo e diminuiu para 4,5 com o placebo, 4,15 com a gabapentina, 3,7 com a morfina e 3,1 com a combinação das drogas. A diferença entre as drogas ativas individualmente e a combinação foi estatisticamente significativa mas de uma relevância clínica muito sutil. Em geral, em uma escala de 10 pontos uma diferença menor do que 1 a 1,5 ponto não é clinicamente importante. Os pacientes que receberam a morfina tanto isoladamente como em combinação com a gabapentina tiveram efeitos colaterais significativos: 21% dos que receberam a combinação tiveram constipação, sedação ou xerostomia.




25% dos pacientes com fibrilação atrial paroxística desenvolvem fibrilação atrial crônica em 5 anos

Questão clínica
Qual a probabilidade de que um paciente portador que fibrilação atrial paroxística desenvolva fibrilação atrial crônica?

Resumo
Após um primeiro episódio de fibrilação atrial paroxística, a maioria dos pacientes (84,5%) terá pelo menos mais um episódio de fibrilação atrial durante os próximos cinco anos. Nesse mesmo período, 24,7% dos pacientes desenvolverão fibrilação atrial crônica.

Referência
Kerr CR, Humphries KH, Talajic M, et al. Progression to chronic atrial fibrillation after the initial diagnosis of paroxysmal atrial fibrillation: Results from the Canadian Registry of Atrial Fibrillation. Am Heart J 2005;149:489-96.

Desenho de estudo:
estudo de coorte (prospectivo)

Casuística:
base populacional

Discussão
Esse estudo utilizou o registro canadense de fibrilação atrial (FA) para rastrear os pacientes após um primeiro episódio diagnosticado. O registro recrutou 757 pacientes com FA paroxística entre os anos de 1991 e 1996 em sete centros de seis cidades canadenses. A idade dos pacientes variou entre 14 e 91 anos à época do recrutamento, com uma idade média de 64 anos sendo 38,3% dos pacientes do sexo feminino. Após um ano, aproximadamente um em cada doze pacientes (8,6%) havia evoluído para a FA crônica, definida como FA em dois eletrocardiogramas consecutivos com intervalo de pelo menos uma semana entre ambos. Após cinco anos, a probabilidade aumentou para 24,7%. Apenas 15,5% dos pacientes estiveram completamente livres de sintomas durante os cinco anos.



Oxigênio hiperbárico previne grandes amputações em diabéticos

Questão clínica
O oxigênio hiperbárico traz benefícios para pacientes com úlceras crônicas?

Resumo
Em pacientes com úlceras diabéticas nos pés, o oxigênio hiperbárico reduz o número de grandes amputações em um ano. Esses dados, entretanto, são extraídos de menos de 200 pacientes participantes dos únicos seis estudos da literatura.

Nível de evidência: 1a-

Referência
Roeckl-Wiedmann I, Bennett M, Kranke P. Systematic review of hyperbaric oxygen in the management of chronic wounds. Br J Surgery 2005; 92:24-32.

Desenho de estudo:
revisão sistemática

Casuística:
variada (meta análise)

Discussão
As úlceras crônicas são o terror que muitos médicos e pacientes. Elas existem em quatro variedades principais, aqui listadas em ordem decrescente de prevalência: (1) úlceras diabéticos nos pés, (2) úlceras venosas nas pernas, (3) úlceras arteriais nas pernas e (4) úlceras de pressão. A oxigênio-terapia hiperbárica (OTHB) tem sido proposta como um tratamento adjunto para melhorar a cicatrização de úlceras. Esses autores revisaram sistematicamente todos os ensaios controlados randomizados que comparavam os efeitos uso da OTHB como tratamento auxiliar com o seu não uso ou com terapias placebo. Eles pesquisaram diversas bases de dados, livros-texto relevantes e atas de conferências e contataram especialistas no campo. De maneira independente, os investigadores identificaram os estudos incluídos, extraíram os dados e avaliaram a qualidade dos ensaios. Discordâncias foram acertadas por consenso. Finalmente, caso faltassem dados, os pesquisadores contatavam os autores. Depois de todo esse trabalho, apenas seis estudos com um total de 191 pacientes foram incluídos. Cinco dos estudos avaliaram pacientes com úlceras diabéticas nos pés e um incluiu pacientes com úlceras venosas. Somente dois dos estudos sobre pé diabético e o único estudo sobre úlceras venosas foram de boa qualidade. Provavelmente o achado mais importante é o de que houve menos amputações grandes nos pacientes diabéticos tratados com OTHB um ano após o tratamento (número necessário para tratar - NNT= 4; IC de 95%,3-11). Não houve diferenças nas amputações menores.



Inibidores da ECA benéficos para diabéticos

Questão clínica
Os inibidores da ECA (ou os bloqueadores de receptor de angiotensina) trazem benefícios aos pacientes diabéticos que têm microalbuminúria ou macroalbominúria?

Resumo
O tratamento com um inibidor da ECA retarda a mortalidade em pacientes diabéticos que também têm microalbuminúria ou macroalbominúria franca (e uma doença cardíaca pré- existente). O mesmo efeito não se aplica aos bloqueadores do receptor da angiotensina e ocorre independentemente dos pacientes terem ou não hipertensão. Tem-se demonstrado que os bloqueadores do receptor da angiotensina previnem a perda da função renal e diminuem a possibilidade de doença renal terminal em pacientes de alto risco. Essa análise não fornece boas evidências de que são efetivos o rastreamento e o tratamento da microalbuminúria em pacientes com diabetes sem doença cardíaca.

Nível de evidência
1a

Referência
Strippoli GF, Craig M, Deeks JJ, Schena FP, Craig JC. Effects of angiotensin converting enzyme inhibitors and angiotensin II receptor antagonists on mortality and renal outcomes in diabetic nephropathy: systematic review. BMJ 2004; 329:828. Epub 2004 Sep 30.

Desenho de estudo:
meta-análise (de ensaios randomizados controlados)

Casuística:
pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Resumo
Os inibidores da enzima de conversão de angiotensina (ECA) e os bloqueadores dos receptores da angiotensina II (BRA2) são recomendados para os pacientes diabéticos com microalbuminúria ou macroalbominúria franca, independentemente de sua pressão arterial. Essa meta-análise resumiu os dados atuais sobre a efetividade dessas drogas na prevenção da mortalidade geral e da doença renal terminal, reduzindo a probabilidade de perda da função renal e, com menos importância, a progressão da microalbuminúria para a macroalbominúria franca. Os pesquisadores investigaram diversas bases de dados utilizando as estratégias de pesquisa da Cochrane. A seleção dos estudos, a extração dos dados e a avaliação da qualidade foram realizadas pelos métodos usuais. Eles acabaram com 43 estudos randomizados que envolveram 7545 pacientes. A maioria das pesquisas comparou o efeito de um inibidor da ECA ao do placebo em pacientes com microalbuminúria e doença cardíaca preexistente (estudo Micro-HOPE). O tratamento com o inibidor da ECA diminuiu a mortalidade geral (8,50% versus 12,12%). O número necessário para tratar foi de 44 por aproximadamente quatro anos e meio, apesar de a variação ser muito grande (95% IC, 24,2-938). Os BRA´s, estudados em um número de similar de pacientes mas por períodos de tempo menores, não demonstraram exercer qualquer efeito sobre a mortalidade. Os inibidores da ECA não diminuíram o desenvolvimento da doença renal terminal, apesar de a taxa ser pequena (4,3%) nos pacientes estudados. Demonstrou-se que os BRA´s têm efeito sobre os pacientes de alto risco de desenvolvimento de doença renal terminal (19,3%). De maneira semelhante, demonstrou-se que os BRA´s têm um efeito sobre a progressão da doença renal (medida pela duplicação da creatinina sérica), mas o mesmo não ocorre com os inibidores da ECA. Nenhuma das drogas diminuiu o número de pacientes com microalbuminúria que progrediram para macroalbominúria, apesar de o significado desse resultado não ser conhecido. Não existem pesquisas suficientes que comparem diretamente os dois tipos de drogas e forneçam uma orientação sobre qual é a melhor.



Idade maior do que 55 e fatores de alarme aumentam a chance de neoplasia digestiva alta

Questão clínica
Quais pacientes com queixa de dispepsia devem ser submetidos à avaliação endoscópica com urgência?

Resumo
Os pacientes com disfagia ou perda de peso em qualquer idade bem como aqueles com idade maior do que 55 anos e qualquer fator de alarme ou de alto risco devem ser submetidos a endoscopia digestiva alta com maior urgência para a correta identificação daqueles que têm câncer. Entretanto, mesmo neste grande estudo, o qual detectou 70 cânceres gastro-intestinais superiores, 60% foram estadiados em TNM T3 ou mais e apenas 16% dos pacientes foram candidatos à ressecção cirúrgica.

Nível de evidência:1b

Referência:
Kapoor N, Bassi A, Sturgess R, Bodger K. Predictive value of alarm features in a rapid access upper gastrointestinal cancer service. Gut 2005; 54:40-5.

Desenho de estudo:
regra de decisão clínica (validação)

Casuística:
pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Discussão
Nesse estudo inglês, os médicos generalistas tinham a opção de encaminhar os pacientes para uma endoscopia urgente caso achassem que fosse indicado. Os critérios para a endoscopia foram idade de 55 anos ou mais, sintomas de alarme (disfagia, anorexia, vômitos, perda de peso e anemia) ou a presença de um ou mais fatores de alto risco (história familiar, esôfago de Barrett, anemia perniciosa, cirurgia de úlcera péptica ou displasia conhecida). Uma amostra de 1852 pacientes foi estudada para a identificação da precisão das previsões e o desenvolvimento de um novo conjunto de critérios. Os fatores de alarme mais fortemente associados ao câncer foram a disfagia, a perda de peso e a idade de 55 anos ou mais. Para a predição de qualquer das patologia significativas (câncer, úlcera. péptica, estenose ou esofagite), a idade, a disfagia e os fatores de alto risco foram os mais fortes preditivos. Esses resultados foram utilizados no desenvolvimento de um novo conjunto de critérios para a endoscopia urgente: disfagia ou perda de peso em qualquer idade ou surgimento de dispepsia após os 55 associada a qualquer fator de alarme (por exemplo, anemia, anorexia, vômitos, disfagia, perda de peso ou fatores de alto risco). A nova regra de decisão clínica foi validada em uma amostra subseqüente de 1785 pacientes durante os doze meses seguintes. Desse grupo, 570 não teriam necessitado de endoscopia urgente com o uso dos novos critérios pois 0,7% desse grupo tinha câncer em comparação com 4% dos 1215 pacientes identificados pela regra como sendo de alto risco.



Estrógeno aumenta risco de doença biliar

Questão clínica
A terapia com estrogênio aumenta a incidência de doenças da vesícula biliar em mulheres no pós-menopausa?

Resumo
Evidências extraídas do Women's Health Initiative (WHI), o maior ensaio randomizado disponível, confirmam o aumento das doenças biliares e dos procedimentos a elas relacionados entre as mulheres no pós-menopausa tratadas com suplemento de estrógeno. Esse é mais um dos riscos a serem considerados na decisão de aplicar ou não a terapia de reposição hormonal a alguma paciente.

Nível de evidência: 1b

Referência
Cirillo DJ, Wallace RB, Rodabough RJ, et al. Effect of estrogen therapy on gallbladder disease. JAMA 2005; 293:330-39.

Desenho de estudo:
ensaio controlado randomizado (duplo cego)

Distribuição:
mascarada

Casuística:
pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Discussão
Estudos observacionais sugerem que a terapia estrogênica aumenta o risco de doenças da vesícula biliar. Como parte do estudo WHI, os pesquisadores reuniram evidências mais rigorosas para avaliar esse risco. Mulheres histerectomizadas foram distribuídas de maneira aleatória e mascarada para receberem 0,625 mg diários de estrógeno eqüino conjugado ou placebo. As mulheres sem histerectomia foram designadas para receber estrógeno e progesterona, na forma de 2,5 mg diários de acetato de medroxiprogesterona ou um placebo correspondente. As participantes não tiveram conhecimento do grupo em que se encontravam e notificaram suas hospitalizações por problemas biliares e/ou procedimentos relacionados. Esses relatos foram confirmados pela verificação dos prontuários. Os tempos médios de seguimento foram 7,1 anos para as que receberam apenas estrógeno e 5,6 anos para aquelas que também receberam a progesterona. Pela análise por intenção de tratamento, a taxa de incidência anual para qualquer episódio biliar (colecistite, colelitíase ou colecistectomia) no grupo que recebeu apenas estrógeno foi de 78/10.000 pessoas-ano no grupo tratado contra 47/10.000 pessoas-ano no grupo placebo (número necessário para dano - NNH - em um ano = 323). No grupo do estrógeno adicionado da progesterona, a taxa de incidência anual para qualquer episódio biliar foi de 55/10.000 pessoas-ano no grupo ativamente tratado comparada à de 35/10.000 pessoas ano no grupo placebo (NNH em um ano = 500). Ambas as diferenças foram estatisticamente significativas.



Aumentar os níveis de HDL traz poucos benefícios

Questão clínica
Uma terapia que vise a aumentar o HDL-colesterol de pacientes com doença cardíaca é benéfica?

Resumo
A terapia farmacológica com fibratos com o objetivo de aumentar os níveis de HDL-colesterol diminui a probabilidade de um evento coronariano grave e reduz o risco de morte coronariana. Apesar de ter sido estudada em muitos homens sob risco, não se demonstrou que ela reduza a mortalidade geral ou a cardiovascular. Talvez vejamos pesquisas futuras que avaliem o benefício das terapias enfocadas na redução do LDL e no aumento do HDL. Até lá, nosso foco deveria permanecer na redução do LDL-colesterol, uma vez que é aí que se vêem os maiores benefícios.

Nível de evidência: 1a-

Referência
Birjmohun RS, Hutten BA, Kastelein JJ, Stroes ES. Efficacy and safety of high-density lipoprotein cholesterol-increasing compounds. J Am Coll Cardiol 2005; 45:185-97.

Desenho de estudo:
Meta-análise (de ensaios randomizados controlados)

Casuística:
pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Discussão
Apesar de o foco do tratamento do colesterol ser a redução dos níveis de LDL, evidências epidemiológicas sugerem que o aumento nos níveis de HDL também pode ser uma boa idéia. Essa meta-análise identificou 83 ensaios randomizados controlados que envolveram mais de 21.000 pacientes e avaliaram o papel do aumento do HDL com fibratos tais como o gemfibrozil, o clofibrato, o fenofibrato ou o benzafibrato. Os autores pesquisaram apenas uma base de dados -o MedLine- e focalizaram apenas as revistas de língua inglesa. Dados não publicados, citações de artigos de revisão e outras bases de dados não foram pesquisados, como é uma prática padrão nas meta-análises atualmente. Por disso, é bem possível que os autores tenham deixado escapar estudos que não tenham demonstrado benefícios com o tratamento. Eles incluíram todos os estudos randomizados que duraram pelo menos três semanas. A maioria dos estudos durou pelo menos oito meses e quase todos dados e resultados foram extraídos de estudos que envolveram pacientes com doença coronariana preexistente ou diabetes tipo 2. Os autores encaixaram todos os fibratos em um único grupo. Em média, a tratamento dos homens com um fibrato ou niacina diminuiu as taxas de colesterol total em aproximadamente 10%, aumentou o HDL-colesterol em 10 a 16% e reduziu os níveis de triglicérides entre 20 e 36%. Os fibratos, em geral, diminuíram a probabilidade de um evento coronariano grave em quatro anos (número necessário para tratar -NNT = 33; IC de 95%,20-100 o) e o risco de mortes coronarianas (NNT = 100; 0-100). As mortes cardiovasculares e as mortes por todas as causas não foram afetadas pelo tratamento. Os autores não fizeram nenhum comentário acerca da homogeneidade de seus dados.



Fisioterapia ajuda pouco na lombalgia

Questão clínica
Os pacientes com lombalgia que se submetem a fisioterapia têm mais benefício do que aqueles que apenas recebem conselhos para permanecerem ativos?

Resumo
As sessões de fisioterapia não oferecem nenhum benefício adicional sobre o simples aconselhamento para atividades em pacientes encaminhados para a fisioterapia. Os pacientes percebem algum benefício enquanto tratados, mas essa melhora desaparece em um ano.

Nível de evidência
2b

Referência
Frost H, Lamb SE, Doll HA, Carver PT, Stewart-Brown S. Randomized controlled trial of physiotherapy compared with advice for low back pain. BMJ 2004; 329:708-11.

Desenho de estudo:
ensaio clínico randomizado controlado (cego-simples)

Distribuição:
ocultada

Casuística:
pacientes ambulatoriais (de especialidade)

Discussão
Os autores estudaram 286 pacientes com lombalgia que haviam sido encaminhados para a fisioterapia por um médico de família ou especialista. Os pacientes foram convidados a participar do estudo e foram distribuídos aleatoriamente (a distribuição foi ocultada) para receberem um manual com instruções para permanecerem ativos ou o mesmo adicionado de seis sessões de fisioterapia com o uso da mobilização e manipulação das articulações, técnicas de partes moles e exercícios de fortalecimento. A análise dos resultados foi por intenção de tratamento, apesar de o seguimento ser de apenas 70% após um ano. O principal resultado avaliado foi a mudança no índice Oswestry de incapacidade, uma escala de 0 (nenhuma incapacidade) a 100% (totalmente incapacitado) preenchida pelos pacientes. Não houve diferença na incapacidade um ano após o início do tratamento. Os índices de qualidade de vida, medidas pela 36-item Short-Form Health Status Survey não foram diferentes após o mesmo período. Aproximadamente 10% dos pacientes selecionados para receber apenas conselhos realizaram sessões de fisioterapia. Os pacientes relataram benefícios significativamente maiores pelo tratamento aos dois e aos seis meses, mas é provável que isso se deva ao efeito placebo uma vez que os pacientes estavam conscientes de que tratamento estavam recebendo. Um estudo anterior também não demonstrou benefícios da fisioterapia na lombalgia (Spine 2003; 13:1363-72).



Cirurgia bariátrica funciona para obesidade mórbida

Questão clínica
Qual a efetividade da cirurgia bariátrica no tratamento da obesidade mórbida associada a diabetes, dislipidemia, hipertensão e apnéia obstrutiva do sono?

Resumo
A cirurgia bariátrica é altamente efetiva do tratamento das comorbidades comuns à obesidade mórbida incluindo o diabetes, a dislipidemia, a hipertensão e a apnéia obstrutiva do sono. As taxas de mortalidade operatória dos vários procedimentos, ainda que bastante baixas, podem variar em até dez vezes. São necessários ensaios adicionais para avaliar a morbidade, a mortalidade e a qualidade de vida a longo prazo, pois a maioria dos estudos atuais avalia os resultados de dois anos ou menos.

Nível de evidência
2a

Referência
Buchwald H, Avidor Y, Braunwald E, et al. Bariatric surgery. A systematic review and meta-analysis. JAMA 2004; 292:1724-37.

Desenho de estudo:
meta-análise

Casuística:
variada (meta-análise)

Discussão
Quase 5% da população norte-americana é morbidamente obesa e muitos desses indivíduos são portadores de outras comorbidades (como por exemplo o diabetes do tipo 2, a dislipidemia, a hipertensão, a apnéia do sono, a artrose degenerativa, a depressão etc). Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática dos estudos observacionais de intervenção já publicados com enfoque sobre o impacto da cirurgia bariátrica especificamente no diabetes, dislipidemia, hipertensão e apnéia obstrutiva do sono. A estratégia de busca por artigos relevantes foi ampla e incluiu o MedLine, o registro Cochrane de ensaios clínicos, a Current Contents e listas de referência de revisões recentes. Os estudos incluídos podiam ter qualquer desenho e tinham que envolver pelo menos dez pacientes submetidos a cirurgias bariátricas. Os procedimentos cirúrgicos foram agrupados nas seguintes categorias: banda gástrica, derivação gástrica, gastroplastia, derivações biliopancreáticas e mistas/outras.

Um total de 136 estudos que envolveram 22.094 pacientes foram incluídos. Desses, apenas 5 eram ensaios clínicos randomizados controlados. A maioria dos participantes eram mulheres (72,6%) com uma idade média de 39 anos e um índice de massa corporal basal médio de 46,9. A porcentagem média de perda do excesso de peso foi de 61,2% para todos os pacientes, sendo 47,5% após o bandeamento gástrico, 61,6% após a derivação gástrica, 68,2% após a gastroplastia e 70,1% após a derivação biliopancreática. A mortalidade nos primeiros 30 dias foi de 0,1% para o bandeamento gástrico e a gastroplastia, 0,5% para a derivação gástrica e 1,1% para a derivação biliopancreática. A resolução ou melhora significativa de cada doença foram as seguintes: diabetes 86%; hiperlipidemia 70%; hipertensão 78,5%; e apnéia obstrutiva do sono 83,6%. Os dados dos cinco estudos randomizados controlados, que envolveram apenas 621 pacientes (2,8% do total), foram compatíveis com a análise geral. A maioria dos estudos relatou resultados medidos em dois anos ou menos, mas os resultados foram semelhantes naqueles que avaliaram períodos maiores.



Fluticasona ns asma funciona melhor quando associada ao salmeterol (estudo GOAL)

Questão clínica
O tratamento de pacientes asmáticos com a utilização de doses gradativamente maiores da associação salmeterol-fluticasona é mais efetivo do que o uso isolado da fluticasona?

Resumo
Os pacientes tratados com doses gradativamente maiores de salmeterol/fluticasona têm maior tendência para chegarem a um controle total ou estarem bem controlados ao final de doze semanas e ao final de um ano do que os pacientes que utilizam apenas a fluticasona.

Nível de evidência: 1b

Referência
Bateman ED, Boushey HA, Bousquet J, et al. Can guideline-defined asthma control be achieved? The Gaining Optimal Asthma ControL Study. Am J Respir Crit Care Med 2004; 170:836-44.

Desenho de estudo:
ensaio clínico randomizado controlado (duplo cego)

Distribuição:
não descrita

Casuística:
pacientes ambulatoriais (quaisquer)

Discussão
Este estudo teve a duração de um ano e envolveu 3421 pacientes com idades entre 12 e 80 anos que tinham uma história de pelo menos seis meses de asma, menos de dez maços-ano de tabagismo e não haviam utilizado beta-agonistas orais de ação prolongada nas duas semanas anteriores ao seu início. Ele começou com um período de quatro semanas durante as quais os pacientes continuaram a utilizar seu tratamento habitual. Os pacientes que não tiveram duas semanas de um controle razoável da doença foram distribuídos aleatoriamente (ocultação da distribuição não descrita) para receber salmeterol associado a fluticasona ou propionato de fluticasona isoladamente. Cada grupo de tratamento também foi estratificado de acordo com seu uso de corticosteróides inalatórios durante os seis meses anteriores à seleção: não-uso, 500 mcg ou menos de dipropionato de beclometasona ou 500 a 1000 mcg e de dipropionato de beclometasona diários (o coletivamente). Nessa fase, as doses da medicação foram aumentadas até que se atingisse o controle total da asma ou a dose máxima da medicação: salmeterol/fluticasona 50/500mg dia. Os pacientes foram então mantidos com o uso dessa doses pelo resto do ano. O controle total da asma foi definido como sete de oito semanas sem sintomas durante o dia, o não uso das medicações de resgate, um pico de fluxo expiratório matinal de pelo menos 80% do predito e a ausência de despertares noturnos, exacerbações e visitas ao pronto-socorro e efeitos adversos da medicação. A asma bem controlada foi definida de maneira similar, exceto pelo seguinte: não mais do que dois dias com uma pontuação sintomática maior do que 1 e o uso da medicação de resgate por não mais do que dois dias e não mais do que quatro doses por semana. Essas definições provêm do Global Initiative for Asthma e do National Institutes of Health. O objetivo primário do estudo, avaliado pela intenção de tratamento, foi determinar a proporção de pacientes que conseguiu um bom controle da doença. Foi notada uma melhora significativa no grupo do salmeterol associado quando comparado ao grupo da fluticasona isolada em todas as fases de estudo independentemente do uso inicial de corticosteróides. Uma preocupação em relação a esse estudo, entretanto, é que ele defende um aumento automático da dose de produtos fabricados pelo patrocinador da pesquisa para se atingir um controle total da doença.



Antioxidantes não previnem cânceres gastro-intestinais e aumentam a mortalidade geral

Questão Clínica
Os antioxidantes previnem os cânceres gastro-intestinais?

Resumo
Os antioxidantes não previnem os cânceres gastro-intestinais. Na verdade, quando se reúnem apenas os resultados dos estudos de alta qualidade, eles aumentam a mortalidade geral.

Nível de evidência: 1a

Referência
Bjelakovic G, Nikolova D, Simonetti RG, Gluud C. Antioxidant supplements for prevention of gastrointestinal cancers: a systematic review and meta-analysis. Lancet 2004; 364:1219-28.

Desenho de estudo:
meta-análise (de ensaios clínicos randomizados controlados)

Casuística:
variada (meta-análise)

Discussão
Essa é uma revisão Cochrane que segue seus rigorosos métodos usuais de pesquisa, extração de dados e identificação daqueles não publicados. Os autores incluíram todos os estudos que randomizaram participantes para receber suplementação alimentar de anti-oxidantes (Beta-caroteno, vitaminas A e C e Selênio, em combinações diferentes ou separadamente) ou placebo e que relataram a incidência de cânceres gastro-intestinais. Os autores avaliaram a qualidade metodológica dos ensaios e calcularam a consistência dos achados. Foi avaliado um total de 14 ensaios randomizados controlados com 170.525 pacientes. O número de pacientes de cada estudo variou de 226 a quase 40.000. Metade dos estudos sobre incidência de câncer era de boa qualidade; e sete dos nove que também informaram a mortalidade eram de boa qualidade. Nenhum dos suplementos foi protetor contra os cânceres esofágico, gástrico, cólo-retal ou pancreático. Nos estudos de alta qualidade, os anti-oxidantes aumentaram a mortalidade geral (8,0% vs 6,6%). Isso se traduz em um número necessário para causar dano (NNH - number needed to harm) de 69 para cada morte adicional (CI de 95%, 58-85). É interessante notar que quatro estudos (3 de metodologia duvidosa) relataram que o Selênio reduz a incidência de câncer gastro-intestinal (odds ratio, ou taxa de disparidade = 0,49; IC:95%; 0,36-0,67). O Selênio deveria ser avaliado em estudos randomizados com métodos confiáveis.



Anti-agregamento plaquetário oral otimizado para doença vascular

Questão clínica
Quais agentes anti-agregantes plaquetários orais são, isoladamente ou combinados, efetivos na prevenção dos acidentes vasculares recidivantes?

Resumo
A aspirina é o anti-agregante plaquetário oral recomendado como agente de primeira escolha para pacientes com infarto do miocárdio com elevação do segmento ST. São recomendados a aspirina ou o clopidogrel para aqueles com um ataque isquêmico transitório (AIT) ou acidente vascular encefálico (AVE) primários, angina crônica estável ou doença arterial periférica. E a aspirina associada ao clopidogrel deveria ser utilizada para os pacientes com síndrome coronária aguda sem elevação do segmento ST. Para a terapia de segunda linha, a combinação da aspirina com o clopidogrel é recomendada para síndromes coronárias agudas recorrentes. A associação da aspirina com o dipiridamol de ação prolongada é recomendada para pacientes com AIT´s/AVE ´ s que não tenham doença coronariana conhecida. Estudos adicionais são necessários antes de se fazerem recomendações sólidas para o tratamento de pacientes com AIT´s/AVE´s recorrentes portadores de doença coronariana identificada.

Nível de evidência
1a-

Referência
Tran H, Anand SS. Oral antiplatelet therapy in cerebrovascular disease, coronary artery disease, and peripheral arterial disease. JAMA 2004; 292:1867-74.

Desenho de estudo: revisão sistemática

Casuística: variada (meta-análise)

Discussão
A aspirina previne a recidiva de eventos vasculares em uma ampla gama de pacientes de alto risco, mas não se sabe se outros agentes anti-plaquetários, tais como o clopidogrel e o dipiridamol, isolados ou em combinação com a aspirina, são mais efetivos. Os pesquisadores investigaram rigorosamente vários bancos de dados incluindo o MedLine, o registro Cochrane de ensaios clínicos e listas de referências de estudos, artigos de revisão e declarações e diretrizes científicas de sociedades oficiais. Os autores incluíram a estudos randomizados que comparavam um regime anti-plaquetário ao outro ou ao placebo e que avaliassem os resultados por pelo menos dez dias. Eles identificaram 111 estudos que envolveram quase 100.000 pacientes. Os pesquisadores não afirmam se a busca e avaliação dos estudos incluídos foram realizadas independentemente por mais de uma pessoa. Não foi realizada uma avaliação formal do potencial para um viés de publicação em qualquer análise específica para determinar a homogeneidade dos resultados. A terapia anti-agregante oral de primeira linha recomendada para pacientes com infarto do miocárdio com elevação do segmento ST foi a aspirina; a aspirina ou o clopidogrel para aqueles com AIT´s/AVE´s isquêmicos iniciais, angina estável crônica ou doença arterial periférica (uma vez que a aspirina é mais barata, o clopidogrel deveria ser reservado apenas para aqueles pacientes que não a toleram); e a aspirina associada ao clopidogrel para aqueles com síndromes coronárias agudas sem elevação no segmento ST. Como terapia de segunda linha, a combinação de aspirina com clopidogrel é recomendada para síndromes agudas coronárias recidivantes. A associação da aspirina ao clopidogrel, entretanto, não reduz a incidência de eventos vasculares recorrentes em pacientes com AIT´s/AVE´s isquêmicos, mas aumenta o risco de sangramentos importantes. A combinação da aspirina com o dipiridamol de liberação prolongada é, portanto, recomendada para os pacientes com AIT´s/AVE´s isquêmicos recorrentes na ausência de doença coronariana conhecida. Devido ao risco teórico de o dipiridamol exacerbar a isquemia miocárdica, são necessários estudos adicionais antes de se realizarem recomendações firmes sobre o tratamento de pacientes com AIT´s/AVE´s isquêmicos e doença coronariana conhecida. A ticlodipina é benéfica para várias condições vasculares, mas os efeitos colaterais freqüentes -alguns bastante sérios- limitam sua utilidade.



Existe eficácia no uso da acupuntura em osteoartrite de joelho


Questão clinica:
A acupuntura é eficaz para diminuir a intensidade da dor e melhorar a mobilidade em pacientes com osteoartrite de joelho?

Resumo:
Acupuntura, quando comparada com uma técnica falsa de acupuntura ou nenhum tratamento, melhorou em 40% a média de dor, e de forma similar a mobilidade dos pacientes tratados. A técnica de acupuntura utilizada no estudo foi a Acupuntura Chinesa Tradicional com base na teoria dos meridianos. O estudo teve duração de seis meses. (LOE = 1b)

Desenho do Estudo: estudo controlado randomizado duplo cego.

Referência :
Berman BM, Lao L, Langenberg P, Lee WL, Gilpin AM, Hochberg MC. Effectiveness of acupuncture as adjunctive therapy in osteoarthritis of the knee: a randomized, controlled trial. Ann Intern Med 2004; 141:901-10.

Casuística: pacientes ambulatoriais.

Discussão:
Este foi o maior e mais rigoroso estudo realizado para demonstrar a eficácia da acupuntura no tratamento da osteoartrite. Os autores selecionaram 570 pacientes que apresentavam evidência clinica e radiológica de osteoartrite no joelho e que não utilizavam nenhum tipo de injeções intra-articular. Os pacientes foram divididos em três grupos distintos: (1) “acupuntura real” baseada na Medicina Tradicional Chinesa com base na teoria dos meridianos para tratar dor articular em joelho; (2) uma “falsa acupuntura” que mimetizava a técnica real, porém sem a inserção das agulhas (as agulhas eram fixadas com fita adesiva em pontos falsos sem realmente penetrarem a pele do paciente); e (3) um grupo controle que recebeu 62 horas de sessões explicativas/educacionais com especialistas em educação de pacientes, além de material didático. O tratamento foi realizado da seguinte forma, nas primeiras 8 semanas com duas sessões semanais e nas seguintes com uma sessão semanal até o término do estudo. Na 14ª semana, foi realizada uma graduação para dor seguindo uma escala da Universidade de Ontário ( Western Ontario and McMaster University Osteoarthritis Index), onde se identificou uma diminuição da média de dor inicial de 8.9 (máximo de 20 pontos) para 3.6 ( 40% de diminuição na média da dor) no grupo em que foi realizada a acupuntura, em comparação a um aumento de 2.7 no grupo da “falsa” acupuntura e a uma melhora de 1.5 no grupo educacional. Está mudança no grupo da acupuntura é estatisticamente significativa quando comparada aos outros dois grupos. Após esta analise inicial a graduação da dor diminuiu nos três grupos com o decorrer do estudo, sendo que o grupo 1 manteve sempre as mudanças mais significativas. O déficit funcional diminuiu de uma média de 32 pontos iniciais (máximo de 68 pontos) para 19 pontos no final do estudo, uma melhora de aproximadamente 40% o que foi estatisticamente superior aos outros dois grupos. O índice global dos pacientes em relação à patologia também apresentou melhora estatística significativa no grupo da acupuntura, superior aos demais grupos.



Supressão da acidez gástrica associada com o aumento do risco de pneumonia

Questão clinica
O uso de drogas supressoras da acidez aumenta o risco de pneumonia comunitária?

Ponto principal
O uso habitual da terapia de supressão da acidez gástrica, incluindo tanto os antagonistas dos receptores H2(ARH2) e os inibidores da bomba de prótons (IBP), está associado com um pequeno aumento do risco de pneumonia comunitária. Altas doses de IBP estão associadas com o aumento do risco. O risco é muito baixo e pacientes que fazem uso desta medicação podem ser igualmente bem monitorados com dose reduzida ou parando o tratamento por completo.

Referência
Laheij RJ, Sturkenboom MC, Hassing RJ, Dieleman J, Stricker BH, Jansen JB, Risk of community-acquired pneumonia and use of gastric acid-suppressive drugs. JAMA 2004; 292:1955-60.

Desenho do estudo: Caso-controle

Ambientação: Estudo populacional

Resumo
Drogas supressoras da acidez, incluindo ARH2 e IBP, podem aumentar o risco de colonização bacteriana do trato gastrointestinal por aumento do pH gástrico. Existem evidências de que a terapia de supressão ácida aumenta o risco de infecção em ambiente hospitalar, porém poucos estudos têm sido realizados em pacientes não hospitalizados. Os autores reuniram dados de um arquivo eletrônico comum de pacientes de aproximadamente 150 clínicos dos Países Baixos. Este arquivo contém as informações médicas completas de aproximadamente 500.000 pacientes e foi validado pela pesquisa farmacoepidemiológica. Pacientes com pneumonia comunitária foram pareados com dez pacientes controle selecionados randomicamente por sexo, idade, e data de admissão neste arquivo.A exposição à ARH2 e IBP também foi classificada por duração e quantidade do uso individual das drogas. As taxas de incidência de pneumonia em não usuários de drogas de supressão ácida e nos usuários foram respectivamente de 0,6 e 2,45 por 100 pessoas/ano. Pacientes que faziam uso contínuo de IBP tiveram maior propensão em desenvolver pneumonia do que aqueles que pararam o uso da droga. O número necessário para causar dano (NNH) = 449; intervalo de confiança 95%, 247-1111. Semelhantemente, usuários contínuos de ARH2 também tiveram maior propensão em desenvolver pneumonia, sendo o número necessário para causar dano de = 635; 270-5714. Para usuários contínuos de IBP, o risco de pneumonia aumentou proporcionalmente com o aumento da dosagem.

Comentários
Este Poem nos faz pensar, preferencialmente, na população geriátrica, com ênfase nos que se encontram em casas de repouso, ou em atendimento domiciliar. Os idosos, de modo geral, fazem uso de vários tipos de medicações e não é prática incomum do médico que cuida deles, associar uma medicação “para minimizar a agressão gástrica” que os medicamentos em uso podem provocar. A condição de que “mal não faz, e protege” não parece lógica à vista das orientações deste Poem. Antes de introduzir os “protetores gástricos” de modo indiscriminado, parece mais sensato guiar-se pelos sintomas do paciente, individualizando cada caso.



Redução de lipídios no diabetes tipo 2 é valiosa

Questão clínica
Qual o papel da redução dos lipídios do diabetes tipo 2?

Resumo
Essas diretrizes elaboradas pelo American College of Physicians recomendam a redução agressiva dos níveis elevados de lipídios em pacientes com diabetes tipo 2 que têm doença coronariana preexistente ou que estejam sob risco de doença cardíaca. Elas recomendam uso de doses pelo menos moderada de estatinas e refutam a monitoração rotineira da função hepática.

Nível de evidência
1a

Referência
Snow V, Aronson MD, Hornbake R, Mottur-Pilson C, Weiss KB.Lipid control in the management of type 2 diabetes melllitus: a clinical practice guideline from the American College of Physicians. Ann Intern Med 2004; 140:644-49. Vijan S, Hayward RA. Pharmacologic lipid-lowering therapy in type 2 diabetes mellitus: background paper for the American Colege of Physicians. Ann Intern Med 2004; 140:650-58.

Desenho de estudo: diretrizes de prática (guidelines)

Casuística: várias (diretrizes)

Discussão
Cerca de 80% dos pacientes com diabetes morrem por distúrbios macro-vasculares e o controle estrito dos níveis glicêmicos tem pouco ou nenhum efeito na diminuição dessas manifestações. Conseqüentemente, o abandono do tabagismo, o controle da pressão arterial e a diminuição dos níveis lipídicos são mais valiosos do que o controle da glicemia nesses pacientes. O American College of Physicians recomenda que todos os pacientes com diabetes tipo 2, doença coronariana conhecida e níveis elevados de lipídios sejam tratados com alguma estatina (número necessário para tratar por cinco anos para prevenir a mórbi-mortalidade cardiovascular = 14). Os pacientes com diabetes tipo 2 sem doença cardíaca mas com fatores de risco também deveriam receber um tratamento agressivo para a redução dos lipídios (prevenção primária, número necessário para tratar por 4,3 anos para prevenir a morbidade cardiovascular = 35). As diretrizes não recomendam nenhuma estatina preferencialmente e nem uma taxa-alvo para o LDL, apesar de recomendarem doses pelo menos "moderadas" de estatinas. Outra recomendação valiosa: as diretrizes recomendam contra a monitoração rotineira da função hepática, exceto em pacientes sintomáticos, com elevações de base ou que utilizem outras drogas as quais aumentem o risco de efeitos adversos.



Omeprazol 20 mg = 40 mg na dispepsia ácida em atenção primária

Questão clínica
40 mg de omeprazol são melhores do que 20 mg para o tratamento de pacientes de atenção primária com dispepsia?

Resumo
O omeprazol 20 mg é altamente efetivo para tratamento da dispepsia relacionada ao ácido. Não houve vantagem na administração de doses mais altas e a recidiva após o período inicial de tratamento (duas semanas) foi comum.

Nível de evidência
1b

Referência
Meineche-Schmidt V. Empiric treatment with high and standard dose of omeprazole in general practice: 2-week randomized placebo-controlled trial and 12-month follow-up of healthcare consumption. Am J Gastroenterol 2004; 99:1050-58.

Desenho de estudo: ensaio clínico randomizado controlado (duplo-cego)

Distribuição: ocultada

Casuística: ambulatorial (atenção primária)

Resumo
Uma estratégia comum no tratamento de pacientes com dispepsia e sem sintomas de alarme é prescrever um inibidor da bomba protônica. Esse estudo pragmático foi desenvolvido por uma rede dinamarquesa de pesquisa em atenção primária que envolveu 103 médicos e 829 pacientes. Adultos com queixa de dispepsia (que seus médicos interpretaram como relacionada ao ácido) e sem sintomas de alarme foram aleatoriamente distribuídos para tomar 40 ou 20 mg de omeprazol por dia ou então placebo. Os sintomas de alarme foram definidos como sangramento retal ou hematêmese, emagrecimento não intencional, vômitos, disfagia, icterícia ou outros sinais de qualquer doença séria. Os grupos foram inicialmente similares, com uma média de idade de 50 anos; 58% eram mulheres. A distribuição foi ocultada e os resultados foram avaliados cegamente, com análise por intenção de tratamento. Os pacientes foram tratados por duas semanas e as medicações foram então interrompidas. Durante o ano de observação seguinte, do qual 92% dos pacientes participaram, os autores mediram o tempo até a recidiva dos sintomas e o consumo de recursos. Os sintomas mais comuns em todos os grupos foram: dor epigástrica, regurgitação, queimação, empachamento e dor noturna. Os sintomas foram taxados como moderados por 63% dos pacientes e como graves por 15%. Ao final de duas semanas foi relatado um alívio satisfatório maior nos grupos de 20 e 40 mg do que no grupo do placebo (71%,69,6% e 43%, respectivamente) bem como alívio completo (66,4%, 63% e 34,9%). O número necessário para tratar foi entre 3 e 4 para ambos os resultados. Os resultados foram similares tanto para pacientes com H. Pylori positivo quanto negativo. A maioria dos pacientes dos três grupos teve uma recidiva dos sintomas durante o ano seguinte ao tratamento inicial.

Comentários

Deve ser notado que o Poem está centrado nos sintomas do paciente, em cenário de atenção primária, sem discutir-se patologias gástricas , confirmadas por exames complementares (endoscopia e outros). Assim situados, o recado é claro: quando se trata de sintomas, não há vantagem em começar com doses maiores de Omeprazol, sendo a dose de 20 mg. igualmente eficaz à de 40 para controlar os sintomas. É bom ter isto presente, como base científica, pois com alguma freqüência o médico que atua em atenção primária possui a tendência a estabelecer uma curiosa relação entre dose deste tipo de medicação e intensidade de sintomas (intensidade esta que, como todo sintoma, é subjetiva: depende do modo como o paciente relata o sintoma, da importância que lhe dá, da vivência do mesmo). Pode-se, com tranqüilidade e “com fé” administrar a dose menor de Omeprazol, por mais floridos que sejam os sintomas. Deve funcionar.



O uso regular de beta-bloqueadores reduz o uso de fraturas

Questão Clínica:
Os beta-bloqueadores reduzem o risco de fraturas?

Desenho do Estudo:
Caso-controle.

Casuística:
População geral.

Resumo:
O uso de beta-bloqueadores, tomados isoladamente ou em combinação com diuréticos tiazídicos, é associado a uma redução do risco de fraturas. Este benefício adicional sustenta o uso destes agentes no tratamento da hipertensão arterial, especialmente em pacientes de risco para o desenvolvimento de osteoporose.
Nível de evidência : 2b

Discussão:
Os beta-bloqueadores inibem o efeito catabólico do sistema nervoso simpático sobre o metabolismo ósseo e reduzem assim o risco de fratura. Os investigadores analisaram o banco de dados da “United Kingdom General Practice Research” para identificar 30 601 pacientes com idade entre 30 e 79 anos e história de fratura. Os pacientes do grupo controle em número de 120 819 eram indivíduos sem história de fratura, selecionados da população por randomização e agrupados de acordo com idade, sexo, serviço de atendimento e anos de história prévia no banco de dados. O banco de dados de prescrições por computador confirmou a exposição a beta-bloqueadores e tiazídicos ou diuréticos similares aos tiazídicos. Os dados foram ajustados em relação a fatores potenciais que pudessem interferir com os resultados, tais como: idade, sexo, tabagismo, índice de massa corporal, número de consultas e uso de outras medicações capazes de afetar o risco de fraturas. Comparados com os não usuários de beta-bloqueadores ou tiazídicos, os usuários habituais com 3 ou mais prescrições de beta-bloqueadores tiveram uma redução significativa do risco de fraturas (OR = 0.77; 95% CI, 0.72 – 0.83). Similarmente, usuários habituais de tiazídicos isoladamente e beta-bloqueadores e tiazídicos concomitantemente também tiveram uma redução do risco de fraturas. (OR = 0.80; 95% CI, 0.74 – 0.86 e OR = 0.71; 95% CI, 0.64 – 0.79, respectivamente).

Referência:
Schlienger RG, Kraenzlin ME, Jick SS, Meier CR. Use of β blockers and risk of fractures. JAMA 2004; 292: 1326-32.

Comentários:
Na atualidade, com o aumento da perspectiva de vida da população na maioria dos países, a incidência de doenças relacionadas ao envelhecimento vem aumentando e o número de pacientes com co-morbidades é cada vez mais significativo. Assim, é muito importante que o médico que atua em atenção primária aprenda a manejar as diversas doenças que acometem o seu paciente, abordando-o como um todo e não de forma fragmentada. Este POEM ilustra bem esta idéia, mostrando na prática como se pode utilizar os “efeitos colaterais benéficos” de um medicamento na prevenção ou tratamento de uma condição concomitante. Assim, aos benefícios já conhecidos no uso de diuréticos no tratamento da hipertensão arterial este novo benefício vem somar e aumentar as preferências quando o tratamento destina-se a população geriátrica. Do mesmo modo, o uso dos beta bloqueadores em população semelhante, que pode estar também indicado por co-existência de, por exemplo, insuficiência coronariana, fica também reforçado com este novo benefício.



Heparina de baixo peso molecular (HBPM) é igualmente eficaz no embolismo pulmonar (EP)

Questão clínica:
A heparina de baixo peso molecular (HBPM) é tão eficaz no embolismo pulmonar quanto a heparina de doses ajustáveis?

Resumo:
A HBPM é tão eficaz quanto a heparina não fracionada de doses ajustáveis no tratamento de embolismo pulmonar (EP) sintomático ou assintomático em pacientes com trombose venosa profunda (TVP). As taxas de sangramento foram semelhantes.

Nível de evidência:
1a

Referencia:
Quinlan DJ, McQuillan A, Eikelboom JW. Low-molecular-weight heparin compared with intravenous unfractionated heparin for treatment of pulmonary embolism. Ann Intern Med 2004; 140:175-183.

Desenho de estudo:
Meta-análise (amostras controladas randomizadas)

Casuística:
Variada (meta-análise)

Discussão:
Apesra da HBPM ser usada de forma comum no tratamento da trobose venosa profunda (TVP), alguns médicos se questionam se ela apresenta a mesma eficácia no embolismo pulmonar (EP). Esses pesquisadores realiazarm essa meta-análise que identificou 12 trabalhos, que envolveram um total de 1951 pacientes, através de pesquisa nos bancos de dados do MEDLINE, EMBASE, te da Cochrane, procedimentos de verificação, e contato individual com os pesquisadores responsáveis e as indústrias farmaceuticas. Dois pesquisadores avaliaram individualmente os estudos para determinar sua validade para inclusão e retirada de dados. Eles avaliaram os trabalhos para ver se sua validade, presença de randomização e distribuição não revelada, além de um seguimento mínimo de 90% dos pacientes em todos eles. Houve uma homogeneidade quanto aos resultados encontrados e não houve evidência de viés em suas publicações. Os estudos compararam uso de doses pré estabelecidas de HBPM administradas por via subcutânea com doses ajustáveis da heparina não fracionada administrada via endovenosa em pacientes com embolismo pulmonar (EP) sintomático os assintomático associados a presença de TVP sintomática. A mortalidade decorrente de qualquer fator foi semelhante a dos pacientes tratados com heparina apesra do número de mortes Ter sido menor (1.2% contra 1.4%), o que é bom para os pacientes porém é difícil para os pesquisadores verificarem se essa diferença realmente existiu. As taxas de tromboembolismo venoso (EP ou TVP) sintomático no final do tratamento foram estatisticamente semelhantes entre os 2 grupos 1.4% contra 2.4%. Da mesma forma, não foi encontrada diferença nas taxas de tromboembolismo venoso em pacientes com EP sintomático ou assintomático. As taxas de hemorragia (maiores e menores) foram semelhantes nos dois tipos de tratamento. Não foram encontradas evidências de que a HBPM seja melhor do que outras formas em termos de eficácia ou satisfação.



Períodos curtos de tratamento com corticoesteróides são eficazes para sepse


Questão clínica
O tratamento prolongado com baixas doses de corticoesteróides podem reduzir a mortalidade decorrente de sepse severa ou choque séptico?

Resumo
Apesar do uso de altas doses de corticóides serem ineficazes para o tratamento da sepse grave ou do choque séptico, menos de 300 mg de hidrocortizona administradas por pelo menos 5 dias levam a redução da mortalidade precoce e tardia. (LOE = 1a-)

Nível de Evidência:
1a (revisão sistemática de múltiplos estudos randomizados)

Referência:
Annane D, Bellissant E, Gollaert PE, et al. Corticosteroids for severe sepsis and septic shock: a systematic review and meta-analysis. BMJ, doi:10.1136/bmj.38181.48222.55 (published 2 August 2004).
Desenho de Estudo: Meta-analise

Casuística:
Pacientes internados (apenas UTI)

Discussão:
Meta análises anteriores mostraram que altas doses de corticoesteróides administrados por curtos intervalos de tempo não oferecem benefícios a pacientes com sepse severa ou choque séptico (Crit Care Med 1995; 23:1294-303). Essa meta análise revisou a questão e também analisou a função de tratamentos com baixas doses de corticoesteróides por longos intervalos de tempo. Nessa análise bem feita, os autores pesquisaram potenciais estudos em alguns bancos de dados, divididos em duplas eles determinaram a elegibilidade de cada estudo. Quatro revisores extraíram independentemente os dados, contatando os autores em busca de dados que julgassem necessários e não estavam presentes nos estudos. Eles identificaram 16 estudos randomizados ou quase-randomizados que avaliaram um total de 2063 pacientes. A maioria dos estudos era duplo-cego e apresentava distribuição adequadamente não revelada.
A terapia de altas doses por curtos intervalos de tempo, definida como mais de 300 mg de hidrocortizona por menos de 5 dias, não surtiu efeito nas taxas de mortalidade com 28 dias. Contudo, nos 5 estudos que envolveram terapias com baixas doses de corticóides (300 mg ou menos) por intervalos longos, todos levaram a uma redução da mortalidade em aproximadamente 20% dos pacientes tratados ( risco relativo = 0.8; 95% CI, 0.67 - 0.95). Uma morte foi evitada para cada 9 pacientes que foram tratados com baixas doses de corticóides por períodos prolongados sem nenhum tratamento adicional (número necessário para tratar [NNT] = 8.8; 95% CI, 5.4 - 35.7). As taxas de mortalidade nas unidades de terapia intensiva também foram menores (NNT = 9.1; 95% CI, 5.5- 54.6). O tratamento com corticóides não aumentou o risco de sangramento gastrointestinal, infecções conjuntas e hiperglicemia.

Comentários:

O uso de doses baixas e continuas de Hidrocortisona, como conduta a ser adotada em pacientes internados na UTI com quadros infecciosos graves, supõe uma mudança de orientação, e uma perspectiva de melhorar o tratamento de pacientes com prognóstico grave. Tudo faz pensar que vale a pena incorporar esta prática junto com as demais medidas convencionais, visto o índice de impacto alto (1 para cada 9 tratados).



Não se recomenda screening de rotina para doenças cardíacas


Questão Clinica:
Deve-se utilizar tecnologias específicas em screening a fim de se identificar doenças do coração em pacientes assintomáticos?

Casuística:
variado (guideline).

Desenho do estudo:
guideline prático.

Resumo:
A American Task Force de serviços de prevenção não recomenda screening de rotina em adultos com baixo risco de doenças do coração através de eletrocardiograma (ECG), teste de esforço, ou tomografia computadorizada (TC) devido ao seu dano (muitos testes de pacientes com resultado falso-positivo) superar seus benefícios. Nível de evidência : 2b.

Discussão:

Pode o screening para uma doença ser prejudicial mesmo que o teste por si só seja inocente ou até benigno? Existem atualmente muitos riscos associados com o screening. Tal conceito pode ser difícil de aceitar visto que, no final das contas, uma pessoa na qual a doença é encontrada "justifica" todos os exames feitos em muitos sem a doença. O problema com o screening não diz respeito ao que realmente tem a doença (é claro!), mas sim a pacientes que, apresentando teste positivo, não tem a doença. (= resultado falso positivo) Estes pacientes freqüentemente são submetidos a outros testes para afastar a possibilidade da doença, podem receber tratamento desnecessário e até podem ser identificados como "falsos doentes" provocando um desgaste psicológico e financeiro.
Neste caso do screening para doença do coração, testes como ECG de base, teste de esforço ou TC são pobres em distinguir pacientes com doença daqueles que não a tem. Em pacientes assintomáticos, mudanças no ECG estão presentes em menos de 10% dos pacientes com doenças do coração. O valor preditivo positivo do teste de esforço na população geral, sem outro comemorativo epidemiológico que nos guie varia de 6%- 48%, o que significa que, dependendo da população à qual se aplica o screening indiscriminado, pode resultar que até 94% dos pacientes com testes positivos não tenham risco para um evento cardiovascular. Não existem dados na avaliação da TC em pacientes assintomáticos (ainda bem!) Com estas informações a Força Tarefa conclui que os riscos de pedir estes exames superam os benefícios em pacientes de baixo risco.

Comentário:
A cultura de se realizar screening entre os pacientes é muito forte. Deve-se entender que screening, por definição, é rastreamento da doença na população em geral. Se pensamos em pacientes com certo nível de risco, o screening deixa de sê-lo para converter-se em investigação complementar.

É comum os pacientes procurarem o médico exclusivamente para fazer exames de check-up, sem apresentar qualquer sintoma. Nesse contexto, as preocupações referentes a problemas cardíacos são grandes, afinal as doenças cardiovasculares são muito prevalentes no nosso meio, e o paciente não fica satisfeito se não for pedido um exame, pelo menos um ECG, no final da consulta. No entanto, este POEM nos alerta sobre os cuidados que devemos ter quando solicitamos exames, devemos ter critérios clínicos bem estruturados, pois poderemos mais prejudicar do que ajudar os pacientes.

Referencia
US Preventive Services Task Force. Screening for coronary heart disease: Recommendation statement. Ann Intern Med 2004;140:



Não é necessário o uso de luvas estéreis para reparos de lacerações

Questão Clinica:
As luvas estéreis oferecem maior proteção contra infecções de pele quando comparadas com luvas não estéreis e limpas no reparo de lacerações não complicadas?

Casuística:
Departamento de Emergência.

Desenho do estudo:
Estudo randomizado (cego - simples)

Resumo:
A taxa de infecção em pacientes nos quais ocorre um reparo de lacerações não complicadas e análoga e sem diferença significativa, quando utilizadas luvas estéreis ou luvas simples e limpas. Nível de evidencia: 1b

Discussão :
Os investigadores envolveram 816 pacientes presentes no departamento de emergência de três hospitais com lacerações limpas, não originadas de mordida e que, pelo aspecto, não requeriam antibiótico para o tratamento.
Os pacientes foram randomizados para serem tratados com luvas de látex esterilizadas ou luvas também de látex, mas não esterilizada.Os médicos envolvidos sabiam em que grupo os pacientes (estéril x não estéril) estavam alocados. Já os paciente não sabiam se estavam sendo tratados com luvas estéreis ou não. Convem apontar que o fato dos médicos conhecerem que tipo de luva estavam usando pode criar um viés no estudo: sempre se coloca maior cuidado, mesmo inconscientemente, quando se sabe que a luva não é estéril
O seguimento foi feito por um outro médico que não sabia se o paciente tinha sido tratado utilizando-se luva estéril ou não. 98% dos paciente foram acompanhados até o final do estudo. Infecção ocorreu em 6,1% dos pacientes tratados com luvas estéreis e 4,4% dos pacientes tratados com luvas não estéreis, que resulta numa diferença não significativa.

Referencia:

Perelman VS, Grancis GJ, Rutledge T, et al. Sterile versus nonsterile gloves for repair of uncomplicated lacerations in the emergency department: a randomized controlled trial. Ann Emerg Med 2004; 43:362-70.



Medidas de pressão arterial em casa complementam medidas no consultórios

Questão clínica
Quais as diferenças na decisão terapêutica no controle da hipertensão arterial baseada em medidas de pressão arterial realizadas em casa e no consultório médico?

Casuística:
Pacientes de ambulatório (quaisquer)

Desenho do estudo:
Estudo randomizado (cego simples)

Resumo
Os ajustes do tratamento para hipertensão baseados nas medidas de pressão feitas em casa (ao invés das medidas no consultório) resultaram num tratamento medicamentoso menos intenso e uma redução moderada nos custos, mas o controle geral da pressão arterial foi menos intenso. Não houve diferenças relatadas no que diz respeito à redução da massa ventricular esquerda ou no bem estar do paciente. Parece razoável continuar tomando decisões baseadas na combinação das duas medidas (casa e consultório) até termos mais dados de longo prazo com a devida avaliação de resultados voltada ao paciente.
Nível de evidencia: 1b

Discussão
Pacientes e seus médicos freqüentemente decidem o tratamento de hipertensão arterial sistêmica (HAS) baseados na combinação das medidas da pressão arterial (PA) realizadas em casa e no consultório. Para determinar o efeito das medidas realizadas em casa, 400 pacientes com pressão arterial diastólica (PAD) de 95 mmhg ou mais, foram escolhidos para ajustar o tratamento de hipertensão de acordo com as medidas de PAD feitas em casa ou as medidas realizadas no consultório médico. Ambas as medidas de PAD estavam disponíveis em todas as consultas, mas as decisões terapêuticas eram tomadas por um só médico, em um centro separado, que não tinha conhecimento se os valores eram obtidos em casa ou no consultório. Retornos para acompanhamento foram marcados a cada 2 meses durante 1 ano. No total, 87% dos pacientes puderam ser avaliados durante todo o período. Todos os pacientes se submeteram a um monitoramento de pressão por 24h gravados (MAPA), no início, aos 6 meses e no final do acompanhamento. A massa ventricular esquerda foi medida de maneira não invasiva por eletrocardiograma ou ecocardiografia. Sintomas foram registrados através de relatos dos pacientes utilizando questionários
.
Um maior numero de pacientes do grupo com controle de PA em casa pararam de tomar medicações para HAS (25.6% vs 11.3%; P < .001). Todavia com os pacientes que precisaram de tratamento com múltiplas drogas, não houve diferença significativa no controle da pressão entre os grupos. A massa ventricular esquerda e sintomas relatados foram similares nos dois grupos. Custos medicamentosos foram um pouco maiores (U$4921 vs U$4473 por 100 pacientes por mês) no grupo com a PA medida no consultório.

Como medir a PA do paciente sem ser no consultório médico?
Um método eficaz e fácil do paciente seguir a seguinte uma tabela de pressão, onde o paciente pode ter os valores da pressão anotados durante um período de tempo e nos trazer depois. O médico fornece ao paciente um papel com uma tabela como esta exemplificada abaixo:

 DATA   PRESSÃO  HORA
     
     
     
     
     
     

O médico deve ainda dar algumas explicações ao paciente:
- Importância de várias medidas ao invés de um valor medido no consultório.
- Local adequado para medir a PA (posto de saúde).
- O paciente não deve se alimentar, fumar ou beber café cerca de 30 min antes de verificar a PA.
- Caso o paciente vá andando ao local ele deve sentar-se e aguardar cerca de 15 minutos para então verificar a PA.
- Pedir ao paciente para que verifique a PA apenas duas vezes por semana, isto diminui a ansiedade do paciente e nos fornece um número razoável de medidas.
- Pedir ao paciente que traga essa folha no retorno.

Quando o paciente trouxer esta tabela você associa estes resultados às medidas feitas no consultório. Assim você poderá tomar a atitude mais equilibrada e cuidar melhor do seu paciente.

Referência

Staessen JA, Den Hond E, Celis H, et al. Antihypertensive treatment based on blood pressure measurement at home or in the physician's office. A randomized controlled trial. JAMA 2004; 291:955-64.


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